Edição 143 - Julho de 2018

Exclusivo: Em Sharp Objects, estrelada Amy Adams, diretor de Big Little Lies adapta livro da autora de Garota Exemplar

"Ouvia dos editores que nem homens nem mulheres iriam querer ler sobre mulheres que não têm uma 'jornada de herói'. Graças a Deus, conseguimos provar que estavam errados", diz a autora, Gillian Flynn
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por Stella Rodrigues

Os problemas enfrentados pela repórter vivida por Amy Adams em Sharp Objects não poderiam estar mais distantes daqueles encarados pela jornalista do Planeta Diário Louis Lane, a quem Amy deu vida em O Homem de Aço (2013), Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016) e Liga da Justiça (2017). Louis pode ter uma vida complicada, mas Camille Preaker (Amy), protagonista da nova série da HBO, que estreia em 8 de julho, é a personagem principal mais sombria e perturbada criada na mente de Gillian Flynn, autora do livro que deu origem à minissérie de oito capítulos – isso porque nessa disputa está inclusa a ardilosa e complexa Amy Dunne, de Garota Exemplar. Camille mal saiu de um período de tratamento em uma clínica psiquiátrica e precisa voltar para a Wind Gap, Missouri, onde nasceu e cresceu, para investigar a possível presença de um serial killer matando meninas na região. Mais difícil que o trabalho de reportagem é lidar com a família, especialmente com a mãe supercontroladora, Adora (Patricia Clarkson), e com a meio-irmã adolescente, Amma (Eliza Scanlon), isso sem falar do fantasma da irmãzinha que perdeu na infância, Marian. Seguindo a melhor tradição de histórias de assassinatos brutais em cidades pequenas com cotidiano sonolento, a trama desvenda uma miríade de segredos impensáveis, guardados pelos supostos cidadãos de bem mais acima de qualquer suspeita que se pode imaginar.

Uma faceta definidora da personagem principal é que ela passou anos descarregando suas questões emocionais na própria pele, escrevendo palavras pelo corpo com os objetos cortantes do título do livro/minissérie. Para Amy, esse fator foi o que mais causou dificuldade em todo o processo de dar vida à Camille. “Todos os dias eu tinha que ficar quase nua na frente da equipe de maquiagem, o que não é algo que vem naturalmente para mim. Não diria que me senti bem com o desafio, mas eu acredito em sair do conforto como forma de crescimento”, diz a atriz durante um evento para a imprensa em Los Angeles. Outra característica marcante da protagonista é o alcoolismo, algo que Amy levou para a tela com precisão, sem exageros cênicos poucos convincentes. “Ela é o tipo de alcoólatra que bebe para ficar estável. Está sempre em um estado de ressaca, não em um estado bêbado, é uma questão de manutenção para ela”, analisa. “Eu fiquei muito preocupada e não gostei de fazer as cenas em que ela bebe dirigindo, odeio isso. Sou supercontra. Mas é interessante interpretar alguém que tem valores e normas diferentes das minhas.”

“A parte do alcoolismo eu não tive que pesquisar tão profundamente, infelizmente”, ri sem jeito Gillian Flynn. A autora não tem medo de expor quais dos próprios demônios emprestou às suas protagonistas, nem mesmo de levá-los à tela e vê-los encarnados bem diante dos olhos (Gillian se encarregou de adaptar o livro no roteiro). A porção sulista da obra, que é outra característica forte da narrativa, também veio naturalmente para a ex-jornalista de entretenimento que costumava passar as noites e os fins de semana investindo na carreira de escritora. Gillian é do Missouri, estado que não fica no extremo sul norte-americano, mas é bastante carregado de características sociais tidas como típicas da região. Os ricos, a maior parte deles vindos de famílias tradicionais e, no passado, escravocratas, devem se comportar com perfeição publicamente, mesmo que dentro de casa as coisas sejam bem diferentes – e geralmente elas são, pelo menos na ficção.

“Eu estava procurando uma versão feminina de um personagem que vi muito na literatura, mas encarnado por homens”, conta ela sobre como iniciou seu primeiro romance. “Queria ver como seriam a violência, a raiva, a autodestruição e a agressão que são passadas adiante de geração para geração em um ambiente de mulheres. Quando você tem um homem nesse papel, isso se chama ‘a grande tradição da literatura norte-americana’”, ri, “mas com mulheres eu nunca tinha visto isso, então quis eu mesma escrever. Na época, os editores não tinham nenhum interesse. Eu ouvia que os homens não iriam querer ler sobre mulheres, especialmente esse tipo de mulher. E as mulheres não leriam sobre mulheres que não têm uma ‘jornada do herói’, não são admiráveis e não têm um final feliz. Essa era uma época em que a literatura ‘mulherzinha’ estava com tudo: era a moça que vai às compras aqui, outra que escrevia diário ali. Meu livro não era um O Diário de Bridget Jones. Graças a Deus, desde então conseguimos provar que os editores estavam errados”.

Coube ao francês Jean-Marc Vallée levar para a telinha o livro de 2006 – em português, Objetos Cortantes, lançado pela editora Intrínseca em 2015. Vallée já era prata da casa da HBO, tendo transformado o romance da australiana Liane Moriarty no que viria a ser a premiada Big Little Lies. As semelhanças entre os dois livros são evidentes. Ambos têm sua dose de horror, mistério e drama familiar em um ambiente provinciano. E o trabalho do diretor em ambas as séries fez com que as versões televisivas tivessem algo a mais em comum: uma trilha sonora capaz de atrair qualquer fã de música, mesmo aqueles que a princípio não apresentam um interesse em televisão.

“L-e-d Zeppelin!” é a primeira coisa que Vallée diz ao entrar na sala para se encontrar com os jornalistas. “Eu sou um homem muito orgulhoso de poder dizer que temos muitas faixas dessa banda em Sharp Objects”, conta, afirmando que ninguém mais opina nas trilhas dele. “Faço tudo sozinho, é tipo meu filho. Sou o DJ, eu que escolho, eu que crio esse mundo sonoramente, é assim que gosto de fazer”, diz com muita simpatia e paixão. Essa paixão fica ainda mais evidente ao observarmos logo nos dois primeiros episódios (os únicos apresentados para a imprensa) que, na TV, Alan (Henry Czerny), marido de Adora, foi transformado em um audiófilo viciado em vinis – característica que passa longe do Alan apresentado no livro. Exceto pela parte musical, que teve que parir do zero, Vallée estava com a faca e o queijo na mão no que diz respeito a todo o resto: “Que jornada, que história tensa! Que garota e que mundo esses que a Gillian criou”.

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