Celebração de Peso: Deep Purple recorda grandes momentos dos 50 anos da banda

Em março de 1968, os integrantes pegaram as cinzas de um grupo chamado Roundabout e montaram o Deep Purple

Paulo Cavalcanti Publicado em 11/04/2018, às 18h40 - Atualizado às 18h51

<b>Resistentes</b><br>
A banda hoje: Ian Gillan, Steve Morse, Roger Glover, Ian Paice e Don Airey (<i>da esq. para a dir.</i>)

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Em janeiro de 1985, quando ocorreu a primeira edição do Rock in Rio, as bandas clássicas de heavy metal e de hard rock finalmente invadiam o Brasil. O festival contou com a presença de nomes como Iron Maiden, AC/DC, Scorpions, Ozzy Osbourne, Queen e outros. Dois anos antes disso, havia sido a vez de o Kiss tocar por aqui. Mas faltava o Deep Purple nesse ilustre rol do rock pesado. O quinteto inglês só veio pisar em nosso país em agosto de 1991, apresentando-se no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e no Ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.

Para essa ocasião, o quinteto veio com a formação clássica, excetuando o cantor Ian Gillan, que na época estava em carreira solo. No lugar dele estava Joe Lynn Turner. Nessa primeira vez em nossa terra, o guitarrista Ritchie Blackmore se fez presente – por sinal, essa foi a única vez que ele tocou no Brasil. Jon Lord (teclado), Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria), outros integrantes da formação clássica, também estiveram aqui naquela ocasião histórica.

A partir daí, o Deep Purple nunca mais abandonou o Brasil. O grupo esteve aqui inúmeras vezes, sendo que a mais recente aconteceu em setembro de 2017, quando foi a principal atração do festival Solid Rock, que passou por diversas partes do Brasil. Os músicos vieram para divulgar o álbum Infinite, que haviam acabado de lançar. Ao longo destas décadas, tive a oportunidade de encontrar e conversar com vários membros da banda, tanto ao vivo quanto por telefone.

A banda está celebrando os 50 anos de existência. Em março de 1968, os integrantes pegaram as cinzas de uma banda chamada Roundabout e montaram o Deep Purple. A inspiração para o nome veio da clássica canção de Bing Crosby, que havia sido um megahit em 1963 para Nino Tempo e April Stevens. Nestes 50 anos, a formação mudou várias vezes e agora está estabelecida com Gillan, Glover, Paice, Steve Morse (guitarra) e Don Airey (teclado).

Em 2009, em uma conversa com o falecido tecladista Jon Lord, por ocasião da apresentação dele na Virada Cultural em São Paulo, ele relembrou o começo: “O Roundabout era o projeto de um cara chamado Chris Curtis, que havia feito parte de uma banda muito popular de Liverpool chamada The Searchers. Ele iria cantar e tocar bateria. Chris havia chamado o Ritchie Blackmore, que na época estava morando na Alemanha, para participar. Pois bem. O Cris começou a tomar muito LSD e sumiu. Ficamos nós mais o baterista Ian Paice. Haviam investidores e mais gente envolvida, que cobravam que nós, abandonados pelo Chris Curtis, seguíssemos em frente com aquele projeto. E deu no Deep Purple”.

O baixista Roger Glover, que é hoje de certa forma o líder do Deep Purple e seu principal memorialista, pega o fio da meada nesta narrativa. Em 2003, quando os músicos tocaram em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, com abertura do Hellacopters e do Sepultura, falei longamente com ele por telefone. Glover me detalhou uma série de particularidades sobre a trajetória dele e dos companheiros. Perguntei sobre esse início do Purple, quando o grupo tinha na formação o cantor Rod Evans e o baixista Nick Simper. “Nos primeiros discos, tínhamos a influência do Vanilla Fudge. Era uma banda norte-americana que fazia um psicodelismo meio exagerado. Tivemos a sorte de ter um hit como ‘Hush’ e tudo foi para a frente.”

Mas Glover disse que sentia que as mudanças estavam no caminho. “Evans e Simper eram caras legais e talentosos, mas não estavam na sintonia do que realmente queríamos fazer”, contou. Glover falou que Ritchie Blackmore estava imprimindo cada vez mais as ideias dele, que queria um rock mais pesado, com a guitarra dele na frente, complementada pelo órgão Hammond de Jon Lord. “Com Deep Purple in Rock (1970), tudo finalmente se encaixou”, disse Glover.

Lançado em 1972, Machine Head é para muitos o ponto alto da carreira do Deep Purple. Glover lembrou então as circunstâncias da gravação desse álbum clássico. “Queríamos fazer um disco que tivesse a sensação de ter sido gravado ao vivo, mas sem plateia”, disse. “Então, fomos para Montreaux, Suíça, para registrarmos tudo em uma unidade móvel.” Glover recordou o incidente que inspirou “Smoke on the Water”, a canção mais icônica do trabalho: “Fomos convidados pela organização para assistir a uma apresentação do Frank Zappa em um cassino. Lá pelas tantas, o Zappa foi ao microfone e falou: ‘Olha, gente, não se alarme, mas... fogo!’ Depois do berro dele, vimos que o local havia se transformado em um inferno. Quando saiu, Glover lembra que viu a fumaça no lago Geneva. “Era uma visão indescritível. Fui para o hotel e pensei na frase: “‘Fumaça na água, fogo no céu”’. Glover disse que, depois de conversar com Ritchie Blackmore, o guitarrista veio com o icônico riff, e a história estava feita. Em 2000, o Deep Purple veio ao Brasil para realizar uma série de shows referentes ao disco In Concert with the London Symphony Orchestra. Nessa ocasião, trouxe como convidado especial ninguém menos do que Ronnie James Dio, que entoou algumas canções ao lado do Purple. Em São Paulo, a apresentação aconteceu na extinta Via Funchal, e para emular a sonoridade do trabalho que vieram divulgar os ingleses foram acompanhados pela Orquestra Jazz Sinfônica.

Mas antes do show teve a obrigatória entrevista coletiva, realizada em um hotel do centro de São Paulo. Consegui trocar algumas palavras com o baterista Ian Paice. Depois de ele educadamente assinar alguns LPs que eu havia levado, posou para fotos comigo. Também muito polidamente, me falou que tinha que ir. Em seguida, eu fui atrás do cantor Ian Gillan e surpreendi o vocalista com uma compilação de singles do Episode Six, obscura banda que ele teve com o Roger Glover antes de eles entrarem no Purple, em 1969. Ele arregalou os olhos e falou: “Rapaz, eu não achava que alguém conhecesse isso! Na verdade, eu preferia que ninguém lembrasse disso”, riu.

Quando o Deep Purple se apresentou no Brasil, no ano passado, conversei com Gillan novamente, com mais calma, desta vez por telefone. Tanto tempo depois, a perspectiva era outra. Essa era uma turnê de despedida e assim fiz a obrigatória pergunta: “Por quanto tempo a banda ainda permaneceria na estrada?” Gillan foi ponderado e escolheu bem as palavras. “Ainda não estamos parando, não. Não somos mais jovens, é claro, mas enquanto a maioria de nós conseguir se sustentar na vida na estrada, com a saúde e a sanidade relativamente intactas, estaremos por aí. Garanto que chegaremos aos 50 anos de carreira.”