Edição 130 - Junho de 2017

A Sagração da Guerreira

Elza Soares abraça o status de mito e ganha o mundo enquanto prepara biografia, esboça álbum e aguarda filme e musical sobre as batalhas de sua trajetória
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por Mauro Ferreira

Elza da Conceição Soares foi abençoada por uma vaca. A benção não foi dada na Índia, país onde o animal é sagrado, mas no Brasil, que pariu há 87 anos essa mulher guerreira da pele preta, dura nas rasteiras literais e metafóricas que a vida lhe deu. A história de Elza com a vaca aconteceu em um morro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro e permanece forte e sacra na memória da cantora. Ela era uma menina com pouco mais de 2 anos; enquanto a mãe leoa, Rosária Maria da Conceição, foi buscar água para matar a sede das filhas que protegia com fúria inabalável, a vaca se aproximou de Elza. “Era uma vaca magra que pegava todo mundo. A vaca se aproximou de mim, me lambeu, lambeu de novo e foi embora. Eu fechos os olhos e me lembro de cada detalhe. Foi muito forte. A lambida da vaca significa para mim um ritual de benção”, caracteriza Elza.

Até para os míticos a atual sagração dessa guerreira brasileira parece ser mais efeito da força interior da cantora, dona de voz rouca e cheia de bossa negra, do que de uma benção especial. E também de um disco celebrado que recolocou a artista no topo em 2015. Mas Elza, que segue o espiritismo, crê no significado do acontecimento com a vaca com fervorosa devoção.

“Acho que hoje eu sou vista como uma entidade”, analisa. O fato é que até divindades da música nacional, como Maria Bethânia, se rendem ao poder musical da deusa de ébano. Em recente encontro em um avião, a artista baiana se ajoelhou aos pés de Elza e disse: “Não há nada mais moderno na música brasileira do que o seu CD. Não paro de ouvir. O Brasil deve muito a você”.

Bethânia se referiu ao disco A Mulher do Fim do Mundo, eleito o melhor de 2015 pela Rolling Stone Brasil. Neste álbum, produzido por Guilherme Kastrup sob a direção artística de Romulo Fróes e Celso Sim, Elza se conectou a nomes fundamentais da contemporânea cena musical paulistana, fazendo um samba noise com atitude, erotismo, rock and roll e coragem para encarar o apocalipse social. No último ano, esse som ultrapassou as fronteiras do Brasil, repaginou a imagem de Elza e levou a artista – eleita a “cantora do milênio” pela BBC de Londres em 2000 – a várias partes do mundo em uma ação que transformou todos os envolvidos na produção do disco, como atesta o compositor Romulo Fróes, parceiro de Alice Coutinho na composição do samba-título.

“Estar diante de Elza e produzir um disco com ela é estar diante da própria história da música popular brasileira, com a possibilidade de contribuir para a evolução dessa música”, depõe Fróes. “Só uma artista com a dimensão dela seria capaz de disseminar e ampliar as conquistas de toda uma geração surgida após a derrocada da indústria fonográfica. E apenas ela, com tantos anos de carreira, para entender e transformar essas conquistas, nos levando para caminhos desconhecidos por nós mesmos. Posso afirmar que A Mulher do Fim do Mundo é o auge da carreira de todos os envolvidos e que a recepção arrebatadora do álbum transformou todos os nossos trabalhos individuais desde então.”

Fróes não exagera. A recepção do trabalho abarca uma entusiasmada resenha do crítico Jon Pareles, do jornal New York Times. “Tradução nenhuma é necessária para reconhecer a ira e a coragem de A Mulher do Fim do Mundo”, afirmou Pareles, que incluiu o álbum na lista dos dez melhores lançados nos Estados Unidos em 2016.

A própria Elza se surpreendeu com a repercussão das canções, que geraram turnê internacional por países da Europa e dos Estados Unidos, e um disco de remixes que chega ao mercado em 30 de junho. “Eu trabalhei para isso. Esperava que acontecesse alguma coisa, esperava um sucesso, mas não nessa proporção gigantesca. Tenho uma vida de glória, com muitos nãos, muitos sins. Mas a vitória é sempre uma glória”, conceitua Elza, que faz uma média de seis a oito shows por mês. “Se eu falar para Elza que tem show todo dia, ela topa”, espanta-se Juliano Holanda, empresário e produtor da cantora.

A vitória de Elza Soares chega após inúmeras batalhas e a encontra em um momento de paz interior, de bem com a vida que lhe foi dura. “Tô bem, tô tão tranquila. Se a alma está tranquila, a matéria fica bem”, sentencia. Antes da primeira explosão, em dezembro de 1959, com a regravação do samba “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues, 1938), Elza caiu e se levantou numerosas vezes. Mãe aos 13 anos, perdeu o filho Edmundo para a fome aos 15, enviuvou aos 21, sofreu abusos de homens com os quais se relacionou, amargou injustiças, chorou mortes de mais dois filhos... mas nunca se entregou. “O perdão é uma coisa maravilhosa. Eu prefiro sempre esquecer e continuar minha trajetória”, ressalta. “Sempre fui determinada, calada, sabia o caminho que estava buscando, e também sabia que eu levaria muitos tombos.”

Em um momento desanimador, ela quase desistiu da carreira. Foi na década de 1980, “anos difíceis”, na avaliação da cantora. “Faltavam shows, faltava atenção da gravadora. O sucesso parecia impossível. Tudo isso me deixava triste. Aí eu fui buscar o Caetano [Veloso]. Ele era o homem para me ajudar naquela época. Com ele do meu lado, as coisas voltaram a fluir”, lembra Elza, que renasceu das cinzas (mais uma vez) ao gravar “Língua” com Caetano no álbum Velô, lançado por ele em 1984.

Admirador da voz e da garra de Elza, Caetano lembra do apelo. “No começo dos anos 1980, Elza me procurou em São Paulo, onde eu estava hospedado num hotel por compromissos profissionais na cidade”, conta. “Ela dizia que planejava parar de cantar por não encontrar oportunidades nem reconhecimento. Como eu a adoro, argumentei contra seus planos de desistência e a convidei para cantar o refrão de ‘Língua’, meu samba-rap, a que eu dava muita importância. Essa gravação nos animou e contribuiu para que muitos voltassem a falar sobre ela. Acho que, de uma forma ou de outra, Elza voltaria a ser reconhecida como merece. Fico feliz de terem falado nela então e desde então. A Mulher do Fim do Mundo é mesmo um dos melhores discos brasileiros.”

Falou-se muito em Elza Soares na primeira fase da carreira da cantora, no período áureo, que vai de 1959 a 1973. Foi um tempo em que, contratada da gravadora Odeon, a cantora lançou álbuns memoráveis no suingue do sambalanço, em trabalhos individuais ou assinados com nomes como o cantor Miltinho e o baterista Wilson das Neves. Desde 2015, fala-se novamente na artista com o mesmo entusiasmo. E tudo indica que a trajetória de Elza Soares na música brasileira deve permanecer no mesmo alto nível daqui em diante. Na volta da Europa, onde tem shows agendados este mês, Elza vai começar a esboçar um novo álbum, previsto para 2018. A intenção é se manter no trilho da modernidade, possivelmente conectada mais uma vez à geração da música independente de São Paulo. “Esse novo álbum tem que ser uma loucura. A ideia é trabalhar de novo com a mesma trupe”, revela. Paralelamente, vai promover o single “Na Pele”, gravado com Pitty. “A música com Pitty é profunda, a letra é muito forte”, caracteriza. Ainda em 2017, a artista planeja lançar uma biografia pela editora Leya/Casa da Palavra. “Quero fazer uma biografia definitiva. Ainda tenho muita coisa a falar”, avisa Elza, cuja trajetória até a década de 1990 já foi contada no livro Cantando para Não Enlouquecer, escrito por José Louzeiro e editado em 1997. Um filme de ficção, um musical no teatro e uma exposição sobre a vida de Elza estão previstos para 2018, mas os projetos ainda dependem de recursos das leis de incentivo cultural para se concretizarem.

Livro, filme, musical e exposição talvez revelem que a atual ascensão de Elza é também fruto da estrutura empresarial armada em torno da artista nos últimos anos. Em muitos momentos, ela contou com bases precárias na gerência administrativa da carreira. “Já faltou muito das coisas que tenho hoje: assistência, produção, direção. Agora relaxo, porque sei que tem gente que corre atrás das coisas para mim”, afirma. “Eu me pergunto por que demorou tanto tempo para eu voltar a ter tudo isso. Não ganhei essa consagração sozinha. Contei com uma banda, com esses músicos maravilhosos. Eu logo me afinei com eles. No estúdio, correu tudo bem.” Ela se refere às gravações de A Mulher do Fim do Mundo, realizadas em maio de 2015, na cidade de São Paulo.

Não foram poucas as tentativas de reconduzir Elza ao topo ao longo dos 58 anos de carreira da artista. Em 2002, a cantora lançou álbum gravado sob a direção artística de José Miguel Wisnik. Do Cóccix até o Pescoço colecionou elogios e apresentou no repertório música inédita do mesmo Caetano Veloso que a socorrera em 1984, “Dor de Cotovelo”, de cuja letra sobre ciúme foi extraído o título do disco. “Elza é uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos”, conceitua Caetano. “Quando apareceu, no final dos anos 1950 – portanto, contemporânea da bossa nova –, foi um impacto no ambiente musical do Brasil. Extremamente musical e representando uma profunda autenticidade pessoal e social, ela explodiu com os scats roucos de ‘Se Acaso Você Chegasse’. A trajetória da Elza identifica-se com a do chamado sambalanço, mas sua força individual faz dela um caso único em nossa história.”

Antes, em 1997, a Universal Music, gravadora então recém-instalada no Brasil, investira bastante na produção do álbum Trajetória (com a produção luxuosa de José Milton), que não obteve o retorno esperado – talvez por mirar o passado musical, sem nenhum apontamento para o futuro. “Foi um projeto com foco na tradição e em gravações com alguns arranjos de big band de canções clássicas da MPB. A gravação e ‘Meu Guri’ é um absurdo de bonita”, afirma José Milton. “Trabalhar com Elza é estar em estado de graça, pois ela cantando é de um talento, de uma musicalidade imensa. Uma voz de timbre belíssimo que, além de tudo, tem a capacidade de se colocar em qualquer gênero musical. No mundo deve ter poucas cantoras iguais a ela. Amo a Elza.”

Esse canto ímpar do qual fala o produtor fez com que a artista tivesse voz ativa no cotidiano do morro. Ela jamais baixava a cabeça e a voz. Por isso, o samba “Maria da Vila Matilde”, composto por Douglas Germano e gravado para o histórico disco de 2015, deu autoridade a Elza para bradar contra a violência doméstica contra a mulher. “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, ameaça, no grito, no verso-síntese do samba feminista.

“Eu vejo a mulher mais integrada à sociedade, mas ainda falta muita coisa. Deu uma melhorada, só que muito pouco”, ela acredita. “A violência contra a mulher é efeito de uma cultura machista. Hoje a mulher está gritando mais. Já tem alguns gritos, só que a caminhada é longa. Não é agora que a violência vai parar. Mas a gente já está gritando... Eu sempre gritei – era um grito interno, dado dentro de casa. Não saí para a rua com esse grito. Esse foi o meu grande mal. A marca da violência fica, mas a gente tira com água e sabão. O que não pode é carregar essa marca na cabeça.” Elza sofreu abuso físico do primeiro marido, Antônio Soares, conhecido como Alaúrdes.

A cantora cresceu no morro mais enturmada com os meninos do que com as meninas e as bonecas, sem nunca deixar de abraçar o feminino. Foi apedrejada na década de 1960 quando virou amante do jogador de futebol Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, em caso explorado musicalmente pela gravadora Odeon. Os diretores artísticos da gravadora induziram Elza a gravar, em 1963, músicas como “Eu Sou a Outra”, potencializando a ira popular da sociedade moralista. Com Garrincha, morto em janeiro de 1983, Elza viveu momentos de gozo e de dores lancinantes, por causa do alcoolismo do marido-amante. A pior delas suportou sozinha, com o jogador já fora de campo. Em janeiro de 1986, um acidente de carro tirou a vida de Juninho, o Garrinchinha, fruto da união de Elza com o craque. Na volta de uma viagem à cidade de Pau Grande, terra natal do jogador, o carro em que estava o garoto se desgovernou em uma ponte encharcada pela chuva, sobre o rio Imbariê, e caiu na correnteza, tirando a vida do menino de 9 anos. A queda foi a mais dura da vida de Elza, que perderia um terceiro filho, Gilson Soares, de 59 anos, em julho de 2015, vítima de complicações decorrentes de uma infecção urinária.

Elza quase enlouqueceu com a morte de Garrinchinha. “Essa marca é difícil de sair. Fiquei mal da cabeça. Foi o pior momento da minha vida. Machucou muito, mas é a realidade da vida. Estava escrito. A história tinha que ser assim”, pondera. Mesmo com sofrimento latente, Elza renasceu e lançou em 1988 um álbum não por acaso intitulado Voltei.

“Não sei explicar de onde vem a minha força. Os deuses estão comigo. Estão sempre do meu lado”, testemunha a cantora. O mundo gay também esteve sempre ao lado de Elza, que se lembra com saudade dos chás que tomava nos anos 1970 com as travestis Eloína, Jane de Castro e Rogéria. “A gente ficava no chão, tomando chá. Era muito chique”, garante. “Os gays precisam de abraço e eu também preciso de abraço, né? O gay e o negro são unidos pelo mesmo sofrimento”, relaciona a cantora, mulher orgulhosamente negra. “O racismo ainda existe no Brasil. Ele está claro, em evidência.”

Elza passa boa parte do tempo sentada para amenizar os efeitos de uma queda – literal – sofrida em setembro de 1999: em show na casa carioca Metropolitan, despencou do palco e caiu de uma altura de 2 metros. A consequência foi um achatamento na lombar que avariou a coluna cervical da cantora. “Não liguei na época, né? Com os anos, a coisa piorou”, lamenta Elza, que fez uma primeira cirurgia em 2012 e uma segunda em 2014 para colocar oito pinos na coluna. Sete anos antes, em 2007, a Justiça condenou a casa a indenizar a artista em R$ 60 mil, quantia que não cobriu as perdas e os danos da cantora, que chegou a ficar de cama por dias seguidos, com dores constantes. “A cada porrada da vida, eu caio, levanto me arrastando e fico de pé. Juro para você que eu não sei de onde vem essa força. É uma força...”, resume Elza.

O tombo inspirou Chico Buarque a compor para Elza o samba “Dura na Queda”, lançado em musical de teatro sobre a história da cantora, em 2000. Elza somente gravaria a faixa em 2002 em Do Cóccix até o Pescoço. A canção fez com que o caminho de Chico se cruzasse novamente com o dela. Em 1970, sofrendo ameaças anônimas de morte, Elza deixou o Brasil juntamente com Garrincha, também alvo de ataques de origens nunca desvendadas. Partiu para a Itália e se radicou em Roma. Nessa cidade, com Garrincha corroído pelo álcool e dívidas crescentes, Elza pediu socorro a Chico. Exilado na Itália para escapar da fúria dos militares que governavam o Brasil da fase AI-5, Chico estendeu a mão para Elza. “O Chico é maravilhoso”, derrama-se a cantora. “O meio artístico me reverencia, mas eu também faço reverências a todos.”

As reverências a Elza começaram antes da fama, pela força do canto que embute uma amálgama de samba e jazz, ainda que ela só tenha tomado conhecimento do segundo depois de famosa. “Não sei explicar, foi tudo intuitivo, nada estudado. Meu canto é um dom de Deus. Não tinha como ouvir jazz no morro”, argumenta. Esse canto natural já seduzia os colegas dos empregos que Elza aceitou para ajudar no sustento da casa. Chegou a ser demitida de um deles, em uma fábrica, porque a voz distraía os operários e prejudicava o andamento da produção.

Em 1953, quem ficou eletrizado e desconcertado com o poder dessa voz foi o compositor Ary Barroso, que apresentava um programa de calouros no qual a cantora ainda desconhecida foi tentar a sorte. Virou página lendária da música brasileira o famoso diálogo entre a novata e o apresentador. “De que planeta você vem, minha filha?”, perguntou Barroso, fazendo troça com a figura magra e pobremente vestida de Elza. “Do planeta fome”, devolveu na lata a caloura arretada, fazendo cessar os risos. Ao ouvi-la cantar o samba-canção “Lama” (Paulo Marques e Aylce Chaves), sucesso da cantora Linda Rodrigues em 1952, o apresentador constatou que Elza Soares vinha do planeta música.

A vitória no programa Calouros em Desfile, transmitido pela Rádio Tupi, abriu as portas da felicidade e da indústria musical para Elza. Antes de gravar o primeiro disco, seis anos mais tarde, a cantora treinou o dom divino em boates do subúrbio e da elitizada zona sul da cidade do Rio de Janeiro. “Cantei em várias boates. Fui crooner de uma boate no Leme, o Texas Bar. Fui aceita de cara”, lembra Elza, ressaltando a conquista em tempos de racismo intenso. “Negro não entrava em boates da zona sul carioca e eu entrava. Tinha o [Ronaldo] Bôscoli olhando tudo, facilitando a minha entrada.”

Foi Bôscoli, aliás, quem deu a Elza o epíteto de “A Bossa Negra”, nome do segundo e referencial álbum da artista, gravado em outubro de 1960 e lançado no começo de 1961. Indicada pela cantora Sylvia Telles, que a tinha visto na boate, Elza começou a carreira fonográfica em 1959, na gravadora Odeon, sem qualquer dificuldade no canto de músicas que exigiam bossa e balanço. “Eu chegava no estúdio, abria a boca e a voz saía”, gaba-se hoje, quase 60 anos depois, com indisfarçável orgulho.

A voz rouca emitida pelos sulcos dos vinis parecia conter o toque de um trombone, o que valeu a Elza elogiosas comparações com o cantor e trompetista de jazz Louis Armstrong. “Para mim, era ele que me imitava. Eu não o conhecia, né?”, relembra. Ela o conheceria em 1962, no Chile, durante a Copa do Mundo. O encontro foi regado a gafes porque, como não falava inglês, Elza confundiu algumas palavras – pensou que “daughter” (filha), por exemplo, usada pelo músico para saudá-la, significava “doutora”. Pelo mesmo motivo, se recusou a chamar Armstrong de “My father” (meu pai) porque, no idioma da cabeça de Elza, a expressão significava “Me fode”.

Se a evocação a Armstrong era natural na voz de Elza, soou totalmente artificial a tentativa da gravadora Tapecar de fazer a cantora seguir em 1974 o estilo de samba e a indumentária de Clara Nunes, cantora mineira que estava em grande evidência no Brasil naquele ano. A reboque de bem-sucedida estratégia de marketing orquestrada pelo radialista e produtor musical Adelzon Alves, Clara foi transformada em sambista em 1971 após tentar a fama como cantora de bolero e até da Jovem Guarda. Com canto luminoso e uma sincera devoção ao ritmo que abraçou, Clara se tornou a estrela da gravadora Odeon, companhia fonográfica da qual Elza pediu dispensa em 1974, em atitude intempestiva, enquanto promovia o álbum homônimo lançado em 1973. “Tem porta para todo mundo entrar. Mas fizeram isso em cima da Elza, né? A sambista da Odeon era a Elza e, depois, passou a ser Clara. E Clara não era sambista”, alfineta, referindo-se a si própria na terceira pessoa, no único momento da entrevista em que deixa entrever certa mágoa das injustiças do passado, aparentemente esquecida de que foi ela que pediu para sair da gravadora.

No tempo presente, Elza exprime indignação com os rumos da política do Brasil (“Tá brabo! Estamos numa panela de pressão que pode explodir a qualquer momento”) e continua dando mostras da força incomum. “Elza já saiu da cama diretamente para um show em São Paulo. Fez o show, recebeu o público no camarim queimando de febre e depois desabou”, relata o produtor Juliano Holanda. “O dom está aí desde a lambida da vaca”, credita Elza, voltando ao acontecimento mítico que considera o mais importante na infância vivida no morro.

A vinda de Elza Soares ao mundo é controversa quando o assunto é sua data de nascimento. Para efeitos oficiais, ela nasceu em 23 de junho de 1937 e completaria, portanto, 80 anos neste mês de junho de 2017. É a data que consta em sites e textos sobre a cantora. Mas pesquisadores musicais sustentam que Elza nasceu em 1930, data cravada, por exemplo, pelo jornalista e pesquisador carioca Rodrigo Faour no texto de livro editado em 2012 na coleção Grandes Vozes, do jornal Folha de S.Paulo. Na estreia carioca do show A Mulher do Fim do Mundo no Rio de Janeiro, em dezembro de 2015, um integrante da família de Elza, sentado ao meu lado no Teatro Oi Casa Grande, comentou sobre a vitalidade dela, então com 85 anos, e revelou espontaneamente que ela nasceu em 1930, sem saber que falava com um jornalista da área musical.

De todo modo, é consenso a vitalidade vocal de Elza, cujo canto tem sido aplaudido em muitos países por causa da turnê internacional do show A Mulher do Fim do Mundo. “Já temos interesse do mercado da América Latina”, revela o produtor Juliano Holanda. A equipe ainda não sabe aonde e quando a turnê vai de fato acabar.

Até pelo ritmo intenso da agenda profissional, a morte parece assunto distante para a cantora. “Nem tenho tido tempo para pensar na finitude, mas a morte não me atemoriza. Até me deixa tranquila. Tô mais introspectiva, mais comigo mesma! Tô mais serena, sem perder a força. Tudo são fases”, garante. Na atual fase, a artista já não faz mais exercícios físicos para manter a forma. “Já fui rata de academia”, conta, acrescentando que costuma comer pouco. “Mas como de tudo. Adoro feijoada, mas com quatro ou cinco colheradas já tô de boa. E adoro um jiló.”

Morando atualmente em um espaçoso apartamento situado em frente à praia de Copacabana, Elza Soares parece mesmo “de boa”. “Aqui é o meu ninho, de frente para o mar. Adoro Copacabana. Sou apaixonada pelo clima do bairro: é uma torre de babel, tem tudo junto e misturado”, afirma. “Eu tenho a cara de Copa. É mais fácil viver aqui. É mais fácil ser Elza Soares aqui do que no Leblon. Quem morou em Padre Miguel [bairro do subúrbio carioca] tem que vir para Copacabana”, decreta, aos risos, acrescentando como detalhe da rotina a intolerância com portas de banheiro abertas. “Me dá nervoso”, justifica.

Nesse apartamento em que mora sozinha há três anos, Elza recebe amigos e lembra com carinho da mãe, a batalhadora Rosária, já morta, mas sempre presente na mente da cantora, como ela reitera em versos de “Comigo” (Romulo Fróes e Alberto Tassinari), música que encerra o álbum A Mulher do Fim do Mundo. “No início, eu saía escondida de casa para cantar. Mas minha mãe sempre me apoiou depois que soube o que eu fazia. Ela não ia aos meus shows, mas me lembro de tê-la levado ao auditório do programa de Flávio Cavalcanti e de ela ter ganhado uma rosa”, rememora a cantora, citando o lendário apresentador de TV que mobilizou grande audiência nos anos 1960 e 1970.

Elza Soares enfrentou tragédias, mas se recusa a desfiar o rosário de dores. “Se pudesse escolher, minha vida seria exatamente como foi e tem sido. Eu não saberia escrever outra vida”, diz, sentindo-se abençoada. Tamanha força e fé talvez sejam mesmo efeito da sagrada lambida da vaca carioca.

Caminhos Cruzados
Elza entra na pele de Pitty em gravação inédita

Enquanto não concretiza um segundo álbum com a mesma turma da cena paulistana que deu forma ao consagrado disco A Mulher do Fim do Mundo (2015), Elza Soares apresenta em julho uma canção inédita feita em dueto com Pitty, gravada em 29 de abril, no estúdio carioca Tambor. “Na Pele” chega às plataformas digitais em julho em edição da gravadora Deck. A música surgiu durante a produção do álbum Sete Vidas, lançado por Pitty em 2014. “Na Pele” não foi composta para Elza, mas, para Pitty, é como se fosse. “Mandei uma demo da música para ela, dizendo que fizesse o que tivesse vontade – gravasse no disco dela, cantasse no show, o que ela quisesse, que a música era dela. E ela sugeriu de gravarmos juntas, o que me deixou imensamente honrada, porque eu sempre tive vontade de fazer alguma coisa com Elza, uma mulher que admiro totalmente pela carreira, postura, vida e energia”, relata Pitty. “Cada palavra dessa letra na boca dela adquire um significado maior e mais profundo; eu escrevi essa música exatamente para Elza, eu só não sabia disso no momento em que a compus.”

Agora para Dançar
Remixes devem pôr A Mulher do Fim do Mundo nas pistas

Celebrado além das fronteiras do Brasil, o álbum A Mulher do Fim do Mundo já levou Elza Soares para palcos dos Estados Unidos e da Europa em turnê internacional iniciada em 2016, e que deverá ganhar fôlego com o lançamento do disco End of the World – Remixes, programado para 30 de junho pela gravadora Mais Um Discos nos formatos de LP, CD e em edição digital. A intenção é pôr A Mulher do Fim do Mundo nas pistas do Brasil e do exterior. O time de DJs e produtores escalados para remixar as músicas do álbum de 2015 inclui nomes de visibilidade internacional na cena eletrônica, como o francês iZem (nome artístico do DJ e produtor Jérémie Moussaid Kerouanto), o português DJ Marfox (celebrado pelas batidas de toque afro) e o norte-americano Laraaji (referência na área da ambient music). iZem, Marfox e Laraaji remixaram as músicas “O Canal”, “Maria da Vila Matilde” e “Coração do Mar”, respectivamente. DJs, produtores e músicos brasileiros também integram o elenco convidado para remexer nas entranhas do disco. O samba-título foi remixado pelo DJ carioca Omulu. Já um dos remixes de “Firmeza?!” junta Marginal Men (duo carioca formado pelos DJs e produtores Gustavo Elsas e Pedro Fontes) e Bad$ista (codinome da produtora paulistana Rafaela Andrade).

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