Por Dentro do Mundo dos Jedi

Os segredos da trama do novo Star Wars – que traz um Luke Skywalker descontente e uma traumática morte na família – nas palavras do elenco e do diretor

Brian Hiatt Publicado em 14/12/2017, às 13h07 - Atualizado às 21h40

<b>Uma Nova Esperança</b><br>
Daisy Ridley como Rey em <i>Os Últimos Jedi</i>

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Há muito tempo, um garotinho ganhou uma espaçonave. Ele seguiu as instruções de montagem do melhor jeito que conseguiu, encaixando os canhões, o trem de pouso, o minúsculo tabuleiro de xadrez interestelar. Rian Johnson estava segurando sua própria Millennium Falcon. “A primeira coisa que fiz foi atirá-la do outro lado do quarto para ver como seria voando”, relembra. Ele sorri. “E ela quebrou.”

Por Dentro do Mundo dos Jedi: a capa da RS Brasil sobre o novo Star Wars

Johnson cresceu, frequentou a escola de cinema, fez algumas coisas boas, incluindo o divertidamente perturbador drama de ficção científica Looper: Assassinos do Futuro (2012). Agora, tem quase 44 anos, mas as bochechas avantajadas e o jeito gentil fazem com que seja fácil imaginar a criança que foi (fácil demais, talvez – está tentando voltar a deixar crescer um cavanhaque que tinha raspado); até sua camisa de manga curta extremamente bem passada transmite uma sensação de que ele está pronto para o dia de tirar fotos na escola. É fim de outubro e Johnson está sentado em um escritório dentro dos estúdios da Disney, em Burbank, Califórnia, local que chama de lar há vários meses e onde um quadro branco declara: “Estamos trabalhando em Star Wars: Os Últimos Jedi (caso você tenha se esquecido)”. Johnson é roteirista e diretor do filme, o que significa que acabou ficando com a melhor coleção de brinquedos substitutos do mundo, incluindo uma Falcon em tamanho real que quase o fez chorar, quando a viu pela primeira vez. Ele tratou a coisa toda com o que parece ser uma mistura intrigante de reverência e peraltice – o elenco vive dizendo que nada foi exatamente como o esperado. “Sacudi um pouco as coisas”, ele diz sorrindo novamente.

Enquanto isso, no mundo real, tudo está quebrado. Nos meses desde que a franquia voltou à vida com O Despertar da Força (2015), fica a impressão de que uma criança descuidada pegou a civilização e a atirou do outro lado do quarto – e, no meio do voo, muitos dos norte-americanos perceberam que eram o Império do Mal esse tempo todo, com direito a um novo governante que até George Lucas, mesmo nessa fase moderna em que carrega mais na computação gráfica, rejeitaria como grotesca demais para ser um personagem plausível.

Estranha e curiosamente, a saga pareceu prever tudo isso – talvez não seja tão estranho quando se considera o comentário sobre a Guerra do Vietnã incorporado à trilogia original de Lucas, ou as advertências sobre a fragilidade da democracia em suas prequels. Em O Despertar da Força, dirigido por J.J. Abrams, um movimento revanchista que se chamava de Primeira Ordem se congrega em marchas ao estilo do filme O Triunfo da Vontade, mostrando a força chocante de uma ideologia que havia sido devidamente derrotada muito tempo antes. O que sobrou do governo está desmoronando e é ineficaz, então a única esperança em vista é um bando de pessoas do bem conhecido como a Resistência. Familiar, tudo isso soa.

“É de certa forma um reflexo da sociedade”, reconhece a nova heroína da saga, Daisy Ridley, que interpreta Rey e que passou de uma atriz desconhecida de Londres a grande estrela de cinema quase tão rapidamente quanto sua personagem foi de caçadora de sucata no deserto a Jedi iniciante. “Só que também é escapismo, porque há criaturas e gente correndo com lasers e tal, então acho que é uma mistura maravilhosa de ambos.”

Quanto pior o mundo fica, mais precisamos daquela galáxia distante, diz Gwendoline Christie, que faz o papel da comandante dos stormtroopers Capitã Phasma (e também é a Brienne of Tarth de Game of Thrones): “Quando os tempos são difíceis, não há nada de errado em ser transportado pela arte. Acho que todos precisamos disso. Muitos de nós estamos unidos em nosso amor por ela”.

Os Últimos Jedi, que chega aos cinemas brasileiros em 14 de dezembro, é o segundo episódio da trilogia atual e rumores sugerem que, como no “filme do meio” original, O Império Contra-Ataca, as coisas ficam mais sombrias desta vez. No entanto, Johnson nega isso, embora admita que há alguma influência do reboot moralmente ambíguo da série Battlestar Galactica que saiu nos anos 2000 (o que é engraçado, porque Lucas considerava que o seriado original, dos anos 1970, plagiava algumas coisas dele e na época entrou com um processo). “É uma das coisas com as quais espero surpreender as pessoas”, ele afirma. “Acho que é muito engraçado. Os trailers têm sido meio sombrios – o filme tem isso, mas também fiz um esforço consciente para que tivesse tudo aquilo que associo com Star Wars, em termos de tom. Isso quer dizer não só o lado Richard Wagner da coisa: tem que ter também o lado Flash Gordon.”

No final de outubro, quase ninguém tinha visto o filme ainda, mas Johnson, estranhamente, parecia livre de apreensões quanto a suas perspectivas. Emanava uma tranquilidade semelhante no set, segundo Adam Driver, que encarna o filho pródigo de Han e Leia, Kylo Ren, um venerador de Darth Vader. “Se eu tivesse aquele emprego, estaria estressado”, afirma. “Pegar do ponto em que alguém deixou e levar adiante, mas também introduzir um vocabulário que ainda não foi visto em um filme de Star Wars é uma tarefa e tanto, e algo muito difícil de acertar. Ele é incrivelmente inteligente e não sente a necessidade de fazer com que todos saibam disso” (“Parecia que estávamos brincando o tempo todo”, diz Kelly Marie Tran, que faz a maior personagem nova, Rose Tico). Algumas semanas depois de conversarmos, a Lucasfilm anunciou que Johnson havia assinado um contrato para fazer mais três longas de Star Wars na próxima década, os primeiros que fogem à dominante saga de Skywalker, o que indica que a Disney e a matriarca da Lucasfilm, Kathleen Kennedy, estão mais do que felizes com Os Últimos Jedi. E Kathleen não é alguém que fica feliz facilmente – substituiu recentemente os diretores de um spin-off sobre Han Solo no meio das filmagens e tirou o diretor original do Episódio 9, Colin Trevorrow, para abrir caminho para a volta de Abrams.

O maior triunfo de O Despertar da Força foi a apresentação de novos personagens com os quais valia a pena se importar, liderados por Rey e Kylo Ren, além de gente como o stormtrooper desertor Finn, interpretado por John Boyega, Poe Dameron (Oscar Isaac) e outros. Kylo Ren (nascido Ben Solo) matou o Han de Harrison Ford com um golpe de sabre de luz, privando Johnson de ter o cobiçado personagem para trabalhar. O filme, contudo, tinha nos deixado com a Princesa Leia (Carrie Fisher), a general que comanda a Resistência, e a revelação climática de um agora grisalho Luke Skywalker (Mark Hamill).

Os Últimos Jedi será o último Star Wars com Carrie. Nos últimos suspiros do cruel ano de 2016, ela morreu quatro dias após sofrer uma parada cardíaca durante um voo. Menos de um mês depois, cerca de 500 mil pessoas se reuniram em Washington para a Marcha das Mulheres, e Leia estava por toda parte. Havia cartazes com sua imagem e o penteado de “fones de ouvido” de 1977 acompanhando slogans (“O Lugar de uma Mulher é na Resistência” provavelmente foi o melhor).

Johnson tinha se afeiçoado à atriz e fica feliz quando eu conto que há alguns anos visitei a casa dela em Beverly Hills, um local com decoração psicodélica onde ela deu quase toda uma entrevista hilária deitada de bruços na cama. Depois, se animou fazendo piadas sobre drogas e doença mental diante de um assessor de imprensa da Disney. “Você conseguiu experimentar um pouco daquela esfera mágica que ela criou”, diz Johnson, que repassou o roteiro com Carrie naquele mesmo quarto. “Fico feliz por eu ter tido um gostinho daquilo e conhecê-la um pouco.”

Tudo que a atriz fez no filme foi mantido exatamente como foi feito por ela. “Por sorte, conseguimos uma performance totalmente completa.” Então, agora é Abrams que precisa descobrir como lidar com a ausência repentina de Carrie e Leia (ele é caracteristicamente enigmático sobre o assunto: “É uma triste realidade”, afirma. “Em termos de seguir em frente... o tempo dirá o que acabará sendo feito”).

Em geral, Johnson teve o que parece ser um nível quase impensável de autonomia ao moldar a história de Os Últimos Jedi. Ele diz que ninguém ditou ponto algum da trama, que simplesmente decidiu o que acontece a seguir, e fica espantado com a preocupação de alguns fãs com a ideia de que estão “inventando ao longo do caminho”: “A verdade é que histórias são inventadas! Seja porque alguém que criou tudo isso há dez anos e colocou no quadro branco e todos precisamos aderir, seja porque a estamos encontrando organicamente enquanto progredimos, não significa que estamos investindo menos na elaboração”.

Há uma única cena de Mark Hamill em O Despertar da Força e ela dura apenas um minuto e ele não diz nada, mas é uma atuação marcante com uma seriedade real, por um ator subestimado que havia se tornado mais conhecido por seu trabalho na Broadway e em dublagens – nos Estados Unidos, é o Coringa definitivo dos desenhos animados desde o início dos anos 1990 (“Com a dublagem”, conta, “pensei: ‘Que ótimo! Posso desencanar da minha aparência! Não preciso decorar falas!’”). Quando Rey o aborda no topo solitário da montanha onde ele presumidamente passou anos estudando o equivalente Jedi do Talmude, o rosto barbudo de Luke Skywalker alterna entre pesar, terror e anseio.

“Não olhei para aquilo como ‘ah, vai ser minha grande chance’”, afirma Hamill, que acabou de chegar ao escritório de Johnson e está sentado ao lado dele, carregando uma grande garrafa térmica cheia de café na mão direita que Darth Vader um dia decepou. Está com uma versão aparada de sua barba de Jedi mais velho, da qual aprendeu a gostar: “Raspei e pensei: ‘Quer saber, a barba realmente cobre a bochecha caída’”.

Hamill é encantador, agitado e falante – mesmo quando era mais jovem e bonito, era um geek preso no corpo de um garoto dourado. É empolgado e maravilhado o suficiente para transmitir a vaga sensação de que, como Luke, pode ter passado alguns anos solitários em um planeta distante e ainda está se readaptando à vida na Terra, ou pelo menos ao estrelato no cinema.

Ele admite ter tido “frustrações com ser excessivamente associado” a Star Wars ao longo dos anos – Skywalker lhe custou a oportunidade de fazer teste para viver no cinema, em Amadeus, o papel de Mozart, que representou no teatro – “mas nada que tenha me causado uma angústia profunda”. Ele também passou as décadas desde O Retorno do Jedi atuando e criando uma família com Marilou, sua esposa há 39 anos. Quanto a seu retorno atual ao papel de Luke? “É uma culminação da minha carreira”, afirma. “Se eu me concentrasse na enormidade disso, acho que não conseguiria funcionar. Falei isso ao Rian. Disse, por mais absurdo que pareça: ‘Vou ter de fingir que este é um filminho artístico que ninguém verá’.”

Para sua cena em O Despertar da Força, conta, “eu não sabia – e acho que nem J.J. realmente sabia – especificamente o que havia acontecido naqueles 30 anos. Sinceramente, o que fiz foi tentar dar ao J.J. uma gama de opções. Neutralidade, suspeita, dúvida... aproveitando o fato de que são só pensamentos. Amo assistir a filmes mudos. Pense no quanto podiam ser eficazes sem diálogo”.

Abrams sentiu alguma trepidação com a ideia de entregar a Hamill um roteiro com um papel tão minúsculo. “A última coisa que queria era insultar um herói da minha infância”, diz, “mas eu também sabia que potencialmente seria uma das maiores expectativas de todos os tempos”. Na verdade, a primeira reação de Hamill foi: “Que chato, não vou mais correr pela Estrela da Morte teimando com Carrie e Harrison!”

No entanto, acabou concordando com Abrams, especialmente depois que contou o número de vezes em que Luke era mencionado no roteiro – acha que foram mais de 50: “Não quero dizer ‘é a maior entrada na história do cinema’... mas com certeza foi a maior da minha carreira”.

Johnson se volta para Hamill. “Já te contei que no começo, quando estava tentando desenvolver a história”, diz, “tive uma ideia rápida, por um momento, em que pensei: ‘E se o Luke estivesse cego? E se fosse tipo o samurai cego?’ Só que não fizemos isso. De nada. Não colou” (ele acrescenta que isso foi antes de um personagem cego que usava a Força aparecer no filme paralelo de 2016 Rogue One). Hamill ri, brevemente contemplando o quão difícil essa reviravolta teria sido: “Luke, não fique tão perto da beira do precipício!”

Ele teve dificuldade suficiente com a história que Johnson realmente criou para Luke, que agora é o que o ator chama de um Jedi “desiludido”. “Não é uma história alegre de contar”, diz Hamill. Johnson confirma que o astro lhe disse logo no começo que discordava da direção que o personagem estava tomando. “Então, iniciamos uma conversa”, conta o diretor. “Fomos e voltamos e, depois de ter de explicar minha versão, eu a ajustei. E tive de justificar isso para mim mesmo, o que acabou sendo incrivelmente útil. No final me senti muito próximo de Mark. Aqueles primeiros dias batendo cabeça e depois nos unindo, esse processo sempre aproxima.”

Hamill se esforçou para imaginar como Luke poderia ter chegado a esse ponto de alienação. Um fã de rock que é amigo de Dave Davies, do The Kinks, ele começou a pensar em sonhos hippie desmoronados enquanto assistia a um documentário sobre os Beatles. “Ouvi o Ringo [Starr] falar sobre ‘bom, naquela época era paz e amor’, e como foi um movimento que basicamente não funcionou. Pensei nisso. Naqueles dias, achava que, quando chegássemos ao poder, não haveria mais guerras. A maconha seria legalizada.” Ele sorri nessa parte. “Acredito em tudo isso. Tive de usar essa sensação de fracasso para me identificar” (já sabemos que Luke estava treinando um grupo de Jedis e Kylo Ren o criticou).

O luto de Hamill pela perda de Carrie Fisher ainda está pulsante, especialmente porque os dois conseguiram renovar seu laço e suas briguinhas de irmãos espaciais, depois de décadas dormentes que tinham dado a eles cada vez menos motivos para se encontrarem. “Agora havia um nível de conforto que ela sentia comigo”, ele conta, “que eu não estava tentando arrancar dela de forma alguma. Era a mesma pessoa de quando ela me conheceu... eu era o irmão certinho, estável, e ela era a tia maluca”. Promover o filme está trazendo tudo à tona para ele. “É insuportável”, afirma. “Ela está maravilhosa no filme, mas isso acrescenta uma camada de melancolia que não merecemos. Adoraria que as emoções viessem da trama, não da vida real.”

Menciono como parece ter sido difícil para Luke: nunca ter conhecido a mãe, encontrar os corpos carbonizados dos tios que o criaram, aquelas questões paternas conhecidas, os recentes anos de isolamento. “É a vida de um herói, cara”, diz Johnson. “É isso que você precisa fazer para ser herói. Tem de ver as pessoas que ama morrerem queimadas!”

Hamill observa que a realidade também não é tão boa assim. “Às vezes”, comenta, mais calmo do que o normal, “você pensa: ‘Preferiria ter a vida do Luke em vez da minha’.”

Adam Driver tem uma pergunta para mim. “O que é emo?”

Entre o treinamento para a Marinha e as aulas na Juilliard para se tornar um dos atores mais extraordinários de sua geração, ele perdeu algumas coisas, incluindo gêneros musicais inteiros, mas o restante do mundo (incluindo uma divertida conta de paródia no Twitter) decidiu que há algo bem emo em seu personagem, como o cabelo liso, as roupas pretas e os chiliques periódicos. “Você tem alguém que ouve que é especial a vida inteira”, Driver comenta sobre o personagem, “e ele consegue sentir isso. E sente tudo provavelmente de uma forma mais intensa que as pessoas ao redor dele, entende?”

Como qualquer um que o tenha visto em praticamente qualquer coisa, até em Girls, pode dizer, o próprio ator parece sentir as coisas de um jeito mais forte que a maioria. “Não me acho uma pessoa particularmente intensa”, afirma, possivelmente não ignorando que está fazendo contato visual intenso e que está batendo o pé direito pelo excesso de energia. “Fico obcecado com algumas coisas e, tipo, gosto do processo de trabalhar em algo.” Ele está em um café no Brooklyn, em uma rua arborizada, que parece ser seu lugar preferido para dar entrevistas. Chegou cedo, recém-saído do trabalho em um novo filme de Spike Lee, usando um suéter-azul escuro com jeans preto e tênis Adidas de cano alto. Driver emana uma segurança, uma essência de aço, que é um pouco intimidadora, apesar de sua afabilidade óbvia e risada quase constante. Não é diferente de falar com Harrison Ford, que fez seu pai. Até o personagem de Driver o assassinar.

Driver, criado pela mãe e pelo padrasto pregador depois que seus pais se divorciaram quando ele tinha 7 anos, não se esquiva quando sugiro que suas próprias questões paternas podem estar à mostra. “Não sei se é sempre tão literal”, diz. Menciona que Kylo Ren também mata o personagem de Max von Sydow, que é uma espécie de “tio distante” para ele. “Ninguém me pergunta: ‘Então, você tem problemas com um tio distante?’”

John Boyega me disse em 2015 que Driver continua dentro do personagem no set, mas isso não parece ser exatamente verdade. Ele só tenta manter o foco nas emoções do personagem diante de um ambiente que não consegue deixar de achar ridículo. “Assistir Star Wars é uma aventura de ação”, compara, “mas filmar é comédia pura. Stormtroopers tentando encontrar um banheiro. Pessoas vestidas como trolls, tipo dando encontrões em portas. É hilário”. Além disso, quando usa o capacete, não consegue enxergar muito bem. “Você tem de ser discreto e astuto, mas aí uma raiz de árvore te derruba.”

Ele se recusa a ver seu personagem como mimado. “Há algo de elitista, de realeza ali”, diz, lembrando que a mãe distante do personagem é “a princesa. Acho que talvez ele esteja ciente do privilégio”. No entanto, aos 34 anos, reconhece que Kylo Ren é mais jovem: “Não quero dizer o quanto mais jovem, porque as pessoas vão fazer interpretações...” Fica corado e, mais tarde, afirma que se arrependeu de mencionar isso. Se for um spoiler da trama, não está exatamente claro como, a não ser que seja algo relacionado a uma conexão não explicada com Rey. Os dois, pelo jeito, passam um bom tempo juntos neste filme. “A relação entre Kylo e Rey é incrível”, diz Ridley, que Driver chama de “uma ótima parceira de cena”, aparentemente um de seus maiores elogios.

Inicialmente, ele não sabia ao certo se queria estar em um filme de Star Wars. “Sempre sou cético quanto a filmes de Hollywood, porque em geral são amplos demais”, afirma, mas o discurso de Abrams, enfatizando a peculiaridade do caráter de Kylo Ren como vilão conflituoso, o convenceu. “Tudo nele por fora é desenhado para projetar a imagem de que é confiante”, diz. Apenas quando está sozinho é que consegue reconhecer “o quão confuso é... o quão fraco.”

Driver pode fazer uma defesa empolgada sobre por que Kylo Ren na verdade não é vilão nenhum. “Não é como se as pessoas não estivessem vivendo na Estrela da Morte”, afirma, os olhos castanhos passando de doces a cortantes sem aviso prévio. Parece quase estar no personagem agora. “Não é também um ato de terrorismo contra as centenas de milhares de indivíduos que morreram ali? Eles não tinham famílias? Entendo que existem pessoas que podem apontar exemplos que as façam sentir que estão certas. Quando você tem certeza absoluta de que é apoiado por um poder superior acima de tudo e que está moralmente certo, não há limite no que fará para garantir sua vitória. Os dois lados se sentem assim.”

Você está começando a me convencer a entrar para o Império, digo. Ele ri e fala mais enfaticamente. “Então, os rebeldes são maus”, diz, batendo o punho cerrado na mesa. “Acredito firmemente nisso!”

Em uma noite extravagantemente chuvosa de quinta em Montreal, estou sentado no lotado e barulhento Le Vin Papillon, um bar de vinhos nomeado o quarto melhor restaurante do Canadá, segurando lugar para uma Jedi. Daisy Ridley chega pontualmente, usando um casaco fofo de pele falsa e um vestido sem manga – “o que restou do meu guarda-roupa”, diz. Seu cabelo meio curto está preso em um coque tipo Rey que a deixa reconhecível demais, mas ela não se importa. “Sempre usei meu cabelo assim. Não vou mudar.” Ela está em Montreal há três meses, rodando um filme de ficção científica dirigido por Doug Liman chamado Chaos Walking – o que “é um pouco caótico, porque estamos escrevendo à medida que filmamos e tal”, conta. “Percebi que não trabalho bem desse jeito.”

Ela está no segundo de dois dias de folga inesperada graças ao colega Tom Holland (também conhecido como o mais recente Homem-Aranha), que teve um problema no dente do siso, mas ainda está profundamente exausta. “Preciso de uma injeção de [vitamina] B na bunda”, fala, com o tipo de sotaque britânico sofisticado que faz palavrões soarem elegantes. Já parece claro que ser escalada para um tipo específico de personagem não representará para ela o tipo de problema que foi para Hamill e Carrie. Em vez disso, Ridley está ocupada de uma maneira que somente uma recente estrela de cinema de 25 anos poderia – e ainda conseguiu cumprir um plano pré-fama de voltar à faculdade por um semestre no ano passado. “Não tenho controle algum sobre minha vida”, afirma. Tem quatro filmes a caminho, sem contar o que está rodando. “Então, há muita coisa acontecendo e nunca tive de lidar com isso antes. Acho que meu cérebro não consegue exatamente acompanhar o ritmo dos fatos.” Sofre de terrores noturnos. “Acordo gritando.”

Rey teve um momento crucial no último filme, tirando seu sabre de luz do chão nevado e agarrando com ele seu destino, seu poder, seu lugar no centro da narrativa. Sua chance. Daisy ainda está absorvendo o que esse momento e essa personagem significam para mulheres e meninas, mas definitivamente sentiu mais pressão desta vez, especialmente porque, da última, “foi tudo tão insano que parecia um sonho”, diz. “Lembro que falei para o Rian: ‘Estou neurótica pra cacete neste’. Pensava: ‘Vou foder com tudo. Toda essa gente pensa essa coisa. Como faço isso?’”

Parte do problema pode ter sido a tendência de Daisy em diminuir o que conseguiu fazer no primeiro filme. Suas cenas solo comoventes no primeiro ato, especialmente o momento em que come a pequena e triste “meia-porção” de pão verde espacial, criaram uma imensa boa vontade, em segundos, por uma personagem que ninguém tinha visto antes. Ela menciona o elogio efusivo de Harrison Ford por essa cena, a ponto de ele ficar “emotivo”. “Não sei”, diz dando de ombros, essencialmente dando crédito pelo impacto a Abrams e ao diretor de fotografia do filme, Dan Mindel. “Eu só estava comendo!”

No entanto, de outras maneiras, Rey lhe deu confiança. No novo filme, conta, ofereceram uma dublê para uma cena em que uma porta abriria e a acertaria. A atriz puxou Liman de lado e disse: “‘Doug, não preciso de dublê para isso’. E pensei: ‘Não sei se isso teria acontecido se fosse com Tom Holland’”.

Diferentemente de quase todo mundo, Daisy sabe há anos quem são os pais de Rey, já que Abrams lhe contou isso no set de O Despertar da Força. Ela acredita que nada mudou: “Pensei que o que me disseram no começo é o que é”. O que é estranho, porque Johnson insiste que teve liberdade para criar qualquer resposta que quisesse à pergunta. “Não recebi nenhuma diretriz sobre o que aquilo tinha de ser”, afirma. “Nunca recebi a informação de que ela é isso ou aquilo.” A ideia de que Johnson e Abrams de alguma forma chegaram à mesma resposta parece sugerir que os pais de Rey não são personagens aleatórios inéditos. Tendo dito isso, Abrams misteriosamente sugere que pode ter havido mais coordenação com Johnson do que este demonstra, então não dá para saber o que acontece aqui – podem estar brincando conosco para preservar uma das preciosas caixas secretas de Abrams. Em todo caso, Ridley ama a especulação: suas teorias de fã preferidas envolvem concepção imaculada e viagem no tempo. Parece mais provável que ela seja filha ou sobrinha de Luke, mas, novamente, não dá para saber.

Em 2015, ela me contou que não tinha problema com a ideia de ser vista como Rey para sempre, da forma como Carrie Fisher sempre foi Leia. Agora, mudou de opinião. “Não há semelhança alguma entre a história de Carrie e a minha”, afirma, acrescentando que, embora a falecida atriz tenha essencialmente preferido escrever a atuar, ela planeja continuar “habitando” tantos personagens quanto puder. Por outro lado, “muita coisa da Rey está em mim”, diz, “mas isso não sou eu sendo a Rey. Partes minhas são uma personagem como Rey, como não poderia deixar de ser. Então, nesse sentido, entendo, porque muito da Leia é a Carrie.”

Esta trilogia terminará com a sequência de Abrams para Os Últimos Jedi e, depois, parece que o principal impulso da franquia passará para os novos e misteriosos filmes de Johnson, supostamente não conectados com a saga anterior. Para Abrams, esse será o final da história de Skywalker. “Vejo dessa forma”, afirma, “mas o futuro sempre pode mudar”.

Já no que diz respeito a Daisy Ridley, o futuro de Rey está bastante definido. Ela não quer fazer a personagem depois do próximo filme. “Não”, diz decididamente. “Eu não sabia realmente no que estava entrando, não havia lido o roteiro, mas pelo que consegui entender gente muito boa estava envolvida, então pensei: ‘Legal’. Agora, acho que tenho ainda mais sorte do que achava naquela época, por fazer parte de algo que dá tanto a sensação de voltar para casa.”

Só que, ahn, isso meio que parece um “sim”. “Não”, ela diz novamente, dando um leve sorriso. “Não, não, não. Estou muito, muito empolgada em fazer o terceiro e fechar o círculo, porque, essencialmente, topei fazer três filmes. Então, na minha cabeça, são três. Acho que parecerá a hora certa de encerrar.”

E quanto a voltar 30 anos depois, como seus antecessores fizeram? Ela pensa seriamente nisso, entre mordidas na couve-de-bruxelas (dividimos o prato, o que significa que ela ficou com... meia-porção). “Quem sabe? Sinceramente, sinto que o mundo pode acabar nos próximos 30 anos, então se até lá não estivermos vivendo no subterrâneo em uma série de celas interconectadas... claro. Talvez. Só que, novamente, sei lá. Porque o que achei tão maravilhoso foi que as pessoas realmente queriam isso. E foi feito por pessoas que realmente amam isso.”

Ela pensa ainda mais nisso, nesta nova trilogia Star Wars que criamos na hora. “Que idade terei?”, pergunta antes de fazer a conta. “Cinquenta e cinco”. Ela parece muito jovem por um momento, enquanto tenta se imaginar como uma Jedi de meia-idade. Então, desiste. De qualquer forma, está na hora de ir – vão buscá-la às 5h25 para voltar ao set. “Porra”, Ridley fala. “Não consigo pensar em um futuro tão distante.”