Edição 133 - Setembro de 2017

Gal Gadot: “Toda pessoa deveria ser feminista, porque quem não é feminista é sexista”

A ex-instrutora de combate nascida em Israel havia desistido de atuar. Então, surgiu o filme Mulher Maravilha. Conheça os bastidores da ascensão improvável da heroína de ação mais incrível dos cinemas
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por Alex Morris

A Mulher-Maravilha em carne e osso está prestes a abençoar meu bebê que ainda não nasceu. “Posso?”, ela pergunta antes de pousar os longos dedos em minha barriga de grávida. As mãos dela são quentes e maternais. Gal Gadot olha nos meus olhos sem vacilar. “Menina ou menino?”, pergunta. “Menina”, respondo. O sorriso dela aumenta. “Ser uma mulher representa força”, diz. “Em muitos aspectos.”

Isso não é um sonho: é um almoço no hotel Chateau Marmont, em Los Angeles. Gal está aqui para falar sobre sua ascensão de uma quase desconhecida a um símbolo mundial de tudo o que é bom poderoso como a primeira encarnação da Mulher-Maravilha no cinema.

É difícil não ver elementos de super-heroína na maneira de ser da própria atriz. Não importa que às 5h da manhã ela estivesse acordada com um bebê de 4 meses (“Cara, é cansativo, mas é a melhor coisa”, afirma); ao vivo, sua aura evoca algo entre Mãe Terra e amazona glamourosa. O sotaque dela é digno de James Bond e recoberto pela sensualidade de sua voz. A atuação como Mulher-Maravilha incorpora de forma tão convincente a bravura e a impressionante decência da personagem que ela poderia ser um contraponto vivo à misoginia da era Donald Trump – tanto que há relatos de que não era incomum ver mulheres chorando nos cinemas enquanto a viam na tela.

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A maior parte do mundo pode não saber ainda como pronunciar seu sobrenome (é “g’dót”, não “gadô”), mas ela não liga para preocupações tão frívolas. “Gosto quando está calmo e há um clima harmônico pairando no ar”, diz. Mais tarde, acrescenta: “Você deve encontrar o próprio lugar neutro dentro de si mesma”. Diante dela, essas coisas parecem possíveis, até prováveis. Bem, quando se é ela, no mínimo possíveis. Veja a forma como não dá ouvidos aos críticos, que não gostaram do fato de a Mulher-Maravilha, um tesouro dos Estados Unidos (considerada pelo instituto de pesquisa Smithsonian uma das “101 Coisas que Fizeram a América”), ser retratada por uma israelense: “Ai, meu Deus, sério, gente?” (o filme também foi proibido em vários países árabes pelo fato de ser uma mulher nascida em Israel no elenco). Ou como acabou com debates na internet sobre o tamanho de seu busto com o conhecimento astuto de que, em vez de ter proporções de pin-up, a Mulher-Maravilha teria um dos seios removido: “Falei: ‘Olha só, se quiserem que seja fidedigno, as amazonas só tinham um seio. Exatamente uma mama. Então, do que estão falando aqui? Do fato de que tenho seios e bumbum pequenos?’” Ou a forma como enfrentou o inverno londrino, filmando 12 horas por dia, seis dias por semana, usando pouco mais do que um maiô e pulseiras de metal. Ou, mais impressionantemente, o fato de ter refilmado algumas cenas de Mulher-Maravilha e ter rodado a próxima saga da DC Comics (Liga da Justiça, que estreia em novembro) grávida da segunda filha, com enjoos matinais e tudo. “Recortamos o figurino e colocamos um pano verde sobre meu abdome”, conta. “Foi engraçadíssimo – a Mulher-Maravilha com um barrigão.”

Na verdade, a barriga de Gal foi apenas uma das complicações enfrentadas pela equipe de produção de Liga da Justiça. Depois de uma tragédia familiar, o diretor Zack Snyder saiu da produção, deixando o filme nas mãos de Joss Whedon, de Os Vingadores, e boatos sobre uma grande reformulação foram praticamente confirmados quando o astro Ben Affleck (Bruce Wayne/ Batman) descreveu o resultado como “um produto interessante de dois diretores. No entanto, com seu jeito calmo, Gal não cai na polêmica. “Olha, até onde entendi, Joss foi a escolha de Zach para terminar o filme. E o tom não pode ser completamente diferente, porque o filme já estava rodado. Joss só está fazendo a sintonia fina.”

Foi, em parte, a firmeza inata de Gal Gadot que ajudou Mulher-Maravilha não apenas a superar, e muito, as expectativas mais otimistas, como também a salvar, sozinho, o decadente universo da DC Comics. Rendeu mais de US$ 400 milhões nas bilheterias norte-americanas e quase US$ 800 milhões no mundo inteiro. Atualmente, é o longa de ação mais lucrativo já dirigido por uma mulher, a cineasta Patty Jenkins. Em outras palavras, o filme detonou, bem ao estilo da Mulher-Maravilha. “Isso simplesmente mostra que o mundo estava pronto para um filme de ação liderado por uma mulher”, afirma a atriz. Mesmo que não estivesse, ela fez questão de deixá-lo pronto.

Mulher-Maravilha bate recorde de bilheteria de filme dirigido por uma mulher

Conseguir o papel principal em uma franquia crucial teria sido a sorte grande para qualquer ator. “Quando você é iniciante, fica empolgada em simplesmente ter trabalho”, diz Gal Gadot. “Esse era meu caso.” Só que a Mulher-Maravilha não era um papel principal qualquer. Era um papel que as feministas há muito tempo ansiavam em ver – enquanto todos os grandes super-heróis desfilavam por prequels e sequências nas telas do cinema – e que tinha uma história que se estendia muito além do mero simbolismo de uma super-heroína. Depois de ser escolhida, Gal recorreu aos arquivos da Warner Bros. para ler as HQs originais e logo aprendeu que a Mulher-Maravilha era fruto da mente de William Marston, um psicólogo que não apenas ajudou a inventar o detector de mentiras e teve um relacionamento poliamoroso, vivendo na mesma casa com a esposa (que havia conhecido na escola), a namorada (que havia sido sua aluna) e quatro filhos (dois com cada mulher), como também acreditava que as mulheres eram não apenas iguais, mas provavelmente superiores aos homens. Segundo documentado no livro A História Secreta da Mulher-Maravilha, de Jill Lepore, ele teria dito: “Francamente, a Mulher-Maravilha é propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que deve, acredito, comandar o mundo”. Como a autora indica, “na primeira história, a Mulher-Maravilha vem aos Estados Unidos para lutar pelos direitos das mulheres, porque este é o ultimo bastião de possibilidade de direitos iguais para elas”.

Isso tudo foi notado por Gal Gadot. “As pessoas sempre me perguntam: ‘Você é feminista?’ Acho essa pergunta surpreendente, porque penso: ‘Sou, claro. Toda mulher, todo homem, toda pessoa deveria ser feminista, porque quem não é feminista é sexista’.” Afirma que ela e a irmã mais nova aprenderam “a acreditar que somos capazes, a nos valorizar” quando cresciam em Rosh Ha’ayin, uma pequena cidade no centro de Israel, onde o pai trabalhava como engenheiro e a mãe era professora de educação física. “Tive uma vida bem protegida”, conta. “Não víamos TV. Era sempre ‘vá pegar a bola e brincar’.” O que não era um problema para ela. “Em geral, fui uma boa garota, boa aluna, gostava de agradar e era moleca. Sempre com machucados e arranhões nos joelhos.”

Na juventude, Gal havia recebido convites para ser modelo, mas decidiu trabalhar no Burger King. “Pensava: ‘Posar por dinheiro? Credo, não é para mim’.” No entanto, nos poucos meses que teve entre a formatura no equivalente ao antigo ensino médio e a entrada para os dois anos obrigatórios de serviço nas Forças de Defesa Israelenses, a mãe e uma amiga a inscreveram para o concurso de Miss Israel. Quando descobriu que tinha sido chamada, disse a si mesma: “‘Vou fazer isso. Vão nos levar para a Europa e vou poder contar aos meus netos que a vovó participou do Miss Israel’. Nem imaginava que ganharia”. Ou que a vitória a levaria para o concurso de Miss Universo (“É engraçado agora, quando conto. Soa tão bizarro, como se tivesse sido outra vida”), o que a apavorou. “Sabia que não queria vencer o Miss Universo. Não era para mim. Para uma menina de 18 anos, parecia ser responsabilidade demais.” Então, decidiu fracassar deliberadamente na competição, fingindo não falar inglês e vestindo as roupas erradas. “Perdi de lavada”, declara alegremente. “Perdi vitoriosamente.”

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Quando seu reinado inesperado como Miss Israel terminou, ela foi chamada para ser treinadora de combate nas FDI, reportando-se todo dia às 5h da manhã para fazer soldadas passarem por uma espécie de treinamento militar. Durante o serviço, conheceu o desenvolvedor imobiliário Yaron Versano em “uma festa no deserto que tinha a ver com chacras, blá-blá-blá” e se casou com ele, fez faculdade de direito (“Porque sou muito profunda e amava a série Ally McBeal: Minha Vida de Solteira”, brinca) e achava ter encerrado uma carreira que dependia de sua aparência quando um diretor de elenco a convidou para fazer um teste para ser uma Bond girl. “Disse ao meu agente: ‘Do que você está falando? Estou estudando, não sou atriz. Não vou fazer o teste’. E ele retrucou: ‘Demonstre respeito e vá’.” Esse teste acabou levando-a à franquia Velozes e Furiosos (capítulos 4, 5, 6 e 7), que a levou a Mulher-Maravilha, embora, no primeiro teste para o filme, ela nem soubesse que papel estava tentando conseguir. “O Zack [Snyder] ligou e me perguntou: ‘Então, sabe para o que vai ser seu teste?’ Respondi: ‘Não’. Ele continuou: ‘Bom, não sei se a conhecem em Israel, mas já ouviu falar da Mulher-Maravilha?’”

Acontece que a personagem era conhecida em Israel e Gal percebeu imediatamente a oportunidade que estava recebendo, como atriz e como feminista. “Tive momentos em que senti que os homens se comportavam mal – nada sexual, mas inadequado de um jeito sexista. De um jeito que menospreza. A vida nem sempre foi um mar de rosas para mim, como uma mulher no mundo.” Mesmo depois de conseguir o papel, ficou preocupada em ser considerada fraca, então esperou até contar aos colegas de Liga da Justiça que estava grávida. “Não quis chamar atenção”, afirma. “Deveria ser normal acreditar que as mulheres conseguem dar conta do trabalho, mas há um caminho longo para percorrer e muita reprogramação precisa ser feita para os dois sexos.”

Também não foi por acaso que a Mulher-Maravilha – que, diz Gal Gadot, “defende o amor, a esperança, a aceitação, o combate ao mal” – tenha estreado em 1941, ano em que os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Embora o pai da atriz seja da sexta geração de israelenses, a mãe de sua mãe fugiu da Europa pouco antes da guerra. O avô materno, que tinha 13 anos quando os nazistas chegaram à sua Tchecoslováquia natal, não teve tanta sorte. O pai dele morreu no exército. O restante da família foi enviado a Auschwitz, onde a mãe e o irmão dele morreram nas câmaras de gás. Depois da guerra, foi para Israel sozinho. “A família inteira dele foi assassinada – é impensável”, reflete. “Ele me afetou muito. Depois de todos os horrores que havia visto, era como um pássaro ferido, mas sempre esperançoso e positivo e cheio de amor. Se eu tivesse sido criada em um lugar onde esses valores não fossem tão fortes, as coisas seriam diferentes, mas, para mim, foi muito fácil me identificar com tudo que a Mulher-Maravilha defende.”

Mulher-Maravilha 2 estreia em 2019

Então, a Mulher-Maravilha chegou a Gal, transformando-se em uma história para ela e a diretora, Patty Jenkins, contarem. As duas ficaram obcecadas em acertar. “Foi quase emocional, porque estávamos muito unidas no desejo de fazer algo tão satisfatório que as pessoas não se importariam em também falar sobre essa questão mais profunda”, afirma Patty. Gal havia treinado por oito meses para ganhar músculos – “Força não é algo que se pode fingir” –, mas também sentiu que a abordagem mais feminista seria a Mulher-Maravilha continuar feminina, ser forte por, e não apesar de, ser mulher. “Não quis fazer a guerreira gélida. Não queríamos cair nos clichês.” Em vez disso, ela e Patty Jenkins pensaram muito em como uma mulher criada apenas por mulheres reagiria quando caísse em um mundo dominado por homens.

O resultado é uma espécie de feminismo inocente que parece acidental exatamente por não ser nada inocente. “Não queríamos tratar a misoginia dando um sermão. Queríamos surpreender o público”, conta Gal. Por isso, quando, no filme, a Mulher-Maravilha é banida de uma reunião de conselho de guerra que é essencialmente a versão formal de um clube do Bolinha, não fica irritada: fica simplesmente confusa. Da mesma forma, quando vê um bebê na rua, não hesita em se derreter (“um bebê!”). “Queríamos trazer alguma ingenuidade”, conta. “Sendo mãe de duas meninas, falo: ‘Precisamos de mais ingenuidade. Todo mundo pensa demais’.” O resultado é uma mulher retratada na tela sem um pingo de insegurança, uma mulher que nunca questiona os próprios impulsos, “típicos do sexo feminino” ou não.

O que nem Gal nem Patty poderiam ter previsto é como suas deliberações repercutiriam. “Até em algumas exibições de teste, mulheres se aproximaram e me disseram: ‘Sinto que você fez um filme para mim!’”, conta a cineasta, “mas foi só na segunda semana que o movimento começou, as pessoas foram várias vezes e levaram amigas e avós e recebi fotos de idosas de 90 anos vendo o filme sentadas em cadeiras de rodas. Tudo isso foi impressionante de ver”. Gal concorda. “Acho que 75 anos foi uma espera longa demais para essa personagem ter um filme, mas é uma loucuuuuuura”, se entusiasma sobre a recepção ao longa, sobre sessões só para mulheres realizadas nos Estados Unidos, sobre crianças em idade escolar tendo também uma heroína a quem admirar e seu próprio papel nisso tudo.

Agora, à medida que a loucura em torno dela e de Mulher-Maravilha 2 começa a se intensificar, Gal Gadot usa seus poderes formidáveis para manter as coisas zen. Ela e a família recentemente se mudaram para Los Angeles, onde a filha de 5 anos entrou para a escola. “Vou buscá-la”, conta sobre seus planos para depois do almoço. “Depois, vou voltar para casa, para minha bebê, e ter um dia relaxante.” Talvez faça o jantar (“Amo cozinhar pratos italianos. É fácil”), coloque uma música (“Zero 7, porque é supertranquilo”), aproveite os “momentos realmente simples”, que diz serem o que ama. Na busca de tudo isso, levanta- se para ir embora. Então, do alto seu 1,77 m, para. “Vai ser ótimo”, diz, olhando para minha barriga. Naquele momento, sim, parece que tudo será maravilhosamente ótimo.

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