O Anticristo

O assassino Charles Manson morreu e ninguém vai sentir falta dele

Paulo Cavalcanti Publicado em 19/12/2017, às 07h28 - Atualizado em 15/01/2018, às 18h59

<b>Monstruoso</b><br>
Manson em 1969, quando foi preso.
AP Photo

Charles Manson tinha 83 anos e morreu de causas naturais no dia 19 de novembro. Desde o começo da década de 1970 ele permanecia encarcerado em várias prisões de segurança máxima – a última delas foi a de Corcoran, em Kings County, Califórnia. Manson, nascido em 1934, era um criminoso incorrigível. Ele ficou preso durante praticamente toda sua vida adulta.

Carismático, dono de uma excelente oratória e conhecedor de preceitos de cientologia, Manson instalou-se em Los Angeles, onde criou sua própria seita, a qual batizou de Família. Ele era fã de rock e achava que poderia se tornar um astro depois de acidentalmente conhecer Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys. Manson e seus seguidores, a maioria jovens garotas, foram morar na mansão de Wilson por um tempo. Os Beach Boys até gravaram uma música dele, chamada “Cease to Exist”, que foi rebatizada como “Never Learn Not to Love”.

O psicopata tinha teorias alucinadas sobre o destino da humanidade. Acreditava que os brancos e os negros iriam se exterminar em uma guerra racial e que somente ele e sua Família, escondidos no deserto, iriam sobreviver. Nessa teoria, ele misturava preceitos da Bíblia com as canções de The Beatles (o popular White Album), do Fab Four. E deu ao conflito o nome de “Helter Skelter” (uma das faixas mais barulhentas do disco).

Manson colocou o Helter Skelter em prática no dia 8 de agosto de 1969. A atriz Sharon Tate (que tinha 26 anos e estava grávida de oito meses e meio do diretor Roman Polanski) e seus amigos Jay Sebring (um famoso cabeleireiro de Hollywood), Wojciech Frykowski (ator polonês) e Abigail Folger (herdeira de uma marca de café e namorada de Frykowski) foram massacrados na mansão localizada no número 10050 da Cielo Drive em um dos crimes mais sádicos do século 20. No dia seguinte, foi a vez de Leno LaBianca (empresário do ramo de supermercados) e sua esposa Rosemary, que foram mutilados no número 3301 da Waverly Drive. Manson organizou e ordenou os dois assassinatos, mas ele não participou pessoalmente.

Nos locais dos crimes, a gangue de Manson escreveu com sangue das vítimas as palavras “Healter Skelter” (sic), “Death to Pigs” e “Arise”. Os investigadores não sabiam que as expressões tinham sido retiradas de faixas de The Beatles. Levou um tempo para a polícia montar o quebra-cabeça e enquadrar os assassinos. Foi graças ao trabalho do promotor Vincent Bugliosi que os hippies assassinos foram parar atrás das grades.

Charles Manson foi capa da Rolling Stone EUA em junho de 1970, em uma das edições mais lembradas de todos os tempos. Os jornalistas David Felton e David Dalton tiveram acesso irrestrito a ele, que na época aguardava julgamento. O criminoso falou à vontade à publicação, já que erroneamente achava que a Rolling Stone “estava do seu lado”. Um material enorme foi coletado e a matéria foi dividida em seis partes, tornando-se referência sobre a vida de Manson.

Devido a todos esses fatores, Manson, mesmo de forma pervertida, entrou para a mitologia pop. Também não podemos esquecer que o Guns N’ Roses gravou uma música dele (“Look at Your Game, Girl”) e que Marilyn Manson também prestou uma “homenagem” ao usar o sobrenome do assassino. Mas não havia nada de charmoso ou heroico em Charles Manson. Ele entra para a história como um predador social, um sociopata capaz de despertar os piores instintos no ser humano.