Edição 136 - Dezembro de 2017

Blitz celebra 35 anos e Evandro Mesquita avalia o seminal legado da banda

A nostalgia pela década de 1980 é algo natural para Evandro Mesquita: “O Lobão fala mal [sobre o período], diz que era tudo cafona. Mas foi legal, sim. Conseguimos realizar algo fértil e pulsante. Acho normal que as pessoas valorizem a década, é a referência que elas têm”
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por Paulo Cavalcanti

A Blitz tem uma importância fundamental dentro do espectro da música pop nacional. O legado musical da banda carioca ainda repercute e o pioneirismo dela abriu inúmeras portas. Se não fosse pelo estouro do single “Você Não Soube Me Amar” naquele marcante verão de 1982, o chamado BRock, trazendo em seu bojo Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e outros, teria uma origem diferente. O sucesso dessa turma foi, ainda, essencial para a criação do primeiro Rock in Rio, em 1985, e, com o impacto do evento, o showbusiness brasileiro mudaria para sempre.

No momento, os 35 anos de existência do grupo são marcados pelo lançamento de Blitz no Circo Voador (Deck/Canal Brasil), o quarto DVD da carreira. À frente da Blitz ainda está o duradouro Evandro Mesquita. O cantor, eterno garotão e carioca da gema, tem agora 65 anos, mas não aparenta a idade, nem em corpo nem em espírito. Quando conversou com a reportagem, ele rumava a Las Vegas, onde a banda iria participar do Grammy Latino, concorrendo com o álbum Aventuras II, lançado no fim do ano passado. Para ele, esse é um acontecimento que coroa um projeto que começou sem pretensões. “Eu tinha 19 anos quando passei a viver de arte”, relembra. “Comecei no teatro e depois entrei para o Asdrúbal Trouxe o Trombone (trupe que juntava artes cênicas e música). Era tudo muito underground.”

A Blitz surgiu em meio a um dos núcleos de teatro dos quais Mesquita fazia parte. “O que fazíamos tinha uma pegada de rock e com um alto grau de teatralidade”, conta. “Colocamos as garotas dos backing vocals na frente; tramávamos diálogos entre os homens e as mulheres. As nossas canções eram diálogos retirados do cotidiano. Falávamos de coisas sérias também, mas sem a intenção de pregar sermão.” A ideia era que o trabalho tivesse humor, mas sem perder o pique e o suingue. Para o cantor, era um antídoto natural ao clima do Brasil da época: “Tudo era muito sinistro”, lembra. “Então, viemos com cores, com o espírito de praia, aquela vibração do Bob Marley.”

Mesmo com a censura e a repressão aos costumes do período, o vocalista fala que havia muita gente praticando plenamente a liberdade. “A nossa turma frequentava as praias de Saquarema. Tinha a galera do surfe e o pessoal que ficava à beira da fogueira. A Blitz foi porta-voz desse jeito coloquial e informal”, diz. O local que aglutinava as tribos era o Circo Voador. “Criamos um ambiente que juntasse artes alternativas debaixo daquela lona. Eu atuava como diretor musical do local e vi um monte de bandas estreando no Circo. Foi assim que tudo tomou forma.”

Naturalmente, tinha gente de olho na cena. Um amigo do cantor recomendou a Blitz para Mariozinho Rocha, produtor da gravadora EMI-Odeon. Mesquita recorda: “A gente tinha gravado uma fita demo e o Mariozinho disse: ‘Eu nem preciso ouvir. Já vou bancar um dia de estúdio para vocês’”. Ela fala que o executivo “pirou”: “Ele comentou que não ouvia nada tão forte desde os Secos e Molhados”. Com a exposição na Rádio Cidade, a Blitz, então, aconteceu.

O sucesso do grupo marcou uma troca de guarda, trazendo elementos da vigente new wave para dentro da cultura brasileira, e assim mexendo com a linguagem, comportamento, atitude e moda. Mesquita fala com orgulho: “Todo aquele pessoal, como Lulu [Santos], Lobão e Ritchie, já estava na ativa desde o final dos anos 1970. Mas a Blitz foi a primeira banda a ser ouvida, e trazer o que rolava na cena alternativa para a frente”. A nostalgia exercida hoje pelo público a respeito da década de 1980 é algo natural para o artista, que pondera: “O Lobão fala mal [sobre o período], diz que era tudo cafona. Mas foi legal, sim. Conseguimos realizar algo fértil e pulsante. Acho normal que as pessoas valorizem a década, é a referência que elas têm”.

Sempre correndo, Mesquita tem dividido seu tempo entre a Blitz e inúmeros projetos, especialmente como ator. Interpretar é algo de que ele não abdica. Ele fez parte do extinto seriado A Grande Família por nove anos, vivendo o mecânico Paulão, e também esteve no elenco de incontáveis novelas e filmes. O cantor diz que é possível conciliar tudo. “Gravo televisão de segunda a quarta. O resto da semana é dedicado à Blitz”, diz.

Com uma agenda lotada, a Blitz vive em aeroportos. Mesquita conta que convocou parte dos convidados de Aventuras II em encontros casuais ocorridos em lounges de companhias aéreas: “Foi assim com o Zeca Pagodinho, com o Seu Jorge e mesmo com o Frejat, amigo de longa data. Também convidamos a Alice Caymmi para o disco. Foi engraçado porque o avô dela, o Dorival Caymmi, uma vez foi a um show da gente”, ele se diverte.

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