Edição 131 - Julho de 2017

Reposição Histórica

Dunkirk, de Christopher Nolan, narra o evento que definiu os rumos da Segunda Guerra
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por Bruna Veloso

A viagem de helicóptero do centro de Londres até a cidade costeira de Dunquerque, na França, dura pouco menos de uma hora. No trajeto, em uma manhã de março, o historiador Joshua Levine fala apaixonadamente sobre a evacuação das tropas da comuna francesa, ocorrida entre 26 de maio e 4 de junho de 1940, no início da Segunda Guerra Mundial. “Por causa desse evento, a Inglaterra pôde continuar na guerra. Não fosse isso, o Exército teria sido apreendido ou assassinado, a guerra teria acabado ali e teríamos uma sociedade muito, muito diferente hoje”, ele afirma, em pé, apoiando-se nos bancos da aeronave ocupada por jornalistas de diversos países e também por Emma Thomas, renomada produtora e esposa do cineasta Christopher Nolan. “Não estamos falando de uma evacuação qualquer, estamos falando de algo que salvou o conceito de mundo livre que temos hoje.”

É desse evento pouco estudado nas aulas de história mundo afora que trata o novo filme dirigido por Nolan, Dunkirk, que estreia este mês. Foi um “não acontecimento” extraordinário que mudou os rumos da guerra: cerca de 338 mil soldados – majoritariamente de tropas inglesas e francesas – encurralados pelos alemães foram retirados de Dunquerque com a ajuda de civis por via marítima, na chamada Operação Dínamo.

Venta muito em Dunquerque. A areia fina da praia entra nos olhos, se aloja nos bolsos e nas dobras das roupas e, meses depois, ainda está em cantos difíceis de limpar do gravador que registrou estas entrevistas. As condições naturais ajudaram o elenco a “entrar no clima” das gravações conduzidas por Nolan – especialmente para Harry Styles, astro do One Direction que tem sua estreia cinematográfica neste épico de guerra. “Meu primeiro dia no set teve provavelmente o pior tempo, então com certeza foi uma bela introdução ao universo do cinema”, afirma o artista, que em maio lançou o elogiado primeiro disco solo, homônimo. “No geral, as condições na praia eram difíceis – você não precisava fingir que estava com frio [risos].”

Styles dá vida a um dos rapazes sitiados em Dunquerque, assim como Fionn Whitehead, que aparece em alguns dos cartazes de divulgação do filme. Como Styles e outros integrantes do elenco, Whitehead está começando a carreira e representa o “jovem soldado comum”, nas palavras dele. “Acho que todos nós estávamos tentando atingir uma sensação intensa de medo, de pânico, buscando entrar no ‘modo sobrevivência’. E também buscando a inocência daqueles jovens. Muita gente se esquece de que para boa parte deles se alistar era a única opção, não havia alternativa. Aqueles garotos não sabiam de fato o que os esperava.”

Trabalhar com Christopher Nolan foi um batismo de fogo para a porção novata do quadro de atores, que inclui ainda Tom Glynn-Carney e Jack Lowden (entre os veteranos estão Kenneth Branagh, Mark Rylance, Tom Hardy e Cillian Murphy). O diretor é conhecido por evitar sempre que possível o uso de computação gráfica, buscando gravações realistas. Em um dos dias das seis semanas de gravação em Dunquerque, por exemplo, mais de 1.300 extras foram escalados. Sem contar as explosões na areia, os aviões Spitfire sobrevoando o local e as dezenas de barcos na costa – mais de 40 foram utilizados nas filmagens, sendo que cinco deles foram originalmente usados na Segunda Guerra e 12 fizeram parte da frota dos chamados “little ships” (pequenos barcos), pertencentes a civis e que ajudaram na retirada dos militares.

Com papel central na trama, o Moonstone, construído em 1939, não esteve de fato na operação, mas é do mesmo modelo e época de muitos daqueles que ajudaram a salvar os homens em Dunquerque (Mark Rylance interpreta o capitão do Moonstone). Conseguir barcos como esse foi uma jornada à parte no processo de produção do longa. “Muitos deles tiveram seus motores usados por mais horas neste filme do que em toda sua existência”, diz Neil Andrea, coordenador da produção naval do filme, a bordo do Moonstone, ancorado no rio Tâmisa, em Londres. “Viajamos por nove países para reunir uma frota, e nos frustramos muitas vezes. Achamos um destróier na Suíça, metade enterrado na lama, que não conseguimos tirar. Outro, na Polônia, que tinha toda uma construção em volta dele; não tinha como colocá-lo no mar. Fomos parar na Letônia, onde um cara tinha dois barcos alemães da época, com 130 metros, no quintal de casa. Por questões burocráticas, também não conseguimos usar esses.” Foram alguns meses até que Andrea e equipe encontrassem os barcos certos – o Moonstone, por exemplo, foi achado na Escócia.

Para Andrea, Dunkirk representa “uma das maiores operações marítimas já realizadas no cinema”. São esforços proporcionais ao evento histórico que, de acordo com Joshua Levine, merece ser mais conhecido do que é atualmente. “Algo como o Dia D [a invasão à Normandia pelas tropas aliadas] é muito mais fácil de celebrar, mas a verdade é que Dunquerque foi tão importante quanto o Dia D e, de algumas maneiras, até mais crucial”, ele afirma. “Se o Dia D tivesse falhado, novas tentativas poderiam ter sido feitas. Se a retirada de Dunquerque tivesse falhado, teria sido o fim do mundo livre.”

Dunkirk se propõe a contar essa história sob três pontos de vista – mar, terra e ar. São diversos personagens e, segundo Emma, não há um foco direto em nenhum deles. “Eu diria que uma das coisas diferentes desse filme [em relação a outros trabalhos feitos em conjunto por Nolan e ela] é que é uma obra focada nas experiências pelas quais os personagens passam. É sobre os eventos externos e o que esses eventos causam, em vez de ser focado nos personagens em si”, ela explica. “É uma enorme operação militar, mas que teve papel fundamental de civis. Não conheço nenhuma outra história como essa.” Christopher Nolan e Emma fizeram uma viagem de barco a Dunquerque com um amigo, em um feriado de Páscoa, em meados de 1990 – ela diz que a semente para o filme pode ter surgido ali, embora o pontapé para o roteiro só tenha sido dado recentemente.

Há um ponto que segue, até hoje, intrigando os historiadores. A evacuação de Dunquerque só foi possível porque Adolf Hitler ordenou, em 24 de maio de 1940, que as tropas alemãs em terra não avançassem sobre o território. Por que ele teria dado tal ordem, quando tinha cerca de 400 mil soldados inimigos à mercê do Exército alemão? Por quase 72 horas, os soldados alemães no entorno de Dunquerque pararam. Levine tem algumas teorias. “Muita gente diz que é porque Hitler gostava dos ingleses, que ele achava que os ingleses eram racialmente superiores, como os alemães”, afirma. “Mas isso não é verdade. Um terço dos navios britânicos foi afundado em Dunquerque pelos alemães. Outras pessoas dizem – e há mais verdade nisso – que os tanques seriam avariados no solo pantanoso da região, e que por isso Hitler julgou melhor poupá-los para futuras batalhas contra os franceses. O que eu acho é que Hermann Göring, chefe da Luftwaffe [a força aérea alemã], queria que a tarefa ficasse com ele. Por dias, os aviões da Luftwaffe bombardearam Dunquerque. Göring queria o crédito da vitória para si.” O filme não pretende responder a essa questão, que seguirá como um dos grandes mistérios – para muitos, o grande milagre – da Segunda Guerra.

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