Edição 136 - Dezembro de 2017

Discreto e Confiável: Malcolm Young fugia dos holofotes enquanto cuidava do legado do AC/DC

Guitarrista, que morreu no dia 18 de novembro, aos 64 anos, devido a complicações causadas por demência, era parte vital da banda
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por David Browne

‘‘Eu nunca senti que fosse um astro pop”, Malcom Young falou à Rolling Stone em 2008. “Eu acho que tocar no AC/ DC é um trabalho das 9h às 17h”. Na banda, o guitarrista ficava no fundo do palco, impassível, segurando o ritmo enquanto o irmão Angus solava e trotava pelo palco trajando sua roupa de colegial. Quando os Rolling Stones convidaram os irmãos Young para participar de uma jam de blues com eles, Malcolm a princípio recusou. “Ele disse: ‘Não posso’, relembrou Brian Johnson, cantor da banda. “Foi muito engraçado ver Keith Richards e Ron Wood tentando arrastá-lo para o palco. Ele tocou um pouquinho com eles e depois retornou para ficar atrás dos amplificadores. Era o jeito dele.”

Mas o guitarrista, que morreu no dia 18 de novembro, aos 64 anos, devido a complicações causadas pela demência, era parte vital da banda. Malcolm escreveu a maioria dos hinos da banda ao lado do irmão Angus e dos vocalistas, Johnson e seu predecessor, o falecido Bon Scott. Ele zelava pela imagem e integridade da banda e criou inúmeros riffs marcantes.

Malcolm Young abandonou a escola quando tinha 15 anos e começou a trabalhar como mecânico depois que a família dele trocou a Escócia pela Austrália. No começo dos anos 1970, ele entrou para uma banda local ironicamente chamada The Velvet Underground (nada a ver com os novaiorquinos). Em seguida, ele e Angus juntaram forças, primeiro em um grupo de R&B chamado Marcus Hook Roll Band e depois no AC/DC. Embora Angus lembre que no começo o irmão se ocupava dos solos, ele acabou preferindo ficar na base, servindo como a força motriz da banda. “Como Angus falou à Rolling Stone em 2016, “Malcolm era o cara que partia para a batalha. Quando pintava uma crise, olhava para mim e falava: ‘Vamos trabalhar um pouco... vamos escrever algumas canções’. Ele era totalmente focado.”

“Malcolm era a força catalisadora”, disse Johnson, recordando as sessões para Back in Black (1980), o primeiro álbum do AC/DC do qual participou, e que vendeu 22 milhões de cópias. Rick Nielsen, do Cheap Trick, que participou de turnês conjuntas com o AC/DC, lembrou: “Ele era totalmente sério, e não cometia erros. Era sólido como uma pedra”. Se profissionalmente Malcolm era estável, a vida pessoal dele saiu dos trilhos na década de 1980, quando começou a abusar da bebida. Mas, segundo o irmão George, o músico voltou à sobriedade e ao seu papel de zelador da banda. Quando o Megadeth excursionou com o AC/DC alguns anos atrás, o vocalista Dave Mustaine notou o quão sério eram os bastidores. “Alguém então disse: ‘Será que eu consigo uma garrafa de qualquer coisa?’ Um outro cara então falou: ‘Não, esses caras aí só bebem chá e fumam cigarros’.’’

De acordo com Johnson, a demência de Young se revelou em 2008, quando a banda ensaiava para a turnê do álbum Black Ice. O guitarrista teve que reaprender a tocar as velhas canções. Em 2014, quando gravaram Rock or Bust, ele já não estava bem o suficiente para contribuir com as sessões. No final daquele ano, ele foi internado em uma casa de repouso, na Austrália.

Angus Young comentou a situação do irmão em 2016. “Agora é difícil me comunicar com ele. Mas eu passo várias mensagens dizendo que sentimos a falta dele.” Quando se lembra do final da turnê de Black Ice, Brian Johnson fala: “Nós estávamos em Barcelona na última noite e Malcolm ainda tinha fogo no olhar. Você podia notar de longe. Não dava para tirar os olhos dele”.

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