Edição 131 - Julho de 2017

Skate: canais do YouTube têm roubado o protagonismo da comunicação no universo do esporte

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por Lucas Brêda

Muito se fala sobre o fim da mídia em papel e da migração da TV para serviços “on demand”. Nesse contexto, o título de “youtuber” nunca foi tão difundido. Independentemente das previsões apocalípticas para as mídias tradicionais, paralelamente a elas, o universo do skate tem gerado uma série de canais no YouTube que evidenciam uma nova maneira de comunicar. Nos Estados Unidos, a revista Thrasher já tem uma produção prolífica na plataforma. Isso sem falar em canais conhecidos que caminham por conta própria, como o The Berrics. No Brasil, de cinco anos para cá, alguns canais começaram a ganhar visibilidade e, cada um com sua identidade, passaram a ocupar um espaço significativo no imaginário do público não só do skate mas de todo o lifestyle envolvido.

Ademafia
“Dá um ‘rec’ em tudo e depois a gente vê como faz”, define Ademar Lucas sobre a metodologia de trabalho no início do Ademafia, que completa 3 anos em setembro. “Antes, não sabíamos o formato e esta foi a pegada estabelecida: skate e zoeira.” Skatista há mais de 15 anos no Rio de Janeiro, ele conseguiu se destacar quando começou a dar identidade aos vídeos, gravando não só manobras mas tudo que o cercava. “As pessoas por perto sempre eram aqueles caras engraçados, com quem você vai rir o tempo todo”, Lucas conta. “Comecei a mostrar meus amigos e outras coisas, a fazer vídeos diferentes. E tem isso da personalidade do carioca: estamos nos fodendo, mas estamos rindo.” Há registros variados da vida do skatista no Ademafia – cenas curiosas da rua, interações com pessoas aleatórias, comentários cômicos, bastidores de viagens e festas (como o Baile do Ademar, organizado por ele) ou qualquer coisa interessante gerada em um rolê do skate.

Carismáticos e escrachados, os amigos de Lucas – entre eles o Gordinho do Gueime e o Marcinho Ziqueira – já são personagens imprescindíveis nos vídeos. “Todo mundo manda manobra, mas [em muitos canais] você só vê a manobra e o estilo, não vê a personalidade”, reflete. Além do quadro “Adelife”, livremente inspirado na vida do skatista, há o “Adenews” (em que ele comenta notícias do universo do skate), “Achado Não É Roubado” (curtos vídeos de arquivo) e “Dá o Papo” (de entrevistas), entre outros. “Estamos no momento exato da mudança, muitos veículos impressos – e outros – não se atualizaram para o mundo digital”, analisa Lucas. “É um trem muito louco para o mercado: não tem tabela de preço, ninguém sabe como inserir as marcas. Sim, está crescendo, as coisas estão se alinhando, dá para ver. Mas se começarmos a fazer querendo ser os maiores ou os melhores, vai acabar. Vão entender que não é ‘true’. O skate foi muito usado por marcas, e é importante que haja alguém com consciência para conseguir a grana, mas fazer com que as coisas continuem fluindo [de forma genuína].”

Sobreskate
O gaúcho Guilherme Abe era sócio de uma loja online de skate quando, em 2012, começou a gravar vídeos (na ocasião, de análise de produtos). “Quando fazia, sempre tinha gente perguntando coisas mais gerais. Aí tive a ideia de partir para um lado mais educacional do que comercial e, em março de 2013, surgiu o Sobreskate, com a proposta de responder qualquer pergunta a respeito de skate.” Hoje, o canal é o maior do Brasil sobre o tema – com meio milhão de inscritos – e um dos cinco maiores do mundo. Antes dos quadros atuais (sobre manobras, viagens, entrevistas e notícias), os vídeos, entre eles “Como escolher uma roda para seu skate” e “Como montar um skate”, ambos de 2013, já faziam sucesso. Agora, somam centenas de milhares de visualizações, formando uma espécie de “manual” gratuito para iniciantes. “Criei um conteúdo do qual o público era bem carente na época e acabou tendo uma aceitação de quem estava entrando no skate”, diz Abe. “Hoje, ele abrange muito mais gente.”

Black Media
O surgimento do Black Media, que, além de ser um canal no YouTube funciona também como portal de notícias, é quase uma alegoria da própria indústria da comunicação. “A gente trabalhava na Tribo Skate, uma revista que tem 25 anos”, narra Felipe “Fel” Minozzi, um dos cabeças do veículo. “Queríamos fazer um site novo para a revista, os caras não deram muita importância, daí resolvemos sair e fazer o nosso.” Hoje, pelo menos em curtidas no Facebook, o Black Media já está à frente da Tribo Skate. “No Black Media, a gente não é a estrela, sempre entrevistamos alguém que as pessoas querem ouvir. Só aparecemos para falar dos outros”, ele acrescenta, citando o principal diferencial do canal, muito mais voltado para um lado jornalístico. Mas o Black Media também traz narrações engraçadas, vídeos antigos de skatistas conhecidos e gravações curtas de manobras. Para Fel, o YouTube “já é com certeza” a principal mídia para o skate. “Tanto ele quanto o Instagram. O vídeo já substituiu o impresso e a foto no primeiro lugar de consumo faz um tempo.”

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