Edição 66 - Março de 2012

Especial Mulher: Timidez Felina

Eternamente preocupada com a influência nociva da fama, Pitty já consegue aproveitar as vantagens de ser célebre
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por Tiago Agostini

"Não quero ficar com cara de modelete", diz Pitty, ao solicitar alguns pequenos desenhos em lápis preto ao redor dos olhos. “Não se preocupe, você é bonita”, responde o maquiador. “Obrigada”, ela agradece, fechando os olhos mais tranquila. Momentos depois, em uma tarde de sexta-feira pouco ensolarada em São Paulo, Pitty está sentada de frente para a ampla janela da sala de um apartamento no alto de um prédio no bairro de Perdizes, enquanto aguarda para ser fotografada. A assessora lhe traz pão de queijo e café, que compõem o que provavelmente é a primeira refeição dela naquele dia. Enquanto dança discretamente ao som do Gotan Project, Priscilla Novaes Leone nem se parece com a furiosa cantora de letras confessionais que conquistou a admiração fanática de milhares de adolescentes deslocados – eles, segundo a própria Pitty, seriam o espelho dela própria no que chama de seus “anos definidores”, quando morou com a mãe, Dina, e o irmão, Leonardo, em Porto Seguro, Bahia, entre os 10 e 14 anos. Assim sendo, Pitty sempre toma cuidado especial ao abandonar – nem que apenas por alguns minutos – a persona rebelde que encarnou desde o começo da carreira.

Assista ao making of da sessão de fotos com Pitty.

Ainda durante a sessão de maquiagem, Pitty confessa que despertou há poucos anos para a vaidade, mesmo que não saiba precisar exatamente quando. “Sou péssima com datas”, justifica. “Rolou naturalmente. Algumas pessoas podem dizer que foi a maturidade, mas eu não sei. Um belo dia comecei a achar interessante e não reprimi.” Este é um dos poucos lados assumidamente “menininha” da cantora. Durante as fotos, no entanto, desarmada de defesas em relação ao contato com estranhos (ou então assumindo um papel por alguns poucos minutos), Pitty deixa seu lado feminino aflorar aos poucos. Vestindo uma lingerie roxa, ela exibe uma sensualidade contida, mas nítida. Está longe do estilo mulherão – tem 1,61 m de altura e não costuma usar roupas que realcem suas formas – mas confortavelmente se deixa deitar no sofá para, sem grandes movimentos, seduzir a câmera apenas com o olhar. Tal qual um gato que pede carinho de mansinho, ela parece levar a situação com sutileza ímpar.

Uma sessão de fotos é, na verdade, outra forma de teatro, um jogo entre câmera e seu objeto – algo que Pitty, 34 anos, está acostumada a fazer na vida profissional. Pouco mais de um mês depois, nos reencontramos na sala do apartamento dela, na região da boêmia rua Augusta, em São Paulo. Com o rosto limpo, calça de ginástica preta, blusa preta com detalhes verdes e azuis, ela parece mais relaxada. Confessa que se sente melhor em ambientes masculinos. “Me identifico com a praticidade, um certo pragmatismo”, explica. “Acho a relação com homem muito honesta, sempre tive amigos homens de olhar no olho e dizer tudo que eu sinto sem me sentir julgada. Quando estou com meus amigos, sou um mano: arroto, bato no ombro, chamo de gostosa.” Não que ela não tenha grandes amigas mulheres ou não frequente ambientes femininos. “Os estereótipos femininos, as conversas, me fazem olhar meio de fora”, analisa. “Eu não me vejo participando daquilo. Participo porque sou garota, tenho que estar ali, mas acho caricato.”

Nem sempre foi assim, porém. “eu era bem molequinha na adolescência”, Pitty relembra, soltando uma leve gargalhada. Os anos em Porto Seguro vêm à tona de novo e ela os retrata com um cuidado. “Foi a descoberta da própria identidade”, conta. Como todo adolescente, Priscilla teve de lidar com a aceitação em um grupo, em especial na escola. “Nessa fase você ainda não sabe lidar com as diferenças, e adolescentes podem ser muito cruéis”, ela relembra a origem humilde. “Tinha aquela coisa de usar roupa de marca, e era a fase em que eu estava aprendendo que não posso contar com aparência, posses. Meu trunfo tinha que ser outro.” Ela escolheu o diálogo como maneira de se destacar na multidão. “Se você não é a gatona, tem de dar um jeito de sobreviver naquela minissociedade”, diz. Não é de se espantar que Pitty tenha começado a dar vazão à vaidade apenas depois de famosa, com os holofotes invariavelmente focando nela.

Apoiando as costas no sofá, Pitty está sentada no chão da sala, enquanto dois de seus três gatos – Chaplin, Billie e Nega – circulam próximos a nós, como que reconhecendo o ser estranho ao ambiente. Ao fundo, a jukebox que só aceita CDs, ao lado de uma mesa de sinuca, toca The Freewheelin’ Bob Dylan. “Gosto de ouvir os clássicos nela. As músicas novas ouço no iPod”, diz. Mais tarde, porém, “Ready to Start” (do Arcade Fire) sai dos falantes.

O apartamento de dois pisos é o último do prédio, localizado em uma rua pacata – uma grande diferença em relação ao movimento ininterrupto da badalada e eclética Augusta. Morando na capital paulista desde o lançamento do primeiro álbum, Admirável Chip Novo, de 2003, Pitty sofreu de amor à primeira vista com a cidade. “Quando cheguei, pensei na hora: aqui é o meu lugar.” Antes da residência atual, que divide com o marido, Daniel Weksler, baterista do NX Zero, ela morava em um flat próximo dali. Ainda hoje, não é raro encontrá-la em algum dos bares e clubes da rua famosa.

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