Contra a Corrente: Marcelo Nova ativa memória e conta em livro como formatou uma trajetória única

“Sempre fui um bom observador. Talvez isso também tenha me ajudado quando me tornei compositor”, diz o líder do Camisa de Vênus

Paulo Cavalcanti Publicado em 16/04/2018, às 17h35 - Atualizado às 19h03

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Marcelo Nova no apartamento onde mora, em São Paulo

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Chamar Marcelo Nova de figura rebelde, iconoclasta ou polêmica seria reducionista – ele é o tipo de indivíduo que transcende rótulos. O líder da banda Camisa de Vênus, hoje com 66 anos, sempre foi um indivíduo que se pautou por suas próprias ideias e convicções, sem meios-termos. Agora, ele é o foco do livro Marcelo Nova – O Galope do Tempo: Conversas com André Barcinski (Benvirá). Isso é o mais perto do que se pode chegar de uma autobiografia do cantor e compositor baiano. A obra é estruturada como um longo bate-papo do músico com o jornalista. Foi uma boa ideia, já que Nova funciona melhor assim, quando suas opiniões eloquentes, contundentes e por vezes hilariantes são reproduzidas da forma mais fiel possível.

Para começar, Nova fala como surgiu o livro: “Eu conheço o Barcinski há mais de 20 anos. Ele sempre sugeria a ideia da biografia”, relata. “Mas tudo só começou a se materializar mesmo há cerca de uns cinco anos. Existia uma questão logística, já que ele mora em Paraty, no Rio de Janeiro, e eu em São Paulo. Ele me convidava para fazermos as entrevistas lá. Mas eu não topei; afinal, detesto praia!”, ele se diverte. Assim, o material foi colhido por meio de longas conversas via Skype. “Foi a solução. Esse processo de depoimentos levou cerca de três anos. No livro, está tudo relatado de forma cronológica. Mas a conversa em si não foi assim, teve muitas idas e vindas. Depois, coube ao Barcinski montar esse quebra-cabeça, editar e organizar tudo”, fala.

O livro ganha vida e originalidade com os detalhes resgatados por Nova, que se lembra de forma cinematográfica da época em que era apenas um garoto em Salvador, fugindo da música brasileira e da bossa nova e, consequentemente, caindo de cabeça no rock and roll. “Não houve esforço de minha parte para lembrar de tudo o que narro”, explica o músico. “Eu sempre fui um bom observador. Talvez isso também tenha me ajudado quando me tornei compositor. O que me ajudou também foi a informalidade da minha conversa com o Barcinski. Assim tudo fluiu como deveria.”

Entre as primeiras memórias de Nova está o exato momento quando ele descobriu o rock and roll, no fim da década de 1950, através de um LP do pioneiro Little Richard. “Meu pai ouvia Bing Crosby, a [cantora lírica] Yma Sumac, era tudo muito austero”, conta. “O que me chamou atenção de cara no rock era a selvageria. Eu era um garoto que ainda não sabia inglês, então não entendia as mensagens das canções. Eu ficava lá ‘tocando guitarra’ com uma raquete de tênis do meu pai. Eu não queria saber de baianidade, de ficar tocando violão em uma casinha na praia tomando cachaça. Isso nunca me disse nada.” Nova dizia que era o único jeito de enfrentar a vida nada excitante em Salvador, um local cujo estilo de vida não tinha nada a ver com ele. Como conta no livro, visitas pontuais a São Paulo também ajudavam a aliviar a alma.

Depois de ser iniciado no rock via Little Richard, o futuro artista também mergulhou no som dos outros pioneiros como Chuck Berry (para quem ele emprestou a guitarra em 1993 quando o mestre esteve no Brasil pela primeira vez), Elvis Presley e outros. Com a chegada da década de 1960, ele renovou a fé no gênero através dos sons criados por ingleses como Beatles, Rolling Stones, The Animals e outros. “Eu via essas bandas em imagens de um programa chamado Shindig!”, ele conta no livro. A Jovem Guarda chegou com tudo, mas curiosamente a percepção musical de Nova não foi ativada automaticamente pela turma de Roberto Carlos. Paralelamente, naquele momento surgia um personagem que mudou toda a orientação musical, estética e artística do aspirante a roqueiro e que futuramente também entraria na vida pessoal dele: Raul Seixas.

Marcelo Nova viu Raul pessoalmente pela primeira vez de uma forma bizarra. O pai dele, que era médico, organizava uma festa de Natal anual para ajudar as crianças com deficiência física. Quando Nova tinha uns 9, 10 anos, uma das atrações do evento era ninguém menos do que o adolescente Raul Seixas, que tinha uns 17 anos. “O meu pai ligou uma vitrolinha e começou a tocar ‘Boogie do Bebê’, do Tony Campello” recorda. “O Raul dublava a música, empurrando um carrinho e dentro dele tinha um ‘bebê’: era um cara chamado Waldir Serrão. Era hilariante”. Mas eles nem chegaram a se conhecer naquele momento. “Raul morava perto de mim, mas a diferença de idade entre nós era muito grande para nos conectarmos naquele ponto.”

Depois, Raul Seixas se profissionalizou, assumiu o apelido Raulzito e, ao lado de sua banda, Os Panteras, revitalizou a cena de rock da Bahia. Foi aí que Nova começou a se ligar no futuro Maluco Beleza. “Eu nunca tinha visto um show de rock de verdade ao vivo até assistir ao Raul”, lembra. “Ele se jogava no chão, simulava um ataque de epilepsia, dançava como um louco. Era o tipo de cara que espantava as mães de família e as pessoas respeitáveis.”

O interessante é que Nova também não se conectou a nada do que era feito na música pop brasileira no final dos anos 1960 – Os Mutantes, Novos Baianos, nada disso significava muito para ele. Foi somente quando Raul estourou em 1972 com “Ouro de Tolo” que deu um clique nele. “Naquele momento, não existia ninguém cantando algo como ‘Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis etc’ Era um discurso libertário e antitudo. Me pegou porque eu não estava contente com nada. Eu tinha que fazer as coisas do meu jeito.” A mensagem de Raul Seixas tocou Nova, mas passaram alguns anos até que eles finalmente se tornaram amigos e parceiros. Tudo culminou no LP conjunto A Panela do Diabo, lançado em 19 de agosto de 1989, dois dias antes de Raul sair de cena.

Nova conta que realmente começou a fazer as coisas “do jeito dele” depois de uma viagem definidora a Nova York no final da década de 1970. Ele foi jogado em meio à efervescência da revolução punk e tudo mudou em sua cabeça. Ele conhecia Mick Jones, do Foreigner, que o convidou para conhecer os Estados Unidos. O convite foi aceito na hora: “Eu fui na base da aventura, sem saber de nada. Isso fazia parte do meu jeito de astronauta explorador”, conta. “Fui morar no Greenwich Village. Vi todo mundo ao vivo, gente como Devo, Plasmatics etc. Também fui ao clube CBGB, berço do punk.” Com a ciência de que não eram necessários muitos recursos ou uma técnica apurada para tocar o tipo de rock que cristalizava naquele momento, ele retornou ao Brasil e montou o Camisa de Vênus. Assim a história foi feita, com a banda se tornando uma das mais bem-sucedidas e polêmicas da década de 1980.

Depois de se aventurar por uma interessante carreira solo a partir da década de 1990, Nova reativou o Camisa de Vênus. Ele diz que o momento atual é muito bom e que “a fonte dele não secou”. Um dos fatores da reinvenção e revitalização da banda é a presença do filho dele Drake Nova, hoje com 25 anos. Ele assumiu a guitarra e a direção musical, levando o Camisa a uma nova e produtiva fase, que culminou com o bem recebido Dançando na Lua (2016). “Eu estava tocando com gente que não funcionava”, conta Nova. “O problema é que os guitarristas pensam de uma forma matemática, só em função de arquitetarem solos e riffs. Eu não gosto dessa abordagem, necessitava de alguém que enfatizasse o texto das minhas composições. E veio o Drake, na época com apenas 16 anos, e ele entendeu perfeitamente.”

O Camisa de Vênus segue como uma força ao vivo, tocando em diversos locais do Brasil. Marcelo Nova também cita como ponto alto da carreira dele a aparição que fez na edição de 2012 do festival Lollapalooza. Para meados deste ano, a banda deve lançar um CD duplo e um DVD que foram gravados ao vivo recentemente em Porto Alegre, cidade que na década de 1980 ajudou a consagrar a banda.