Edição 66 - Março de 2012

Memórias de um Brasil Espacial

Quando surgiu, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais simbolizava o Brasil do futuro. Após cinco décadas, o órgão sofre com a perda de identidade e a falta de investimentos
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por Tom da Veiga

Ao percorrer as arborizadas dependências do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos (SP), a sensação é a de estar em um lugar que parou no tempo. Os prédios de concreto, de linhas geométricas simples, remetem a uma arquitetura datada. Nas diversas salas, uma infi nidade de documentos e pastas se amontoa sobre um mobiliário modesto, típico de repartição pública. Em um dos corredores principais, repousa um enorme maquinário, hoje obsoleto, que outrora custou alguns milhões de dólares aos cofres públicos – trata-se de um processador de imagens arcaico cuja capacidade de armazenamento não ultrapassa a de um pequeno disco rígido atual. Reconhecido internacionalmente pela excelência em seus trabalhos, o Inpe comemorou os 50 anos do início das atividades espaciais no país em meio à maior crise de sua história e ao longo de um lento e dolorido processo de perda de memória.

Dentro de uma sala de reuniões caótica e apertada, juntam-se os chefes de uma das áreas mais badaladas do Inpe, a divisão de Observação da Terra (OBT). Capitaneados por Júlio D’alge, diretor da OBT, estão presentes José Bacelar, gerente de Programa de Sistemas de Solo e Operações, e Dalton Valeriano, gerente do Programa Amazônia, considerado o pai do sistema que vigia o desmatamento na Floresta Amazônica em tempo real (Deter). Todos são engenheiros e cientistas brilhantes, formados doutores por algumas das melhores universidades do mundo e, mesmo assim, ainda demonstram aversão às pompas e aos holofotes. Com vastos bigodes e cabeleiras, sustentando certo ar de antigos amantes de rock progressivo, eles fazem parte de uma turma do Inpe carinhosamente apelidada de “velha-guarda”: hoje, eles representam o maior contingente do Instituto.

Fundado em agosto de 1961, durante o curto governo do então presidente Jânio Quadros, o Inpe envelheceu e não se renovou. Dados do próprio órgão apontam que, em 1989, o Inpe tinha cerca de 1.600 servidores, dos quais apenas 50 deles com mais de 20 anos de serviço – profissionais mais velhos eram minoria. Duas décadas depois, o número total de servidores encolheu, caindo para pouco mais de mil, dos quais apenas 30% representavam a jovem-guarda.

Essa inversão de medidas acabou resultando em um grave problema para a instituição: a extinção do conhecimento. O cerne do problema reside no fato de que não há pessoal novo em número suficiente para absorver a bagagem dos profissionais que hoje se encontram em atividade no Instituto. Tudo isso é agravado pela constatação de que, nos próximos cinco anos, uma quantidade significativa de servidores estará em condições de se aposentar.

“Eu sou um desses”, confirma Valeriano, com seus longos cabelos brancos, indicando que “a transferência de conhecimento é um processo penoso que pode demorar anos numa instituição de ciência e tecnologia.”

Percorrendo o amplo e silencioso campus de 70 mil m2 do Inpe, é possível facilmente descobrir fragmentos da dimensão dos problemas, por meio de conversas paralelas. “Temos servidores com mais de 70 anos”, confi dencia um funcionário do setor de Recursos Humanos. “Isso é inconstitucional, mas eles permanecem aqui porque são apaixonados pela instituição e sabem dos danos que o seu afastamento imediato pode causar.”

A “geração de cabelos brancos” do Inpe se sacrifica para manter os projetos do Instituto em pauta sem deixar que meio século de conhecimento adquirido se esvaia junto ao seu merecido descanso. O Inpe precisa urgentemente renovar os seus quadros para sobreviver. Caso contrário, boa parte do que o Brasil conquistou na área espacial, bens públicos de valor incomensurável para a sociedade, corre o risco de cair no esquecimento. “Cada dia que passa é um dia a menos de conhecimento que a gente está perdendo”, define o cearense Gilberto Câmara, atual diretor geral do Inpe. “Isso vem se dando há muito tempo e pode destruir a instituição.”

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