Edição 135 - Novembro de 2017

Lou Reed: nova biografia relata como um sujeito temperamental definiu os limites do rock por décadas

O Lou que aparece no livro é um artista brilhante, que ajudou a definir o significado de ser cool e realizou uma missão que tomou para si de fundir “o mundo da alta literatura com o rock and roll selvagem”
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por Brian Hiatt

Por ser um dos poucos jornalistas de quem Lou Reed realmente gostava, o colaborador de longa data da Rolling Stone EUA Anthony DeCurtis nunca viu em primeira mão algum comportamento ruim do cantor. Mas, como ele diz, “todo mundo conhece as histórias”.

Quando Reed morreu aos 71 anos, em 2013, DeCurtis começou a trabalhar na biografia do artista, o recém-lançado livro Lou Reed: A Life, ainda sem previsão de chegar ao Brasil. Para conseguir alinhar a obra, ele precisou traçar uma longa caminhada pelo lado obscuro do cantor. Com isso, ele foi bem além dessas histórias que todo mundo conhece.

O Lou Reed que aparece no livro é um artista brilhante, que ajudou a definir o significado de ser cool e a expandir os limites do rock por gerações, realizando uma missão que tomou para si de fundir “o mundo da alta literatura com o rock and roll selvagem”. Mas o cantor também foi – pelo menos nos tempos de juventude – um cara mimado e cruel. Já no ensino médio, em Long Island, Reed era o único adolescente da cidade que sabia onde comprar maconha, já lia a obra do Marquês de Sade, tocava em bandas de rock e frequentava os bares gay da região – mesmo que, para os amigos, Reed parecesse promiscuamente heterossexual. Na Syracuse University, ele repelia a turma das “festas de fraternidades” com suas primeiras experiências no mundo da composição, que resultou em faixas como “The Fuck Around Blues”, traficava drogas e contraiu hepatite ao usar uma agulha contaminada. Ainda assim, contrariando todas as expectativas, conseguiu se formar com honras.

O impacto causado pelo Velvet Underground, na segunda metade dos anos 1960, é um conto mais familiar, e todos sabem como o quarteto quebrou diversos paradigmas dentro do rock. Mas na obra DeCurtis existe um recorte sobre a “singularidade da vontade” de Reed: ele conseguia obter o que queria de gente como Andy Warhol (artista plástico e mecenas do Velvet), por exemplo, e depois simplesmente descartava a pessoa. Mas, talvez, a parte mais surpreendente seja a que retoma os anos do cantor logo após o Velvet. É bem conhecido o fato de que, nessa época, ele voltou a morar com os pais e começou a trabalhar como datilógrafo para o pai, mas a narrativa exótica do livro – enriquecida com história pouco ou nada conhecidas – deixa tudo ainda mais bizarro.

Já nos anos 1970, Reed estava dividido entre a excitante cena roqueira decadente de Nova York e os confortos de uma vida doméstica convencional. Esse conflito, aliás, é o cerne de uma de suas melhores canções, “Perfect Day”. No fim das contas, por mais que tenha desapontado e causado dor a amantes e parceiros de trabalho, Lou acabou encontrando o equilíbrio ideal, graças à decisão de deixar as drogas e à relação de mais de 20 anos com a artista performática Laurie Anderson, com quem ele se casou em 2008 e permaneceu até o dia em que morreu, em 27 de outubro de 2013. “Todos imaginariam que estar próximo a eles fosse uma loucura”, diz DeCurtis. “Mas era mais como ser amigo do atleta mais importante do time da escola e de sua namorada líder da torcida. Reed a respeitava muito.”

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