Edição 62 - Novembro de 2011

O Mundo de Jô

Jô Soares diariamente invade as casas brasileiras, mas poucos o visitam em seu próprio lar. Em uma rara conversa em seu universo privado, o homem de mil talentos comprova por que há 50 anos é ícone obrigatório da cultura nacional
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por Paulo Cavalcanti

Encravado no centro de São Paulo, o bairro de Higienópolis às vezes se confunde com a bem mais popular Santa Cecília. Higienópolis é considerado um local habitado por gente tradicional e bem-sucedida. Suas ruas tortuosas e prédios antigos, mas bem conservados e espaçosos, são escondidos por jardins imensos de árvores frondosas. Em uma tarde pouco convidativa de sexta-feira, com chuva intermitente, temperatura baixa e de trânsito ruim, um desses prédios ancestrais é o local a ser visitado. Dentre os intelectuais, acadêmicos e artistas que habitam a região, poucos são tão notáveis quanto Jô Soares.

Aos 73 anos, o carioca José Eugênio Soares é um dos pilares do show business brasileiro. Em mais de 50 anos, deixou sua marca na televisão, na literatura, no palco e nas artes plásticas. A vida e a trajetória de Jô nunca foram convencionais e, naturalmente, isso é refletido no local onde ele reside. Na verdade, o apresentador possui dois andares em seu prédio: em um, está o apartamento de cerca de 600 metros quadrados onde efetivamente mora; no andar de baixo, encontra-se o Espaço Cultural Jô Soares, um local gigantesco e sem paredes, nada prosaico, simultaneamente exótico e confortável – uma mistura de museu, biblioteca, sala de reuniões e parque de diversões. É um ambiente incomum e que reflete e personalidade de Jô, suas idiossincrasias, interesses, conquistas e gostos pessoais. Espalhados pelas paredes imaculadamente brancas estão quadros pintados pelo próprio Jô e reproduções dos pôsteres de espetáculos antigos, desenhados por Ziraldo. Há espaço para uma variedade de miniaturas, um piano de cauda, uma jukebox Wurlitzer, uma máquina de refrigerantes antiga e uma réplica de quase 2 metros do Super-Homem, que encara a todos de forma magnânima. O inventário vai longe: uma vasta biblioteca, uma lareira, mesa de reuniões, um telão, sofás e poltronas; pendurados no teto, um helicóptero de brinquedo, um globo terrestre e um estroboscópio; e, na sala anexa, um estúdio musical, com instrumentos montados e prontos para uso (é ali que Jô ensaia com seu sexteto antes de eventuais shows). Mas nenhum item chama tanto a atenção no local quanto o tubo cilíndrico transparente que se estende do chão ao teto, semelhante ao sistema de teletransporte do seriado Jornada nas Estrelas. Aquele é, na verdade, o meio de transporte que o dono da casa utiliza para se locomover rapidamente do andar superior para o de baixo. E é exatamente dali que ele surge, inconfundível, de paletó estampado, suéter, calça jeans, sapatos marrons polidos e chapéu. No rosto, um par de óculos colorido; pendurada no pescoço, uma lente de aumento.

Vídeo: veja o making of da sessão de fotos com Jô Soares.

“O elevador é a vácuo”, Jô explica. “Fiquei sabendo de uma senhora que tinha um no interior de São Paulo, e em cinco dias ele estava entregue.” Mesmo com tantas distrações em sua residência, ele continua um workaholic em tempo integral. Por três dias da semana, se ocupa da gravação do Programa do Jô, exibido na Rede Globo há mais de dez anos. No momento, dirige a peça O Libertino (“Foi todinha ensaiada aqui”, explica), em cartaz em São Paulo. E acabou de lançar o livro As Esganadas (Companhia das Letras), que segue a linha romance policial-histórico-humorístico de seus outros livros – O Xangô de Baker Street (1995), O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) e Os Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005). “O pessoal da Companhia pensa que As Esganadas tem o potencial do Xangô – alguns acham que é melhor até do que o Xangô”, Jô comemora. É no contato ao vivo que se comprova o modo como ele utiliza o charme imediato, a vasta cultura geral e o senso de humor sempre em ponto de bala, sem contar a memória inacreditável, que resgata fatos e detalhes de décadas atrás ao estalar dos dedos. Conversar com Jô Soares é realizar uma viagem no tempo pelos fatos mais relevantes da cultura brasileira nas últimas cinco décadas.

Todas as suas biografias apontam que você queria ser diplomata. Como seria?
Seria um diplomata engraçado, no mínimo. Eu fui estudar na Europa e então minha família perdeu tudo. Papai ficou sem onde morar, foi morar num apartamento emprestado da irmã. Nessa época, eu voltei depois de ter prestado exame para as Universidades de Oxford e Cambridge, mas não pude porque não dava mais, tinha que voltar. Os negócios do papai já estavam à beira de fechar mesmo. Nos mudamos pra Copacabana. O meu pai e a minha mãe foram morar num apartamento emprestado pela irmã do papai e eu fui morar num quarto alugado na Prado Junior, que era a rua da boca, onde morava o Clovis Bornay, enfim, era a zorra. Aparecia o Daniel Filho, ninguém ia à praia, todo mundo era muito branco e íamos tomar a sopa da madrugada. Eu achava que minha formação poderia ser bem aproveitada na diplomacia. Comecei a estudar para fazer o Colégio Rio Branco. Meu pai não era diplomata.

Ao contrário do que normalmente é publicado...
Não, o papai era corretor da Bolsa. Eu não fiz o exame porque comecei a circular no meio de gente de teatro e acabei conhecendo a Teresa Austregésilo, a minha primeira mulher. Desde os 14 anos que eu brincava com o negócio de calçar os sapatinhos no dedo da mão e dançar, imitar, fazer sátira de filme americano. E eu fazia isso à noite, nos lugares frequentados pelos artistas. Um foi me levando ao outro. O [apresentador] Silveira Sampaio, na piscina do Copacabana Palace, um dia me falou: “O que você vai ser?” Eu disse: “Estou estudando para entrar no Itamaraty”. E ele retrucou: “Você pode fazer o que quiser – vai acabar mesmo é no palco, no teatro, na televisão, fazendo show, essa é que é a sua”.

O humor passa por um momento de renovação no Brasil. Mas muitos reclamam de certa grosseria. Como você vê isto?
Eu acho que tem a renovação e tem grossura. Agora, grossura sempre houve. Mas o conceito do que é grossura muda diariamente, como o mau gosto e o bom gosto. Qual é o critério? O que é de mau gosto hoje era de bom gosto há 100 anos. Há 200 anos, era chique comer com a mão e enxugar na roupa. Na corte de Catarina de Médici, o chique era isso. Então, não tem como se estabelecer esse tipo de critério. Quanto à sátira ou paródia, eu acho que não se pode proibir. Nada pior do que a proibição, porque quem tem que fazer a escolha não é a censura – é quem está assistindo. Eu acho, por exemplo, o menino que faz o Jô Suado [Márvio Lúcio, o Carioca do Pânico na TV]... Bem, eu acho ele magnífico! Inclusive, quando fui homenageado na Risadaria, ele veio me perguntar se poderia fazer a imitação. Você não pode é perguntar se podia fazer. Claro que sim! Tem muita gente boa, como o Eduardo Sterblitch, que é um comediante espetacular, e vários outros que entrevistei. Ô, meu Deus, todos os que fizeram o meu programa de aniversário, como o Marcelo Adnet, o Bruno Mazzeo, todos são talentos maravilhosos.