Tom Petty 1950-2017

Por que a presença de Tom Petty é sentida em todo o universo da música country contemporânea

Andrew Leahey Publicado em 02/11/2017, às 08h01

<b>Espalhando Raízes</b><br>
Tom Petty em show no Hammersmith Odeon, em Londres, em 15 de maio de 1977

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INFLUÊNCIA DE HOJE & AMANHÃ

Quando se tratava de música country, Tom Petty preferia as coisas antigas. Aquelas verdadeiras, como Carl Perkins e Conway Twitty. Ao longo dos anos, incluía algumas canções deles em seus sets com o The Heartbreakers, cantando no sotaque arrastado que jamais deixou para trás.

A música de Petty pertencia a um mundo que se estendia muito além dos limites da cidade de Gainesville, Flórida, onde ele passou os primeiros 25 anos de vida, e Los Angeles, seu lar adotivo durante décadas. Era algo universal, forjado a partir de escárnio malandro do sul dos Estados Unidos, aspereza do rock de garage e brilho chapado do folk rock californiano. Pertencia a todo lugar, a todo mundo.

Tendo dito isso, raízes são raízes. Petty, que morreu em 2 de outubro, aos 66 anos, depois de sofrer um ataque cardíaco, continuou sendo um sulista – de espírito, ainda que nem sempre de localização – até a hora final. Ele cantou sobre a chuva de Louisiana e sotaques do sul. Trocou harmonias com Willie Nelson e Hank Williams Jr. em uma versão de “Mind Your Own Business” (de Hank Williams Sr.), que liderou as paradas em meados dos anos 1980. Mais tarde, quando o rock começou a mudar para a era do grunge na década de 1990, era possível ouvi-lo tocando gaita em faixas como “You Don’t Know How It Feels” e “Mary Jane’s Last Dance”, preenchendo sucessos da época com um instrumento que era 100 anos mais antigo do que a guitarra.

Não é de espantar que Johnny Cash, outro sulista cujas canções falavam para um mundo mais amplo, tenha gravado o álbum Unchained (1996) com Tom Petty & the Heartbreakers como banda de apoio. Quando se tratava de música country, Petty aguentava firme.

Ele nem sempre curtia o som vigente. Durante a última hora de cinco shows no Beacon Theatre, em Nova York, em maio de 2013, o músico disse à plateia que a música country moderna soava como um “rock ruim com rabeca”. Reforçou esses comentários em uma entrevista posterior à Rolling Stone, dizendo: “Não vejo exatamente um George Jones ou um Buck Owens ou nada tão novo surgindo. Sei que deve haver alguém fazendo isso, mas a maior parte dessas músicas me faz pensar no rock de meados dos anos 1980, quando ficou incrivelmente genérico e dependente de videoclipes”.

Cantores country modernos como Eric Church e Jake Owen reagiram, com Owen chamando os comentários de Petty de “não educados”. Chris Stapleton, cheio de créditos como compositor, usou o Facebook para desafiar Petty para uma sessão de composição. O veterano nunca respondeu. Nem precisava. Historicamente sem medo de atacar os Golias da indústria da música – o que significava brigar com a própria gravadora nos tribunais ou lamentar o declínio das rádios rock no disco The Last DJ (2002) –, lidou com a questão como havia lidado com todas as outras: deixando a música falar mais alto. Quando seu último álbum, Hypnotic Eye, chegou às lojas, em julho de 2014, estreou no topo da parada Billboard 200 – uma posição que muitos artistas country sequer sonham em atingir.

É difícil imaginar um mundo sem Tom Petty. Ele faz parte da trilha sonora diária dos Estados Unidos – e de quem gosta da música norte-americana de raiz – desde meados da década de 1970, levando adiante a tocha do rock and roll desde então. Sua influência pode ser ouvida em todo o chamado gênero “americana”, e reverbera de forma incontestável pelo mundo da música country contemporânea. O alcance sulista de Kip Moore, atualmente no terceiro disco da carreira, parece enraizado em Full Moon Fever, lançado por Petty em 1989. Mr. Misunderstood (2015), de Eric Church, tem uma potência nasal digna do agora saudoso músico. Muitos dos maiores sucessos de Keith Urban – de “Somebody Like You” a “Long Hot Summer” – idolatram o altar cheio de guitarras de Tom Petty e Mike Campbell.

Atualmente, algumas canções country realmente soam como um rock ruim com rabeca. Ele estava certo quanto a isso. No entanto, muitas delas soam também como Tom Petty.

AS 10 MAIORES MÚSICAS

O artista escreveu canções memoráveis, que ajudaram a apresentar o folk e o country para novas gerações

Por Andy Greene, Christopher R. Weingarten, Corinne Cummings, Jon Dolan, Kory Grow, Nick Murray, Rob Sheffield e Will Hermes

1. “Girl”

Tom Petty and the Heartbreakers

1976

Em sua melhor música, Petty criou um hino que funde décadas de rock e música norte-americana de raiz. A alusão da letra à Rota 441, que passa pela cidade natal dele, Gainesville, inspirou boatos de que “American Girl” era sobre uma estudante da Universidade da Flórida que cometeu suicídio ao pular da sacada do quarto. Na verdade, Petty compôs a faixa em seu apartamento em Encino, Califórnia, enquanto ouvia o barulho da estrada do lado de fora. “As palavras saíram rolando de mim”, contou. “A garota estava procurando forças para seguir em frente – e encontrou.”

2. “Refugee”

Damn the Torpedoes

1979

Produzida por Jimmy Iovine, a principal canção de Damn the Torpedoes foi o rock mais pungente de Petty até então, uma declaração de que a banda não estava seguindo nenhuma tendência new wave ou punk, mas sim que fazia parte de uma nova linhagem de tradicionalistas ensinados pelo rock. As palavras tomaram forma rapidamente, mas com a gravação foi diferente. Campbell se lembra de ter feito 100 takes; Petty diz que foram 200. “Lembro que fiquei muito frustrado”, disse Campbell. “Larguei o estúdio e saí da cidade por uns dois dias.” Quando ele voltou, a banda acertou em cheio e filmou um videoclipe simples que se tornou onipresente no começo da MTV.

3. “Don’t Come Around Here No More”

Southern Accents

1985

“Queria gravar um single que não soasse como algo que já tivesse sido feito”, disse Petty sobre “Don’t Come Around Here No More”. Psicodélica, mas cheia de sintetizadores, clássica, mas moderna, a faixa foi uma reinvenção radical elaborada com o produtor inglês Dave Stewart, do Eurythmics.

4. “Free Fallin’”

Full Moon Fever

1989

Como a maior parte de Full Moon Fever, “Free Fallin’” ficou pronta rapidamente. Petty tinha composto o cintilante riff em um teclado e pensou na letra enquanto cantarolava no estúdio para o produtor Jeff Lynne. “Free Fallin’” se tornou um estouro no Top 10, permanecendo na parada norte-americana por sete meses. “Não há um dia em que alguém não murmure ‘Free Fallin’’ para mim ou eu não a escute em algum lugar”, afirmou Petty, “mas a verdade é que ela levou apenas 30 minutos da minha vida”.

5. “Listen to Her Heart”

You’re Gonna Get It!

1978

A inspiração para “Listen to Her Heart” veio de uma história que Jane, esposa do músico na época, contou para ele. Pouco depois de o casal se mudar para Los Angeles, ela se viu em uma festa dada pelo volátil Ike Turner. Quando a madrugada chegou, ele trancou as portas de casa para que ninguém pudesse sair. Petty transformou o incidente estranho em um hino endereçado a um homem que não tem respeito pelos sentimentos reais de uma mulher.

6. “Runnin’ Down a Dream”

Full Moon Fever

1989

Full Moon Fever foi lançado como álbum solo de Petty, mas todos os integrantes do The Heartbreakers (exceto o baterista, Stan Lynch) tocaram nele. Petty deu à faixa uma letra vívida sobre a liberdade de voar baixo na estrada, o que transmitiu seus sentimentos mais profundos sobre o sentido do rock. “Para mim, a música americana sempre foi para ser ouvida no carro”, afirmou.

7. “The Waiting”

Hard Promises

1981

O principal single de Hard Promises foi um ponto alto na “era da vibração dourada” dos Heartbreakers, segundo David Fricke, da Rolling Stone EUA. “Era sobre esperar pelos seus sonhos e não saber se eles se realizariam”, disse Petty. “Sempre achei que era uma canção otimista.”

8. “Breakdown”

Tom Petty and the Heartbreakers

1976

“Éramos garotos empolgados”, o líder contou ao descrever o humor da banda durante a gravação de “Breakdown”. Originalmente, a faixa tinha mais de sete minutos, mas acabou reduzida para menos da metade disso quando foi lançada como single de estreia de Petty com os Heartbreakers. É conduzida por uma base de bateria inspirada pela batida cortada e antecipatória de “All I’ve Got to Do”, música dos Beatles de 1963, e tem um dos licks de guitarra mais memoráveis de Mike Campbell.

9. “Room at the Top”

Echo

1999

Petty estava mergulhado em uma depressão profunda após o divórcio da primeira esposa, Jane, quando sentou ao piano no estúdio e abriu o coração nesta música. “‘Room at the Top’ é a canção mais depressiva que já compus”, afirmou. “Nunca quis ouvi-la, só que na última vez em que escutei Echo, pensei: ‘Deus do céu, há muito mais aqui do que eu lembrava’.”

10. “I Won’t Back Down”

Full Moon Fever

1989

“Esta música me assustou quando a escrevi”, contou o artista. “Não há nada de metáfora nela. É descaradamente direta.” George Harrison, que fez as harmonias de apoio, disse a Petty que um verso sobre “estar na beirada do mundo” era bobo – então, ele o substituiu imediatamente por “não há uma saída fácil”.