A Libertação de Janelle Monáe

A cantora alcançou a fama como uma androide do pop com uma capacidade criativa infinita. Agora está finalmente mostrando ao mundo o ser humano que há dentro dela

Brittany Spanos Publicado em 22/06/2018, às 19h18 - Atualizado às 19h23

Janelle Monáe

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Janelle Monáe está vestindo um traje espacial e chorando. Estamos em Atlanta, e ela está em um dos estúdios da sede do selo dela, o Wondaland Records, cercada de monitores e TVs, um deles com um protetor de tela que alterna imagens dos heróis da cantora: Prince, Martin Luther King Jr., Pam Grier, Tina Turner, Lupita Nyong’o, David Bowie. Ela está prestes a revelar ao mundo algo que era muito aguardado, algo que só os amigos e os familiares dela conhecem, algo que ela relutou para dizer em público. Conforme canta uma faixa de seu novo álbum, Dirty Computer, “tomara que os rumores se provem reais”. Janelle Monáe agora admite finalmente: ela não é o androide imaculado, a “alienígena do espaço sideral/ A cibergarota sem um rosto” que afirmou ser durante décadas em discos, vídeos, shows e até mesmo em entrevistas – ela é, na verdade, um ser humano de 32 anos, com defeitos, problemas e feita de carne e osso.

E tem outro rumor para confirmar. “Ser uma mulher negra e gay nos Estados Unidos”, diz respirando fundo enquanto sai do armário, “alguém que já teve relacionamentos tanto com homens quanto com mulheres – Eu me considero alguém que é livre pra caralho”. Ela inicialmente se identificava como bissexual, mas esclarece: “Depois li sobre a pansexualidade e pensei ‘ah, eu também me identifico com essas coisas’. Estou aberta a aprender mais sobre quem eu sou”.

De ótimo caimento, o traje espacial dela é adorável. O artefato branco da Nasa traz os dizeres “comandante” em um braço e a bandeira norte-americana no outro. Ela vestiu o figurino sem qualquer motivo especial – não havia uma câmera por perto sequer. O look talvez seja remanescente da persona androide, conhecida como Cindi Mayweather, que ela tentou nos vender por todos estes anos: um robô messiânico e revolucionário que se apaixonou por um humano e fez votos de libertar todos os androides.

No início da carreira, Janelle era insegura a respeito de dar conta dos ideais impossíveis do showbiz. A personagem, as roupas andróginas, o compromisso irredutível à história que estava contando (tanto no palco quanto fora dele), tudo isso servia como uma armadura. “Fazia parte de um medo de ser julgada”, ela diz. “Tudo que eu via era que havia uma regra e que deveria ter certa aparência para entrar nessa indústria. Sentia que não tinha a aparência da artista negra feminina tradicional.”

Ela também é uma perfeccionista, e essa característica, por um lado, ajudou a construir a carreira da artista, mas por outro dificultou sua vida emocional. Interpretar um autômato impecável também foi uma maneira de realizar um desejo. Essa foi uma das muitas razões para ela pensar que foi infectada por um “vírus de computador” e precisava de uma limpeza, o que por sua vez levou a anos de terapia, isso muito antes do disco de estreia, The ArchAndroid, em 2010. “Eu me sentia incompreendida. Pensava que, antes de me autodestruir, antes de me tornar uma pessoa confusa em frente ao mundo todo, deixe-me procurar ajuda. Morria de medo de que alguém me visse em qualquer condição que não fosse meu absoluto melhor. Essa obsessão se tornou algo pesado demais para mim.”

Então jogava a balança exageradamente para o outro lado, deixando os fãs confusos e se perguntando o que exatamente era aquilo tudo, aquela imagem e aquele som daquela pessoa negra de roupas andróginas criando fantasias afrofuturistas tão malucas quanto as do Parliament-Funkadelic que ela cresceu ouvindo. Janelle se tornou uma anomalia do pop, uma intrusa às vezes incongruente no universo daqueles que foram seus maiores apoiadores no início, Big Boi e Puff Daddy – este foi responsável por contratá-la para uma parceria com a Bad Boy Records em 2008. The ArchAndroid foi uma apresentação barulhenta, e a sequência, Electric Lady (2013) – o primeiro disco-conceito na história da Bad Boy –, a estabeleceu como uma das vozes mais inovadoras do século 21. Anos antes de Frank Ocean, Solange, Beyoncé e SZA terem colocado o R&B alternativo e mais artístico no mainstream, Janelle já estava trabalhando nisso, fazendo uma ponte entre o neo-soul e tudo aquilo que viria a seguir, sem medo de fundir rock, funk, hip-hop (quando ela tem vontade, como no recente single “Django Jane”, ela vira uma rapper de primeira), R&B, música eletrônica e uma teatralidade exagerada e pueril.

A cantora sempre evitou responder a perguntas sobre a própria sexualidade (“Eu só saio com androides” era o comentário padrão), mas dava a real a respeito do assunto nas letras de música. “Se você ouvir meus álbuns, está tudo lá”, diz. Ela cita “Mushrooms & Roses” e “Q.U.E.E.N.,” duas faixas que fazem referência a uma personagem chamada Mary que é tida como um interesse romântico. No filme de 45 minutos feito para acompanhar Dirty Computer, “Mary Apple” é o nome dado a “computadores infectadas” fêmeas que são feitas como reféns e perdem seu nome original. Uma delas é interpretada por Tessa Thompson, atriz de Thor: Ragnarok que já apareceu em boatos como a namorada de Janelle, que segue não discutindo publicamente sua vida afetiva. O título original de “Q.U.E.E.N.”, ela conta, era “Q.U.E.E.R.”, e ainda dá para ouvir a palavra nas harmonias que servem de pano de fundo para a canção.

Janelle é a CEO de seu próprio selo, representante da marca de cosméticos CoverGirl e, ainda, uma estrela de cinema, tendo participado do filme vencedor do Oscar Moonlight: Sob a Luz do Luar e de Estrelas Além d o Tempo, também indicado ao prêmio. Ambos foram grandes sucessos liderados por elencos negros e nos dois ela conta histórias de norte-americanas negras cujas vidas não costumam chegar à telona. “Nossas histórias estão basicamente sendo apagadas.” A artista conta que sentiu uma ligação muito forte com os roteiros e isso fez com que ela “tivesse vontade de contar a própria história”. Uma preocupação real na cabeça dela é a de que o ser humano que existe por trás da máscara não seja o suficiente. Ela já se perguntou em voz alta, inclusive durante sessões de terapia, “E se as pessoas não acharem que sou tão interessante quanto Cindi Mayweather?” Ela vai sentir falta da liberdade de ser a androide. “Eu a criei, então posso fazer com que seja qualquer coisa que eu queira. Não tive que falar sobre a Janelle Monáe que estava fazendo terapia. Era Cindi Mayweather. É ela quem eu quero ser.”

Em Dirty Computer, os únicos vestígios de ficção científica estão no título e na trama do filme rodado para ser um acompanhamento do disco. As letras são confissões de carne e osso de inseguranças tanto físicas como emocionais, pontuadas por libertação sexual. São os desejos sem filtro de uma pessoa que pensa demais se permitindo falar livremente, pelo menos uma vez na vida. E ela deseja ajudar os ouvintes a adquirir a coragem para serem “dirty computers” também. “Eu quero jovens garotos, garotas, não binários, gays, héteros, queers que estejam passando por dificuldades para lidar com a própria sexualidade, que estejam passando por situações de ostracismo e bullying simplesmente por serem eles mesmos, únicos... que saibam que eu os compreendo”, ela diz em um tom que faz jus ao título de “comandante” que carrega no braço. “Esse disco é para você. Sinta orgulho.”

Janelle cresceu em uma família enorme e devota ao batismo, em Kansas City, Kansas. Ou, como ela gosta de explicar: “Tenho 50 primos de primeiro grau!” Nem todos eles estão por dentro dos detalhes da vida amorosa da prima, mas é quase certo que cada um já a assistiu dividindo um pirulito com Tessa Thompson e usando calças transparentes no vídeo de “Make Me Feel”. “Eu literalmente não tenho tempo para isso”, ela ri. “Não tenho tempo de fazer uma reunião tipo assembleia com a minha família gigante e ficar tipo ‘Olha, tenho uma novidade’.” Ela se preocupa com o fato de que quando visitarmos Kansas City, no dia seguinte, eles vão trazer esse assunto à tona. “Existem pessoas na minha vida que me amam e elas têm perguntas para fazer. Acho que quando eu chegar lá vou ter que dar respostas para essas perguntas.”

Ao longo dos anos, ela ouviu alguns membros da família, a maior parte desses parentes mais distantes, falando coisas desconcertantes. “Muito desse disco é uma reação à dor que é escutar gente da minha família dizendo ‘todas as pessoas gays vão para o inferno’.”

Ela passou a questionar a Bíblia e a fé batista que a cercava desde cedo. Hoje, diz que “serve ao Deus do amor” – determinou que o amor é o fator em comum em todas as religiões, uma ideia sobre a qual Stevie Wonder refletiu em um interlúdio de Dirty Computer.

Quando chegamos ao apartamento em Kansas City, no lado industrial do Kansas, os parentes dela, na verdade, não têm pergunta alguma a fazer – aliás, também não têm nada de desagradável para dizer. Só há uma grande dose de amor para a superestrela que se criou ali mesmo, na casa deles.

Janelle Monáe Robinson nasceu aqui em 1º de dezembro de 1985. A mãe trabalhava como zeladora e o pai estava no meio de uma batalha de 21 anos contra o vício em crack. O casal se separou quando Janelle tinha menos de 1 ano de idade, e a mãe mais tarde se casou com o pai da irmã mais nova de Janelle, Kimmy.

Os avisos carinhosos da cantora a respeito do tamanho assustador de sua família se provam verdadeiros assim que colocamos os pés no bairro onde ela cresceu. Em uma rua, a avó por parte de mãe era proprietária de uma fila de casas, que abrigavam primos, tias, tios e a própria Janelle. A alguns minutos dali está o lar em tons pastel da bisavó por parte de pai. Ela passou uma porção de tempo significativa por lá – era seu principal ponto de ligação ao pai e à família paterna enquanto ele entrava e saía da prisão. O relacionamento dos dois era difícil até ele conseguir ficar limpo, há 13 anos. Outra curta viagem de carro nos leva à residência da tia Glo, onde nos encontramos com a mãe dela. “Ela é meu pedaço de torta favorito”, diz a tia Fats, se referindo ao apelido carinhoso que a família deu a ela, algo como “docinho”, em tradução livre.

Janelle Monáe cresceu em uma comunidade proletária chamada Quindaro. O local foi estabelecido como um assentamento de nativos norte-americanos e abolicionistas logo antes da Guerra Civil, e se tornou um refúgio para afro-americanos escapando da escravidão. Eles chegavam lá por meio da famosa Underground Railroad, uma rede de rotas clandestinas existente nos Estados Unidos durante o século 18 que era usada para a fuga de escravos. Algumas semanas antes da nossa visita, vândalos pintaram suásticas e “Viva Satã” em uma estátua do abolicionista John Brown que foi erguida no bairro. Desde então, ela foi pintada novamente. “Eu sei que não foi ninguém que mora por aqui que fez isso”, afirma a bisavó, balançando a cabeça. “Forasteiros.”

Kansas City é uma cidade predominada pela população branca no lado de Missouri da ponte, mas a comunidade de Janelle é majoritariamente negra. “Eu lia sobre o local de onde vim e entendia quem realmente ficava em desvantagem vindo desses ambientes. É uma merda. É assim para todas as pessoas negras.”

É difícil de não perceber a religiosidade dos parentes dela – quase todas as frases que saem da boca deles mencionam as bênçãos de Deus. Aos 91 anos, a bisa de Janelle ainda monitora os corredores da escola de catequese da região. Durante a nossa visita, ela se sentou ao piano e comandou uma cantoria gospel. Janelle, sentada entre uma tia e um primo, se junta às vozes: “Fale com Ele e Diga o Que Quer” e “Salvador, Não Me Abandone”.

O momento de maior relaxamento da cantora, desde que nos encontramos, é quando estamos em Kansas City. O jeito de pronunciar as palavras do meio-oeste retorna à fala dela conforme grita, canta e abraça primos e tios, sendo que muitos deles ela só consegue ver nas festas de fim de ano ou quando uma turnê a leva para a região. Em certo momento, sobe no colo da mãe enquanto as duas observam um pôster caseiro cheio de fotos de infância em tom de sépia. “Ela era um bebê adorável”, se derrete a tia Fats.

Todos os integrantes da família compartilham versões diferentes da mesma história: ela nasceu para ser uma estrela e deixou isso bem claro assim que começou a desenvolver os primeiros vestígios de habilidades motoras. Teve a vez que ela foi convidada a se retirar da igreja porque estava insistindo em cantar “Beat It”, do Michael Jackson, no meio do sermão. Também teve a história de ela ganhando uma competição para jovens talentos três anos seguidos com uma cover de “The Miseducation of Lauryn Hill”. Era a estrela dos musicais da escola, a não ser quando teve a produção de The Wiz, já no último ano do ensino médio, em que ela perdeu o papel de Dorothy porque teve que sair mais cedo do teste para buscar a mãe no trabalho. Ela ainda não superou totalmente o fato de não ter tido essa chance de encarnar a protagonista. Mas Janelle logo passou em um teste maior, na Academia Americana Musical e Dramática. Então, foi para Nova York, onde estudou teatro musical e dividiu um apartamento pequeno com uma prima. Ela não tinha sequer uma cama que fosse só dela. Quando não estava estudando, estava trabalhando.

Enquanto isso, uma amiga de longa data estava vivendo a experiência universitária que Janelle desejava, em Atlanta; então ela se mudou para lá. De ali em diante, a história de como se criou o mito Janelle Monáe começou a tomar forma: ela era uma cantora afro-americana de neo-soul tocando violão nas ruas perto da faculdade e trabalhando em uma loja de produtos para escritório – da qual foi demitida por ter usado um computador da empresa para responder ao e-mail de um fã. O caso serviu de inspiração para a música “Lettin’ Go”, uma faixa que chamou atenção de Big Boi. Ele a colocou para participar do disco do Outkast Idlewild e a apresentou a Sean Combs. “Vou ser honesto com você”, diz o pai dela ao se lembrar de quando recebeu o convite para um show dela em Atlanta onde Combs supostamente estaria, “fiquei tipo ‘tá bom, então’. Não acreditei que o Puff Daddy iria mesmo”.

Deixando de lado o ceticismo, Michael Robinson ficou muito orgulhoso com o convite. Tinha acabado de ficar sóbrio e estava tentando reparar o relacionamento que tinha com a filha. Ele passou boa parte da infância de Janelle ouvindo falar sobre o imenso talento que ela tinha, os parentes mais presentes não paravam de comentar. Sentiu-se honrado de ver que a relação dele com ela tinha caminhado bem a ponto de a jovem querer que ele estivesse presente em um show tão importante. Mas ainda não estava crendo que Puffy estaria presente.

“Fui com meus dois primos e ela disse: ‘Pai, todo mundo vai saber que você não é daqui. Está usando calça jeans com vinco’.” Tirando a gafe de moda – ele jura que não usou mais vinco no jeans desde então –, Robinson teve a mais agradável das surpresas quando um dos primos avistou Combs e Big Boi no fundo da plateia. Era o começo da nova vida da filha dele, e ele chegou bem a tempo para conseguir acompanhar a jornada. “Lembro-me de pensar que isso sim que era sucesso”, elogia. “Eles tinham muitas câmeras, todas as luzes. Era tudo para a Janelle.”

O escritório da Wondaland Arts Society passa a sensação de uma síntese utópica das vidas passadas de Janelle em Kansas City e Manhattan. Ele é discreto, fica camuflado no meio de uma área residencial de Atlanta e parece ser uma casa qualquer do bairro, com dois andares e fachada de tijolos expostos. O lado de dentro é mais ostentoso, com relógios vintage cobrindo o saguão, sofás brancos impecáveis espalhados pelos ambientes e livros e discos em todos os cantos. Há um certo mimetismo da acessibilidade constante, o senso de proximidade que tinha na infância em Kansas City, com todos os artistas entrando e saindo das salas, compartilhando espaços comuns todos os dias enquanto trabalham em gravações, ensaiam para shows e apresentam o produto final para o resto do coletivo.

Em certo momento, o cantor e rapper Jidenna dá as caras, recém-chegado de uma viagem à África – todo mundo faz piadinha sobre o fato de que ele voltou todo malhado. Ao mesmo tempo, Chuck Lightning, que parece ser a metade mais extrovertida do duo de funk Deep Cotton, que faz a própria música e também trabalha com Janelle, pega uma tigela de quinoa na cozinha enquanto a chefe toma decisões a respeito de qual versão do vídeo de “Pynk” será lançada (eles acabam optando por uma em que não há a declamação de um poema romântico).

Janelle gravou a maior parte de Dirty Computer aqui, em um estúdio pequeno, com decoração inspirada na cidade de Havana, a capital cubana. Os convidados e colaboradores foram de uma gama variada, incluindo gente como Grimes e Brian Wilson, dos Beach Boys, que fez parte das harmonias da faixa-título. O encarte do disco cita versos da Bíblia e trechos de uma entrevista recente de Quincy Jones; do filme Pantera Negra (dirigido por Ryan Coogler); e do livro The Great Cosmic Mother (da escritora sueca Monica SJöö). Mas ela se inspirou especialmente em outra coisa. Janelle Monáe era muito amiga de Prince, que deu pessoalmente sua bênção ao tom exagerado do disco cheio de sintetizadores. “Quando Prince ouviu esse caminho, em especial, ele disse: ‘É isso que vocês todos precisam fazer agora’”, relembra Lightning. “Ele escolheu esse como o som que tinha algum impacto nele.” Prince fazia recomendações bastante específicas no que diz respeito à música e aos equipamentos da era na qual eles estavam buscando elementos. “A coisa mais poderosa que ele poderia fazer foi nos dar os pincéis para que pudéssemos pintar”, completa Lightning.

Houve rumores de que Prince coescreveu o single “Make Me Feel”, que tem um riff de guitarra q eu lembra muito “Kiss”. “Ele não escreveu essa música”, enfatiza Janelle, que sentiu muito a falta dos conselhos dele durante o processo de produção. “Foi bem difícil compor esse disco sem tê-lo por perto.” Prince foi a primeira pessoa a receber uma cópia física de The ArchAndroid – ela deu o CD a ele acompanhado de uma flor e com os títulos escritos a mão. “Conforme íamos colocando as músicas no papel, eu pensava: ‘O que Prince acharia disso?’ E eu não podia ligar para ele. É uma coisa difícil perder o seu mentor no meio de uma jornada da qual ele fazia parte.”

Stevie Wonder é outro que se declarou fã dela desde o início. Uma conversa entre eles – que Wonder insistiu em gravar – aparece como um interlúdio em Dirty Computer. Anos atrás, teve um momento em que a amizade cada vez mais forte entre ela e essas duas lendas chegou a um ponto de colisão. Ela teve que escolher entre tocar com Prince no Madison Square Garden, em Nova York, ou com Wonder, em Los Angeles. Prince a encorajou a optar por Stevie.

Na noite da eleição presidencial, em 2016, Janelle Monáe se viu entrando em contato com uma emoção desconhecida. “Pela primeira vez, senti medo.” De um dia para outro, ela foi de alguém que morava em um país governado por um presidente que amava a música dela (e que pediu a ela que se apresentasse no gramado da Casa Branca) para alguém em um país em que havia a sensação de que o direito dela de existir estava ameaçado. “Achava que ia acordar um dia e as pessoas iam se sentir no direito de simplesmente me matar agora.”

Naquela altura, Janelle já era uma ativista dedicada. Em 2015, ao lado de integrantes da Wondaland, ela criou “Hell You Talmbout”, que exige que a gente diga o nome de norte-americanos negros que foram vítimas de violência racial e brutalidade policial. Antes do #MeToo e do Time’s Up, ela criou uma organização, a Fem the Future, que nasceu a partir da frustração que sentia diante das oportunidades para mulheres na indústria da música. Foi chamada para uma performance na Marcha das Mulheres, em 2017, e para falar sobre o Time’s Up quando chamou Kesha ao palco na cerimônia do Grammy. “Viemos em paz, mas estamos falando sério”, declarou para uma plateia satisfeita e barulhenta.

Isso resume a maneira de a cantora pensar durante a era Trump. O que ela espera não é poder destruir os opressores, mas sim mudar a forma como a cabeça deles funciona. “As conversas talvez não aconteçam com as pessoas que estão em posições de poder, mas elas podem acontecer por meio de um filme ou por meio de uma canção, em um álbum, um discurso na TV. A maior parte deles talvez simplesmente desligue a TV, mas…”

Ela está em um hotel em Nova York agora, e faltam duas semanas para o disco ser lançado. “Tem alguma ansiedade, sim, mas estou me sentindo corajosa”, ela diz, alternando entre uma dureza típica e uma certa insegurança vulnerável. Hoje não veremos nenhuma lágrima. “Meus heróis musicais não fizeram todos aqueles sacrifícios para eu viver com medo.” O ativismo dela não é o foco de Dirty Computer, mas ele está lá, pairando sobre cada nota. Ela encerrou os ensaios com a banda em Atlanta pedindo aos músicos que refletissem acerca de o quão norte-americano é esse álbum. A América de Janelle é a que está nas fronteiras. Ela aceita os forasteiros e os computadores com vírus, como aqueles que ela achou que tinha.

Ela entende o significado de agora tornar sua vida pessoal algo maior e mais sonoro dentro de sua arte, e cita um de seus filmes como um exemplo de como pode usar a própria história para atrair os ouvintes mais conservadores. “Quando eu fiz Estrelas Além do Tempo, uns homens brancos republicanos ficaram tuitando sobre isso e sobre como simplesmente se sentiram mal. Dava para sentir nos posts que ficaram pensando: ‘Essas mulheres negras realmente nos ajudaram a chegar ao espaço. Como pudemos tratá-las desse jeito?’”

Enquanto isso, ela está novamente prevendo perguntas vindas de sua família lá no Kansas. Aparenta estar mais preocupada com isso do que com o que qualquer outra pessoa poderia dizer. Ainda assim, Dirty Computer foi feito para ser uma celebração, e, se isso quer dizer que ela pode perder gente pelo caminho, parece estar disposta a correr esse risco.

“Eu espero que as pessoas sejam vistas e ouvidas por meio das minhas experiências”, ela fala, sentada à escrivaninha de um hotel e (quase) toda produzida – jaqueta grandona preta e vermelha, calças vermelhas combinando e um par de chinelinhos de hotel –, após um dia fazendo fotos promocionais. “Pode ser que cometa alguns erros, talvez eu tenha que ir aprendendo conforme vou fazendo, mas estou aberta a encarar essa jornada.” Ela suspira, com a voz confiante e olhando fixamente. “Eu preciso passar por isso. Nós precisamos passar por isso. Juntos. Vou fazer com que você sinta empatia por esses computadores infectados no mundo todo.”