Edição 134 - Outubro de 2017

Exclusivo - Stranger Things: estivemos no set da segunda temporada para desvendar segredos e conversar com o carismático elenco

O fenômeno da Netflix retorna com mais sustos e delícias nostálgicas
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por Stella Rodrigues

É hora do recreio. Enquanto passamos, a algazarra de vozes e gargalhadas despreocupadas não deixa dúvidas de que os jovens que teoricamente estão estudando dentro daquele trailer fizeram uma pausa. Mas o intervalo não dura muito, já que além de um dia todo de gravações, o grupo tem pela frente um encontro com veículos de imprensa de vários países para falar sobre a segunda temporada de Stranger Things, série da Netflix que no ano passado potencializou a onda de culto à cultura pop dos anos 1980. A partir de 27 de outubro, nove episódios inéditos vão deixar os fãs se enrolarem confortavelmente nesse cobertor quentinho e felpudo chamado nostalgia. Mas agora estamos no início de maio, em Atlanta, Geórgia, e os novos episódios da série estão sendo rodados desde novembro de 2016, com direito a “três dias parando o centro de Atlanta pra gravar cenas megalomaníacas”, conforme conta a pessoa responsável por guiar a imprensa pelo estúdio. O conteúdo dessas cenas, claro, permanece em segredo, assim como um dos sets que contornamos, mas não pudemos conhecer: ele é novo e o simples fato de olhar para ele já traria um “spoiler gigante”, disseram.

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Restam apenas algumas semanas de trabalho no set e a equipe se divide em duas unidades para dar conta de todas as cenas dentro do prazo. Atualmente, estão trabalhando nos episódios 8 e 9. Na hora do cansaço, todo mundo parece se alimentar do sucesso da primeira temporada – que apresentou ao mundo um grupo de crianças que enfrenta um monstro apavorante para tentar ajudar a misteriosa Eleven (Millie Bobby Brown, inquestionavelmente a maior revelação da atração). Do elenco juvenil à responsável pelos objetos de cena, que não consegue tirar da cabeça as críticas que recebeu por causa de uma ou outra incongruência temporal nas peças que apareceram na primeira leva de capítulos, todos estão genuinamente surpresos e encantados com o tamanho do fenômeno, que nos últimos 12 meses pareceu influenciar tudo que foi produzido dentro do subgênero retrô.

Aos 33 anos, os gêmeos Matt e Ross Duffer, criadores da série, parecem saídos de um comercial de bebida energética – correm de um lado para o outro, se dividindo entre set, ilha de edição e questões gerais de produção. Enquanto eles não conseguem parar quietos para revelar detalhes (menos do que se desejaria) sobre o retorno de Will (Noah Schnapp), Eleven, Dustin (Gaten Matarazzo), Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e companhia, as crianças são tiradas do trailer/escola (se elas não estão gravando, precisam estar estudando) para falar sobre a empolgação de voltar no tempo novamente para figurinos, cenários e comidas industrializadas dos anos 1980 e, claro, para as dúvidas acerca do Mundo Invertido.

“Daqui a pouco os garotos vão chegar e vocês nem vão mais ligar para nós, eles são fofos demais”, brinca Natalia Dyer, intérprete de Nancy, irmã mais velha de Mike. Apesar de já serem oficialmente adolescentes, com idade entre 13 e 15 anos, Schnapp, Millie, Matarazzo, McLaughlin e Wolfhard parecem mais novos, possivelmente pelo fato de estarem em grupo. “Pregamos peças um no outro toda hora. Tipo um fica atrás da porta para assustar o outro. Também brigamos como se fôssemos irmãos. E por causa das coisas mais idiotas”, conta Millie. Mais tarde, na hora do almoço (pista! Há vários figurantes vestindo jalecos brancos, como se fossem de um hospital), o recreio continua. Schnapp rouba um walkie-talkie de um pobre integrante da produção e ele e Millie entoam canções para quem quer que esteja do outro lado do rádio. E quase todas as entrevistas são interrompidas quando as crianças se distraem com Rocco, o cão de um dos integrantes da equipe de efeitos visuais, que circula livremente pelo complexo de estúdios.

Eles são uma versão parecida, mas bem mais alta, das crianças que conversaram com a Rolling Stone Brasil em julho de 2016, no evento da Associação de Críticos de TV, quando a primeira temporada de Stranger Things tinha acabado de estrear e os telespectadores estavam encantados com aqueles guris que fizeram todo mundo se apaixonar novamente pelo ano de 1983. O aspecto mais infantil que eles ganham ao estar em conjunto continua evidente. Quando assistimos à gravação de uma cena que pouco diz a que veio – as crianças estão sentadas em um corredor, se assustam com um barulho e se levantam, ofegantes –, cada take termina com McLaughlin fazendo caretas para a câmera e trocando piadas com a equipe. Antes de cada “ação”, os atores conversam baixinho e dão tanta risada que fica a impressão de que jamais conseguirão focar novamente no trabalho (spoiler: conseguem, e aparentemente sem esforço). Foi justamente o estabelecimento dessa dinâmica de caos organizado que fez com que a série funcionasse. “Na temporada passada, nos reunimos para passar um trote em nossa figurinista, porque ela ia se casar e não parava de falar nisso. Liguei falando que era alguém da festa e que teríamos que cancelar tudo”, ri Millie. “Ela pediu para falar com o gerente. Coloquei uma música de espera no YouTube e passei o telefone para o Noah, mas aí ela sacou que era ele”, ela conta entre gargalhadas. “Há um senso de união. Quando sentamos para ler o roteiro e começar a segunda temporada, vimos que estávamos juntos em uma experiência completamente única”, define o produtor executivo e diretor, Shawn Levy.

Qualquer entrevista ao longo do dia começava com o pedido de não fazer perguntas sobre a trama dos novos episódios. “Eu vivo com o pânico constante de deixar escapar algum spoiler no mundo”, brinca Levy. Meses se passaram desde então e o mistério continua, quase nada foi revelado até agora, mas há alguns sinais. Uma coisa importante que já sabemos é que os fenômenos que levaram muito medo para a cidade de Hawkins agora ameaçam o mundo todo. Também foram revelados personagens novos: famoso inicialmente graças ao filme Aliens – O Resgate (1986), Paul Reiser (ausente na data da visita, assim como a veterana Winona Ryder, que “estava gravando apenas cenas noturnas” – pista!) será um vilão, especula-se. Viverá o Doutor Owens, um funcionário do departamento de energia. O também ícone da década de 1980 Sean Astin, de Os Goonies (1985), será Bob Newby, um interesse romântico de Joyce (Winona). Eles dois e o chefe de polícia Hopper (David Harbour) foram colegas de escola, mas Newby havia deixado a pequena Hawkins, Indiana, havia anos. Com uma relação difícil entre eles, a garota skatista Max (Sadie Sink) e seu meio-irmão Billy (Dacre Montgomery) chegam à cidade e entram para as turmas das crianças e dos adolescentes, respectivamente. “Billy vem da Califórnia, é como todos os jovens da Costa Oeste dos Estados Unidos, mas com um lado negro”, conta Montgomery. “É um antagonista; de certa forma, ele chacoalha algumas realidades. É um novo ingrediente na receita pela qual nos apaixonamos.”

“A Max é muito diferente do resto das crianças. É meio moleque, não usa vestidos bonitinhos e tal”, adianta Sadie, dando a entender também que ela e os meninos não ficam amigos logo de cara. A turma nova ainda apresenta um jornalista descreditado que é dado a teorias da conspiração (Brett Gelman, como um provável alívio cômico), uma jovem de fora da cidade que está de alguma forma ligada aos eventos arrepiantes da primeira temporada (Linnea Berthelsen) e um novo monstro.

O sucesso instantâneo veio com alguns desafios e muitas atividades para o jovem elenco. Virar um fenômeno de audiência acarretou, por exemplo, lidar com “haters” na internet. “Não controlo meu Instagram. Minha irmã mais velha cuida dele e meu irmão faz o meu Twitter. Só recebo as coisas positivas”, revela Millie. Mas trouxe também possibilidades inesperadas, como o convite para entreter o público do Emmy 2016 com uma performance adorável de “Uptown Funk”, de Bruno Mars. “Estava nervosa, nunca tinha me apresentado em um palco, mas estar com os meninos deixou tudo mais leve, mesmo que eu estivesse tipo ‘Olha, o Ross Geller está ali’”, relembra a atriz. Até momento “beatle por um dia”, no aeroporto, eles já tiveram: “Uma vez umas 30 meninas começaram a berrar quando me viram”, ri McLaughlin. Nenhuma história ganha mais risadas dos colegas, contudo, do que Wolfhard contando que atendeu fãs por bastante tempo em uma visita ao mercado e, após diversas selfies, tiradas com todas as combinações possíveis de luz, ouviu um “obrigado! Mas eu queria mesmo ter conhecido a Eleven”.

Para toda a equipe, a parte ao mesmo tempo mais difícil e maravilhosa, sem dúvida, foi voltar para a segunda temporada. Para explicar com uma referência de ecos oitentistas, digamos que eles estão rebolando para não deixar a peteca cair nos novos episódios. “É empolgante, mas definitivamente assustador”, define Shawn Levy. “Desta vez estamos em uma série que o mundo abraçou. Precisamos equilibrar bem isso de aceitar o feedback e tapar os ouvidos, os olhos e monitorar o tempo que se gasta nas redes sociais. Os Duffer são superimersos nesse universo, mas aprenderam a se enclausurar e confiar nos instintos.”

“Tenho lido teorias de fãs na internet e fico impressionado que às vezes as pessoas chegam bem perto! Mas a maior parte do tempo fico tipo ‘de que raios você está falando?’”, ri Gaten Matarazzo. “Li roteiros spec [roteiros especulativos, que fãs escrevem para desenvolver episódios da maneira como gostariam que a história se desenrolasse] muito, muito bons. Fico feliz de ver as pessoas usando essa forma de arte tão bem.”

“É tudo em maior escala. As ameaças são mais intensas, o elenco está maior. Temos mais dinheiro, então podemos contar uma história mais ousada e com uma cinemática mais avançada”, explica Levy, admitindo que a primeira temporada tem momentos pouco gloriosos do monstro apelidado pelas crianças de Demogorgon. “Vocês deram um desconto porque gostaram da série, mas a tecnologia ali não era exatamente de ponta.”

Finalmente rastreados pela produção, os Duffer aparecem esbaforidos diante dos jornalistas para dar o parecer deles sobre tudo que estão vivendo nos últimos dois anos. “Tentei me convencer de que teríamos uma segunda temporada, porque a Netflix sempre dá um segundo ano para todo mundo”, ri Matt. “Mas não tínhamos planos de ir muito longe. Tem muito conteúdo saindo, então é difícil achar seu público”, complete Ross. “Estava para estrear a temporada nova de Mr. Robot logo antes, então estava certo de que ninguém daria a mínima para a nossa série. Demorou umas duas semanas para a gente entender o sucesso. Quando na manhã seguinte à estreia eu vi que tinha gente que já tinha terminado de ver fiquei tipo ‘ah, algumas pessoas devem estar gostando, então’. Foi até um problema, porque estávamos tentando escrever a segunda temporada e o Twitter ficava distraindo [risos].

A nova parte da história começa um pouco antes do Halloween. “Porque Halloween é demais”, exclama Ross. “Assim teríamos a chance de fazer pelo menos um episódio de Dia das Bruxas e também porque estávamos procurando uma boa época para encerrar a trama [pista!] e casou bem.” “O ano de 1984 [quando se desenrolam os episódios novos] foi um ótimo ano para Hollywood”, interfere Matt. “Foi o grande ano dos blockbusters. Acho que Os Caça-Fantasmas e Gremlins são os que prevalesceram em termos de referências e destaques nessa temporada. Mas teve Indiana Jones e o Templo da Perdição, Karatê Kid - A Hora da Verdade, O Exterminador do Futuro. Foi um ótimo ano. E eu entendo que esses personagens seriam obcecados por Os Caça-Fantasmas. O filme foi feito para crianças como eles, impossível que não amassem.” Eles tanto amaram que as primeiras imagens reveladas para atiçar os fãs a respeito da segunda temporada mostram os meninos usando incríveis fantasias de Halloween do longa. Até mesmo Gaten Matarazzo, já acostumado ao nível de perfeccionismo da equipe, ficou impressionado com as roupas e com os objetos de cena ligados ao episódio de Dia das Bruxas. Eles obedecem bem à estética oitentista e ainda respeitam a ideia de que foram fantasias desenvolvidas por crianças – e por aquelas crianças, especificamente. “Tiveram o cuidado de todas serem diferentes. Não podiam ser exatamente iguais, porque foram os nossos personagens que fizeram, e cada um tem um nível de habilidade e materiais diferentes para usar”, elogia

Fantasias de halloween à parte, espere uma série menos infantil e “doce” do que a do ano passado. “Esses personagens viveram coisas assustadoras. Will, Nancy, eles estão todos traumatizados”, diz Matt. “Está um grau mais pesado em termos de tom”, confirma Charlie Heaton, intérprete de Jonathan, irmão de Will. “A sensação que tive ao ler o roteiro é a de que no primeiro ano a gente viu essa comunidade em um microscópio, agora vamos tirar o microscópio e ver o contexto. E é mais pesado, mas ainda tem o humor, os personagens charmosos e todo o resto que ressoou tão bem no ano passado.”

“O que tentamos pensar foi como nós responderíamos a uma série de eventos como esses”, relembra Matt. “Certamente, um ano depois, ainda estaríamos mexidos com isso. Uma das coisas que Steven Spielberg faz tão bem é retratar um senso de ‘maravilhamento’. É algo que a gente ama, mas que você perde um pouco quando todo mundo tem experiências sobrenaturais”, explica Ross. “É para isso que servem os personagens novos, que não viveram isso. Ainda assim, a gente não foge de fazer todo mundo sentir o que deveria sentir.”

Se as crianças da tela se uniram ainda mais depois de enfrentar os desafios do Mundo Invertido, não há crise da adolescência grande o suficiente para quebrar a união das crianças da vida real. “Nós também estávamos passando por esta experiência única, no ano passado, gravando essa série, e vivemos toda essa excitação juntos, depois do lançamento, dependendo muito um do outro. Nos apoiamos bastante para viver essas experiências”, conta Matarazzo. “É muito bom ficar na companhia de quem entende o que você está falando e passando.” No fundo, essa também é a graça que Stranger Things trouxe para as outras crianças filhas dos anos 1980: é muito bom passar oito ou nove horas na companhia de quem compreende e retrata como ninguém o que você viveu na infância.

Estrelas Requisitadas
Elenco mirim de Stranger Things está em todos os lugares, mas eles só querem mesmo ficar perto dos ídolos

Se tem algo que realmente mudou para o elenco jovem da série foi uma significativa valorizada no passe. Desde que estreou em Stranger Things, Finn Wolfhard, por exemplo, coestrelou e dirigiu o clipe de “Sonora”, da banda Spendtime Palace, atuou no também oitentista e sucesso de bilheteria It: A Coisa e já está escalado para mais uma produção da Netflix, a animação Carmen Sandiego, prevista para 2019. Ele também viverá Charlie em uma montagem de Willy Wonka & a Fantástica Fábrica de Chocolate em novembro. Já Millie Bobby Brown está filmando Godzilla: King of Monsters (2019) e estrelou dois clipes, incluindo “I Dare You”, do The xx. Mesmo que já estejam se tornando ícones da cultura pop, eles gostam é de ser fãs. Nada parece empolgar os meninos tanto quanto falar sobre os heróis que eles viram ao vivo. “Lembra quando encontramos o Tom Hanks?”, exclama um deles em meio a uma balbúrdia de vozes que incita relatos sobre as celebridades que cruzaram o caminho do elenco na temporada de premiações. De Arnold Schwarzenegger a Stan Lee e Kevin Smith, passando por famosos do mundo do esporte e da música, o Instagram dos atores está apinhado de ídolos. A foto que Millie tirou ao lado de Emma Watson, de Harry Potter, no MTV Movie Awards deste ano, foi notícia e aqueceu o coração das jovens feministas do mundo todo. E Finn Wolfhard não se esquece do dia em que estava em uma premiação e Rami Malek, de Mr. Robot, e Donald Glover, de Atlanta, fizeram questão de ir até a mesa deles para elogiar a série “E eles são incríveis! Nós é que gostamos muito deles.”

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