O trabalho de Carlos Eduardo Miranda definiu a música pop brasileira das últimas décadas

Produtor que trabalhou com Raimundos, Mundo Livre S/A e Skank, entre muitos outros, virou persona pública quando participou do Ídolos, do SBT

Paulo Cavalcanti Publicado em 19/04/2018, às 21h20 - Atualizado às 21h21

<b>Carlos Eduardo Miranda</b><br>
1962 -2018

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O produtor, jornalista e jurado de programa de televisão Carlos Eduardo Miranda morreu no dia 22 de março. Ele sofreu um mal súbito no apartamento onde morava em São Paulo. Para aumentar a tristeza, ele partiu um dia após o seu aniversário de 56 anos. Miranda era, a princípio, uma figura de bastidores. Como produtor e profissional da área fonográfica, havia trabalhado com os Raimundos, Virgulóides, Mundo Livre S/A, Little Quail and The Mad Birds, Skank, Maskavo Roots e muitos outros. Se você pretende entender o pop brasileiro dos anos 1990, Miranda é a referência. Depois, o gaúcho ganhou uma persona pública quando participou do Ídolos, do SBT. Era uma presença marcante devido à aparência bonachona e ao jeito de falar – o famoso “bah, velhinho”, com inconfundível sotaque gaúcho, faz parte da mise-en-scène de qualquer um que pretende imitá-lo. Era um tipo folclórico, mas aquilo que todos viam era real. E, no final das contas, quem não conhecia o Miranda? Todo mundo que atua na área tem uma história com ele.

Eu mesmo conheci o Miranda em 1993, quando ele trabalhava como jornalista na antiga revista Bizz. Lá, fazia um pouco de tudo. Escrevia resenhas bizarras de heavy metal usando a alcunha de Evil Otto e cuidava de uma seção que dissecava fitas demo de bandas iniciantes. Essa função de “olheiro” era ideal para ele, que estava sempre ligado em gente nova. O cantinho do Miranda na redação era uma bagunça. Na mesa dele se amontoavam pilhas de LPs, dezenas de fitas cassete e papel que não acabava mais.

Foi tranquilo me aproximar dele. Eu, como o Miranda, era fã da chamada “música ruim” – ou melhor, música esquisita, coisas como The Shaggs, The Fugs etc. No Rio Grande do Sul, na metade da década de 1980, ele também dava uma de músico, tocando teclado em uma banda chamada Atahualpa Y Us Panquis. Apesar de ter sido gravado alguns anos antes, o disco do grupo só saiu em 1993. Eu havia ficado impressionado com a tosquice raivosa que havia nos sulcos daquele vinil. Falei: “Miranda, sou seu fã pela coragem de gravar aquilo”. Ele, orgulhoso, respondeu: “Queríamos fazer o pior disco de todos os tempos. Não sei se conseguimos, mas chegamos perto!” Em janeiro de 2000, estávamos juntos em Cannes, França, para participar da edição daquele ano da feira fonográfica Midem, e a nossa relação se aprofundou um pouco mais.

Quem trabalhava com o Miranda acabava se tornando amigo dele para o resto da vida. Gabriel Thomaz, líder da banda Autoramas, deve muito ao produtor. “Em Brasília, eu era muito jovem e me virava com a minha banda Little Quail and the Mad Birds”, lembra. “Quando viemos para São Paulo, fizemos uma apresentação em um espaço de heavy metal chamado Dynamo. Apenas quatro pessoas estavam naquele show. Uma delas era o Renato Yada, editor de arte da Bizz. Ele gostou do que viu e pegou uma fita cassete com a gente. Depois, levou para o Miranda na revista. Alguns meses depois, ele nos contatou. Queria que uma música nossa entrasse em um LP da gravadora Eldorado que estava produzindo. Foi o Miranda quem tirou a gente do limbo e nos colocou para virar músicos.”

Posteriormente, quando Miranda fundou o selo Banguela, ele chamou o Little Quail e a banda se tornou ponta de lança do rock indie brasileiro dos anos 1990. A amizade se aprofundou, como conta Thomaz: “Era muito legal ir ao apartamento dele naquela época. Tinha uma cama e um aparelho de som. E só. O resto era um oceano de discos e fitas – a visão do paraíso. Lembro que toda a turma do Little Quail assistiu à final da Copa do Mundo de 1994 no apê dele. Ele era uma figura muito engraçada, entendia muito de rock e abriu a minha cabeça. Os papos com ele eram sensacionais”. Agora, o Autoramas está prestes a lançar um trabalho e Thomaz lamenta que Miranda não esteja presente: “Puxa, eu queria tanto mostrar a ele”.

Para Nevilton Alencar, líder da banda que leva o nome dele, a notícia foi um choque. “Bateu forte e de surpresa. Muito triste. Faz pouco tempo, me mudei para Roma e comecei a conversar com ele pelo WhatsApp. Ele me passou um monte de sons de bandas e artistas italianos e ítalo-americanos. Falar com ele era uma aula repleta de exemplos e referências sem fim.” Miranda e Nevilton trabalharam em Sacode! (2016) e a experiência marcou o músico. “Conviver com ele para fazer um disco foi especial. Nunca mais pensei ou ouvir música da mesma forma. Era um cara sempre alto-astral e amigão. Somou na minha vida e na de muita gente.”

O jornalista Tiago Agostini, colaborador da Rolling Stone Brasil, também foi alvo da generosidade de Miranda. O TCC do curso de jornalismo dele em 2007 focalizou o produtor, como lembra: “Soube na hora que tinha achado o personagem perfeito. Com o sucesso do Ídolos, ele experimentava algo novo. Depois de ver a fama dos artistas com quem trabalhava, ele agora estava sob os holofotes”. Com 22 anos na época, Agostini relata que a experiência foi reveladora: “Miranda foi uma das pessoas mais inteligentes e espirituosas que conheci. Era um elo para entender tudo que aconteceu na música pop do Brasil nas últimas duas décadas”.

O bom é que Miranda sempre se atualizava e não ficou só no rock. Para José Flávio Júnior, jornalista e assessor do Ministério da Cultura, se os sons paraenses viraram um fetiche nacional nos últimos anos, Miranda tem uma bela culpa no cartório. “Ele passou a trabalhar com artistas de Belém quando os mestres da guitarrada já tinham sido resgatados pelos millennials e o tecnobrega era pauta recorrente pelo aspecto comercial.” Nas palavras do jornalista, o que faltava para o levante amazônico era justamente alguém como o produtor para atiçar a massa criativa e tentar formar uma cena. Isso de fato aconteceu com o show coletivo Terruá Pará, codirigido por ele. “Várias pontas soltas se conectaram e qualquer barreira que houvesse entre carimbó, rock ou eletrônico foi para a cucuia.”

Para Júnior, Miranda botava uma pilha forte para que o poder local bancasse a ida de jornalistas de cultura a Belém. “Lá, o gaúcho apresentava sons, a gastronomia etc. E quem se metia a acompanhá-lo acabava conhecendo muita coisa, mas também ganhando alguns quilinhos, tomando alguns porres. Enfim, acabava entendendo o significado da palavra excesso. Com Miranda, o mergulho era sempre profundo e a viagem pra lá de intensa.