Viagem ao lado obscuro

David Gilmour e Roger Waters revelam por que a frágil colaboração por trás de The Dark Side of the Moon, a obra-prima do Pink Floyd, estava fadada a se desmanchar

Humberto Finatti Publicado em 08/12/2011, às 10h59 - Atualizado em 01/03/2018, às 17h03

Pink Floyd

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Poderia ser uma música nova do Pink Floyd, se a banda ainda existisse como algo além de uma memória, mais do que uma parceria comercial apenas cordial. David Gilmour está sentado em cima de uma estante de equipamentos na sala de controle de sua casa-barco extravagante nos arredores de Londres, dedilhando uma progressão de acordes descendentes em um antigo violão Martin de 12 cordas, enquanto entoa uma canção melancólica e sem palavras. “Estou inventando isso agora”, ele diz e continua a tocar. Na parede atrás dele, o rio Tâmisa bate no casco sob o céu cinzento do outono prematuro.

“Há alguns anos”, Gilmour prossegue em seu sotaque britânico refinado, “eu estava fazendo a mesma coisa na sala de controle número 3 e saiu isto aqui.” E ele mostra a introdução inconfundível de “Wish You Were Here”, de 1975. “Isso foi composto e tocado neste violão – então, se sair alguma coisa, a gente tem que prestar atenção.”

“Wish You Were Here” é um caso raro no catálogo do Pink Floyd: uma colaboração indiscutível, cara a cara, entre Gilmour e Roger Waters – o baixista, letrista e força criativa do Pink Floyd durante o período de maior sucesso da banda. “Roger disse: ‘Tem algo aí, eu tive uma ideia’”, diz Gilmour, “e daí ele escreveu os versos e o refrão juntos – ele escreveu as palavras.”

Apesar de também dividirem o crédito em outro clássico do Pink Floyd, “Comfortably Numb”, entre outras faixas, Gilmour e Waters nunca formaram nada que chegasse perto de uma dupla de composição consistente, ao estilo de Lennon e McCartney. Como Waters declarou à Rolling Stone em 1987, após a sua rancorosa saída da banda: “Nós nunca conseguimos chegar a uma visão comum da dinâmica que existia dentro da banda, de quem fazia o que e se estava certo ou não”. Até hoje essas questões permanecem à tona e até hoje ninguém chegou a um acordo.

Mas atualmente as relações são civilizadas o bastante para Gilmour, Waters e o outro integrante sobrevivente, o baterista Nick Mason, terem chegado a um acordo que pode representar sua última reunião de forças conjuntas: o projeto do relançamento de todo o catálogo do Pink Floyd. Todos os álbuns de estúdio foram remasterizados, e os três que fizeram mais sucesso – The Wall, de 1979, Wish You Were Here, de 1975, e a obra-prima The Dark Side of the Moon, de 1973, que vendeu 40 milhões de cópias – estão recebendo o tratamento de caixas de luxo, com sobras de estúdio que estavam perdidas há muito tempo, gravações ao vivo e vídeos. “Nós estamos fugindo daquela coisa de ser seletivos em excesso”, conta Gilmour, “para não deixar de lançar qualquer coisa que seja considerada abaixo do padrão. Tudo que existe vai sair, de um jeito ou de outro”.


Para comemorar os relançamentos – que se iniciaram com a caixa de The Dark Side of the Moon, Gilmour, Mason e Waters concordaram em conversar com a Rolling Stone separadamente. “É o mais perto que vamos chegar do Live 8”, Mason solta, referindo-se ao show beneficente de 2005 que foi a última apresentação com a banda completa, incluindo o tecladista Richard Wright, que morreu em 2008. Waters e Gilmour também fizeram um set acústico juntos para um evento beneficente para crianças palestinas no ano passado, e isso levou à aparição de Gilmour em uma das apresentações em Londres da turnê The Wall, de Waters, em que Mason batucou em um pandeiro. Em ambas as reuniões, os integrantes até chegaram a trocar abraços.

Gilmour coloca o violão de volta em um suporte com mais meia dúzia de outros, tira seu corpo de 65 anos do poleiro sobre o equipamento e se acomoda em uma cadeira ergonômica ao lado da mesa de som do estúdio. Ele está vestido com seu uniforme para qualquer ocasião – paletó esporte preto, camiseta preta de aparência cara e jeans preto, completado por um par de sapatos de camurça. Apesar de não estar exatamente animado, ele está pronto para passar um tempinho falando sobre The Dark Side of the Moon e o Pink Floyd. “É difícil voltar a mergulhar em vidas paralelas de tanto tempo atrás”, ele diz. “Há partes delas que a gente não se sente muito à vontade de lembrar.”

Waters considera The Dark Side of the Moon como “uma espécie de perfeição”, e ele tem razão: houve acidentes fortuitos em sua confecção – o virtuosismo improvisado da vocalista Clare Torry uivando em “The Great Gig in the Sky”, a fita já gravada do engenheiro de som Alan Parsons de uma loja cheia de relógios de pêndulo batendo – mas The Dark Side of the Moon tem uma perfeição detalhista que é incomum para álbuns de rock. Talvez seja o artefato máximo da era pré-shuffle: um álbum que flui como se fosse uma música só. A banda queria que você escutasse a música com atenção, quem sabe no escuro, que seria o ideal, em um estado alterado. “O grau de atenção, de concentração mudou”, diz Gilmour. “A ideia de ir à casa ou ao apartamento de alguém e se acomodar em uma sala confortável com um sistema de som de impecável qualidade para escutar um disco inteiro, do começo ao fim, e depois conversar durante alguns minutos, e quem sabe colocar um outro álbum para tocar... por acaso isso ainda acontece hoje?”

Sua continuidade sem emendas está mais alinhada com o segundo lado de Abbey Road dos Beatles do que com qualquer coisa que os progressivos contemporâneos do Pink Floyd tenham feito. “Nós achávamos que os Beatles eram bons demais para tentar competir com eles”, diz Waters. “Sgt. Pepper foi outro álbum perfeito – talvez tenha servido de incentivo, por eles terem elevado tanto o padrão.” Em Dark Side, a banda gravou todas as dez faixas no mesmo rolo de fita master de 16 canais, uma abordagem altamente fora do comum. “A maneira como uma faixa fluía para a outra era uma parte importante da sensação geral”, diz Parsons, que construiu sua reputação a partir desse álbum.

Por todo seu trabalho manual e concentração, Dark Side foi o trabalho de um grupo que estava à deriva apenas quatro anos antes, depois de perder o pivô de sua música. O líder Syd Barrett tinha sido tudo para o Pink Floyd: o rosto bonito, o compositor, o vocalista, o guitarrista principal. Sob a liderança de Barrett, a banda foi alçada de um monte de estudantes de classe média criados em Cambridge com tendências artísticas a heróis do underground londrino. As músicas extravagantes e bem britânicas que povoam o álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967), iriam explodir em improvisações interestelares e lisérgicas.

O uso quase diário de LSD por Barrett e um provável distúrbio mental subliminar o deixaram praticamente incapacitado no período em que o Pink Floyd foi gravar o segundo álbum: sua produção de composições desacelerou; ele passou pelo menos um show inteiro sem tocar sua guitarra; começou a se afastar da realidade. A banda recrutou outro garoto de Cambridge, David Gilmour, vocalista poderoso e guitarrista de blues de estilo mais convencional, como possível substituto – os dois coexistiram na banda por cerca de seis semanas.

Inspirado pelos Beach Boys, o Pink Floyd por um breve período pensou em promover um isolamento parecido com o de Brian Wilson para Barrett: talvez ele pudesse ficar em casa compondo músicas enquanto a banda saía em turnê com Gilmour. “Eu achei que seria ótimo manter aquele talento por perto, se algum dia ele retornasse do lugar qualquer em que estava”, diz Waters. Mas logo ficou claro que Barrett não seria capaz de lidar nem com isso. “Syd, de fato, nunca soube como trabalhar”, diz Storm Thorgerson, designer artístico da banda e amigo próximo de Barrett. “Tudo vinha com muita naturalidade para ele. E o problema era que, quando isso acabou, ele não tinha nada que usar para substituir. Ele se consumiu como um cometa – ele era uma belezura, mas daí desapareceu.”

Os empresários do Pink Floyd tinham certeza de que “Syd era a única coisa de valor na banda”, diz Waters. Por isso, eles largaram o Pink Floyd. “Acho que o meu sentimento na época foi o seguinte: ‘Pode ser que vocês tenham razão, só o tempo vai dizer’”, prossegue. Mas, com a ausência de Barrett, os integrantes se recompuseram. “Acho que nós todos ficamos bem pragmáticos depois que Syd foi embora”, Waters completa. “Nós estávamos absolutamente determinados a não ter que voltar a trabalhar. A não ter que arrumar um emprego propriamente dito. E, para não ter que arrumar um emprego propriamente dito, você precisa trabalhar nesse sentido. Você precisa fazer tudo que for possível para continuar seguindo em frente.”

Os álbuns pós-Syd e pré-Dark Side são absolutamente desordenados: o Pink Floyd se esforçava para encontrar uma nova voz. Permitiram que o tecladista Wright assumisse 13 minutos e meio de Ummagumma (1969), com uma composição de título digno do Spinal Tap, “Sysyphus, Parts 1-4”; tentaram fazer peças ambiciosas, apesar de não completamente bem-sucedidas, como “Atom Heart Mother”, com assistência de coral e orquestra, e a ousada “Alan’s Psychedelic Breakfast”, que combina instrumentais pastorais com os sons reais de um roadie preparando sua refeição matutina; deixaram-se levar por coisas absolutamente descartáveis, como “Seamus”, essencialmente um dueto de blues entre Gilmour e um cachorro que uivava.

“Nós éramos bem corajosos e colocaríamos em um disco qualquer coisa que nos divertisse”, diz Gilmour. “Mas, em alguns daqueles momentos, nós só estávamos tentando retomar o equilíbrio e não tínhamos muito claro o que era necessário para avançar, e pode ser que a inspiração fosse um pouco tênue em certas ocasiões. Sair daquele momento ‘Alan’s Psychedelic Break fast’ – que era maravilhoso a seu modo, mas que na verdade nunca tive vontade de ouvir – para algo mais concreto e sólido, como ‘Echoes’, foi muito mais gratificante.” A canção “Echoes”, de 1971, foi a música longa do Pink Floyd de maior sucesso antes de Dark Side, uma faixa de 23 minutos que funciona do começo ao fim. Waters completa: “‘Echoes’ foi o precursor mais próximo em termos de construção e musicalidade das coisas de Dark Side. A outra coisa que eu destacaria é a faixa ‘A Saucerful of Secrets’, que, no sentido musical, era semelhante. Tinha diversos movimentos, tinha uma parte rápida e uma parte lenta. Mas Dark Side foi o primeiro disco verdadeiramente temático”.

Gradualmente, ficou claro que Waters, alto, agressivo e cínico, era o novo líder do Pink Floyd. “Não é questão de escolha, é o que acontece”, ele diz, adicionando sua identidade de porta-voz. “Se você já esteve em uma banda, [sabe que] alguém normalmente toma as rédeas e faz o que tem que fazer. É uma questão de executar o trabalho. E também as pessoas têm personalidades diferentes, claro, e às vezes alguém é a pessoa que tem bem mais probabilidade de dizer: ‘Por que nós não...’, seguido por algo que as pessoas pensam ser uma boa ideia e querem fazer e depois seguir. Então, quer queira, quer não, há líderes e seguidores.”

Todos concordam que o conceito de Dark Side se desenvolveu em um encontro na casa de Mason em 1971, apesar de alguns detalhes serem obscuros. Waters se lembra de ter dado a ideia de escrever um conjunto coeso de canções sobre as pressões da vida; Mason acha que a ideia se desenvolveu de maneira coletiva. De qualquer modo, Waters fez anotações enquanto os outros integrantes do Pink Floyd desenvolviam tópicos para as letras do álbum, centradas em torno de fontes de estresse. Eles reuniram um compêndio de assuntos desanimadores: mortalidade, viagens, dinheiro, loucura. Foi o primeiro álbum de Waters como o único letrista, e a função passou a ser dele a partir de então. “Eu nunca me considerei muito bom no departamento das letras”, diz Gilmour, “e Roger queria fazer aquilo. Acho que foi uma sensação de alívio. Ao mesmo tempo, o fato de ele ser o letrista e mais uma força motora nunca significou que ele tinha que estar a cargo da direção musical das coisas. Então, nós sempre tivemos tensão nessa área.”

Em uma dinâmica estranha e insustentável que viria a significar problemas para o Pink Floyd, o papel de Gilmour como principal vocalista e guitarrista o transformou no performer dominante de Dark Side, apesar de suas contribuições como compositor terem sido relativamente mínimas. Em vez disso, Wright se apresentou para o serviço e compôs música elegíaca, rica do ponto de vista harmônico, para “The Great Gig in the Sky” e “Us and Them”. “Essa sempre foi a briga entre mim e Roger”, diz Gilmour. “Então, Rick acabou sendo um pouco esquecido. Ele não recebeu exatamente o crédito que deveria ter.”

O vocal mais idiossincrático de Waters viria a dominar os álbuns seguintes do Pink Floyd, mas, em Dark Side, ele só canta nas duas últimas músicas – “Brain Damage”e “Eclipse”. “Eu me lembro de terem feito de tudo para que eu não me sentisse à vontade”, Waters diz e dá risada. “A minha lembrança é de David e Rick se esforçando para observar que eu não sabia cantar e era desafinado, e ainda tem aquele papo-furado de que Rick teve que afinar o meu baixo. Basta olhar para o corpo da obra para perceber que esse não é o caso”, Waters prossegue. “Talvez o jeito que eles tinham para impedir que eu tomasse conta de absolutamente tudo era dizer que eu tivesse inadequações vocais e instrumentais. E não estou dizendo que algum dia eu fui um ótimo cantor com ótima afinação. Eu compensava cantando com sentimento e caráter.”

Eles começaram a apresentar as primeiras versões ao vivo de Dark Side em 1972, e desde o começo já haviam praticamente dominado a obra. A diferença mais radical era a ausência da loucura eletrônica de “On the Run” – em seu lugar, estava “The Travel Sequence”, faixa mais com jeito de jam e conduzida pela guitarra (e a versão de estúdio está incluída na caixa). Mas, assim que Gilmour e Waters colocaram as mãos no novo sintetizador EMS Synthi A, eliminaram “Travel Sequence”. “Havia possibilidades infinitas para aquele aparelhinho”, diz Gilmour. “Nós sempre nos considerávamos um pouco eletrônicos. Eu sempre fui obcecado em encontrar sons que transformariam algo em 3D. E sempre quis ser capaz de fazer coisas que parecem estar lá, a 100 metros de distância, indo para mais longe ainda.”

Tirando a pegada genuína de “Money” e “Time”, Dark Side pode ser considerado menos visceral e mais cerebral, cheio de texturas flutuantes e andamentos de arrepiar. Mas a guitarra incandescente de Gilmour é um elo constante de volta ao rock pesado. “Sabe, depois que você faz aquele solo de guitarra tão alto no palco, quando dá pra se inclinar para trás de um jeito que o volume o impede de cair... é uma droga difícil de largar”, ele afirma.

Faltava um desfecho a Dark Side, até que Waters apareceu com “Eclipse”, uma faixa curta, mas com força imensa, que é construída como uma oração de sermão: os dois primeiros versos ecoam a letra de “Breathe in the Air”, no início do álbum: “All that you touch / All that you see” (Tudo que você toca / Tudo que você vê), Waters canta enquanto a música vai crescendo atrás dele. “Eu lembro de me esforçar para que ela ganhasse corpo com harmonias que iam se somando à medida que a canção avança”, diz Gilmour. “Porque ela não tem nada... não tem refrão, é só uma lista direta. Então, a cada quatro versos, fazemos alguma coisa diferente.”

O último passo era a capa do álbum. Thorgerson preparou diversos esboços, incluindo um que era um tratamento fotográfico do super-herói Surfista Prateado em uma praia. A banda toda escolheu de cara a imagem de um prisma saindo de um triângulo (que simbolizava “pensamento e ambição”, de acordo com Thorgerson), em parte um tributo ao seu espetáculo de luzes. Em um gesto de extravagância que os orçamentos de discos de hoje não permitiriam, o Pink Floyd então enviou Thorgerson para o Egito exclusivamente para fazer fotos das pirâmides para a arte interna do álbum.

“Money, It’s a hit” (o dinheiro é um barato), Gilmour cantou, e foi assim, junto com tudo que a banda fez nos oito anos que se seguiram. “Money” chegou ao Top 20 nos Estados Unidos, Dark Side começou sua estadia de 741 semanas na parada e o Pink Floyd se transformou em banda de arena. Waters, que tinha sido um socialista dedicado, viu um certo cinismo se infiltrar no cerne da banda.

O Pink Floyd já estava tentando trabalhar em canções para uma sequência de Dark Side em 1974 e seus integrantes começaram a ter as piores discussões da história da banda. “Olhando para trás, não devíamos ter entrado em estúdio tão cedo depois de Dark Side”, diz Mason. “Devíamos ter feito a turnê por mais um ano.”

Em 1979, o controle que Waters tinha sobre a banda era quase completo. Ele forçou a saída de Wright, cujas contribuições tinham secado na sequência de problemas pessoais. The Wall, de 1979, foi o bebê de Waters (apesar de Gilmour ter orgulho de suas contribuições), e o seco The Final Cut, de 1983, era um álbum solo de Waters em tudo, menos no nome. “Talvez a banda pudesse ter continuado se todo mundo tivesse decidido fazer tudo exatamente como Roger queria”, diz Mason. Em 1985, Waters saiu do Pink Floyd – e ficou estupefato quando Gilmour e Mason prosseguiram sem ele.

“Roger saiu em 85”, diz Gilmour. “Eu estava com quase 40 anos, e tinha entrado para o Pink Floyd quando estava com 21. Toda a minha vida adulta tinha sido trabalhando para construir este empreendimento artístico, esta banda, que basicamente tocava o tipo de música que eu adorava. Por que eu iria querer largar tudo de repente? Eu não queria. Com a saída de Roger, dá para discutir o que nós perdemos e como o que veio depois não se igualou em consistência com os nossos melhores momentos anteriores. Não sei. Esse é um tipo de área muito traiçoeiro de se discutir, mas o fato é que, para mim, nós prosseguimos, nós continuamos fazendo o que fazíamos. Fomos muito bem-sucedidos nisso e nos divertimos de uma maneira fantástica.”

O Pink Floyd, sob a liderança de Gilmour, gravou dois álbuns, A Momentary Lapse of Reason (1987) e The Division Bell (1994). Eles trucidaram comercialmente o trabalho solo de Waters. O baixista fazia shows com meia lotação; o Pink Floyd lotava estádios.

O novo Pink Floyd terminou sua última turnê em 1994. Sem fanfarra, Gilmour disse que tudo estava acabado. “Eu fui lançado mais ou menos à posição de líder único quando Roger saiu”, prossegue. “E eu tive que carregar esse fardo sozinho. E foi difícil, aquele primeiro álbum foi um aprendizado. Mas, sabe como é, há muito a se dizer sobre The Division Bell. E depois disso o peso estava ficando um pouco demais. E eu achei que podia começar alguma coisa solo.”

Gilmour lançou um álbum solo, On an Island, em 2006, e embarcou em uma turnê de shows em teatros que foi bem recebida pela crítica, com Wright ao seu lado. “Fazer aquilo em uma escala menor, sem a expectativa do rótulo do Pink Floyd, fazer qualquer coisa que eu quisesse e com qualquer músico que eu quisesse, foi uma alegria”, diz Gilmour. Mas seu afastamento do legado do Pink Floyd deixou um buraco que Waters ficou bem feliz de preencher.

Dois dias depois da entrevista na casa-barco de Gilmour, Waters está em seu próprio ambiente, mais sisudo, do outro lado do Atlântico – um escritório no 10º andar de um prédio comercial no centro de Manhattan. Aos 68 anos, Waters é esbelto, em forma e exala um tipo de energia selvagem. Isso não se deve apenas ao fato de ele estar de volta ao escritório pela primeira vez depois de um verão de férias: sua turnê The Wall foi a segunda que mais arrecadou dinheiro na América do Norte no ano passado, e ela só acabou de começar. “Na Europa, parecia estar ainda melhor do que aqui, e só fica melhor e melhor – nós vendemos 86 mil entradas ontem”, ele diz com um sorriso aberto, referindo-se a uma sequência de shows em Buenos Aires – em março de 2011, Waters deve fazer nove shows lá e também passa pelo Brasil. Então, como que para se sobrepor ao relançamento do catálogo de sua própria banda, ele faz questão de anunciar que sua turnê vai retornar aos Estados Unidos no ano que vem, com apresentações em estádios de beisebol. Waters também está trabalhando em uma versão filmada da turnê, um show da Broadway de The Wall planejado há muito tempo e múltiplas produções futuras de Ça Ira, sua ópera a respeito da Revolução Francesa.

Quando a turnê The Wall terminar, pode ser que Waters siga o exemplo de Gilmour e diminua o ritmo. “Não sei se eu quero sair e fazer um ‘greatest hits’ mais uma vez”, ele diz. “Eu gosto de fazer isso. Acho que, se fizer mais coisas no futuro, deve ser algo menor.” Waters estava ocupado com sua turnê quando os relançamentos foram organizados, e não quer saber de perguntas sobre detalhes. “Dave e Nick vão saber muito mais sobre o que está acontecendo do que eu”, ele diz. (“Eu mandei a caixa para ele faz um ano”, Thorgerson esclarece.)

Sentado diante de uma mesa de vidro imaculada no escritório com assoalho de madeira – onde é impossível não reparar em uma janela que se abre para uma parede de tijolos –, Waters se esforça muito para evitar ter que falar sobre os antigos companheiros de banda. Como ele me disse no ano passado: “Não quero ferir os sentimentos de ninguém, nunca mais”. Quando menciono que Gilmour alega que Waters raramente escrevia melodias vocais, ele parece mal-humorado por um segundo e então começa a falar a respeito de como não se pode confiar na memória. Ele faz, sim, questão de ressaltar a importância da colaboração. “Algo poderia ter acontecido sem Rick ou sem mim ou sem Dave”, ele diz, talvez deixando o nome de Mason de fora sem querer, “mas não teria sido o que de fato aconteceu”.

A verdade é que Gilmour e Waters nunca foram amigos especialmente próximos, e mal se conheciam até Gilmour entrar para a banda – apesar de Waters se lembrar de ter ficado deliciado quando ele chegou. “Ele é um cantor maravilhoso e um ótimo guitarrista”, ele diz. “E ele também é um cara legal. É divertido, gosta de dar risada e tudo o mais. Não foi uma coisa do tipo: ‘Ah, ele é um ótimo guitarrista e canta bonito, mas é um sujeito esquisito’. Ele é um cara legal, então foi perfeito.”

Olhando de fora, parece que as relações entre Gilmour e Waters estão bem fortes, tanto quanto já estiveram desde que Waters saiu da banda. “Seria de se pensar que sim, é”, Gilmour diz, apertando os lábios e ficando em silêncio por um momento. “Você pode dizer isso, mas, se eu hesito, é porque ela é quase inexistente. Eu toquei no show The Wall de Roger, há alguns meses, e nunca mais falei com ele ou tive notícias dele.” Meses antes, Waters e Gilmour tocaram “Wish You Were Here” e mais três músicas em um show beneficente acústico pró-palestina. Depois, não se comunicaram mais. “Não é uma relação antipática. Mas ela já não faz parte da nossa existência cotidiana”, diz Gilmour.

Quando Bob Geldof convenceu o Pink Floyd a se reunir para o Live 8 em 2005, eles começaram a discutir imediatamente. “No ensaio, as coisas ficaram tensas”, diz Gilmour. “Roger tinha preparado uma lista de músicas que ele queria tocar, que eu considerei totalmente inapropriada para um evento beneficente daquele tipo. Cantar ‘We don’t need no education’ [nós não precisamos de educação] simplesmente parecia não funcionar. Nós tivemos que lembrar a Roger, com gentileza, que ele era um convidado na nossa banda. Naquela ocasião, o Pink Floyd era uma coisa existente com Rick, Nick e eu, e Roger tinha voltado como convidado, e eu defini o set list que achava que nós deveríamos apresentar, que foi o que acabamos fazendo.”

“Depois disso, Roger passou muito tempo dizendo como ele tinha sido gentil de se apresentar para aquela ocasião única, mas que aquilo não voltaria a acontecer”, Gilmour prossegue. “E isso reforçou a minha visão: eu compreendo por que as outras pessoas querem que esse tipo de coisa [de reunião] aconteça, mas sou totalmente egoísta ao pensar que quero passar meus anos de declínio exatamente da maneira que eu quero. E isso não faz parte dos meus planos”, conclui.

No ano passado, Waters disse que era capaz de imaginar outra reunião beneficente, e ainda espera pela chance. Mas Gilmour não está interessado, apesar de ter gostado de participar como convidado da turnê The Wall, cantando “Comfortably Numb” mais uma vez, do alto do muro – uma apresentação para a qual ele se ofereceu em troca de Waters se juntar a ele para a apresentação beneficente. “Não quero muito comentar o show [The Wall], mas pensei: ‘Meu Deus, ele devia ter me chamado para alguns ensaios’”, Gilmour diz com um sorrisinho um pouco maldoso. “Teria feito ficar muito melhor. É provável que todos nós pensemos isso, mas ele foi ótimo, foi brilhante.” Gilmour completa dizendo que, enquanto assistia à performance de The Wall, pensava: “Meu Deus, eu fui brilhante fazendo isso. Roger foi brilhante fazendo isso. Tem muita coisa boa que nós fizemos juntos.”

“E a nossa noite no show beneficente foi ótima”, Gilmour completa. “Roger proibiu todas as câmeras e os equipamentos de gravação, mas eu levei a minha própria câmera e coloquei em cima de um amplificador no fundo e disse para um cara: ‘Só aperte aquele botão no começo e de novo no fim’. E, depois, eu disse a Roger que eu tinha filmado. Ele respondeu: ‘Ótimo! Fantástico!’ E eu não disse: ‘Bom, você não me permitiu colocar uma câmera mais ou menos decente aqui’. Mas nos divertimos muito, passamos algumas horas bem bêbados. Daí ele tomou o rumo dele e eu tomei o meu.”

Gilmour resume a situação: “A grandiosidade do que fizemos juntos é uma conquista de colaboração entre quatro pessoas que têm problemas de ego, todas elas. Em cada um de nós há uma leve diferença entre a realidade de nós mesmos e a nossa própria percepção de nós mesmos”. Mas Waters não concorda: “Não acho que haja mais ou menos ego envolvido. Acredito que a maior parte das bandas tem diferenças e discordâncias”.

Antes, Waters falou sobre os vocais proeminentes de Gilmour em Dark Side e em Wish You Were Here – e sobre o fato de que este segundo álbum conta com um vocalista convidado, Roy Harper, em “Have a Cigar”. “A única coisa de que eu realmente me arrependo foi de ter deixado Roy Harper cantar aquilo”, Waters diz. “Eu tinha bastante capacidade para cantá-la, e me deixei convencer do contrário – eu sei, no fundo do meu coração, que provavelmente me senti um pouco magoado, mas não estava preparado para assumir o risco de dizer: ‘Não, vocês podem se foder e eu não estou nem aí se acham que eu posso cantar ou não’. Então, disso eu me arrependo.” Ele sorri e conclui: “Mas não me arrependo muito”.