Edição 69 - Junho de 2012

A Dança Solitária de Anderson Silva

Atacado por todos os lados, o lutador desliza intensamente pela vida pública e permanece como o último homem a ser batido nas arenas do planeta. Mas a meta é chegar ainda mais longe
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por Pablo Miyazawa


“Eu faço uma autoanálise de tudo que já passei, de onde estou e aonde quero chegar”, Anderson prega, em voz baixa. “Hoje, eu luto porque gosto. Não preciso de mais do que isso. Eu não tinha nada. Não posso mudar minha essência porque estou famoso. Porque você perde o sentido. Entendeu?”

A fama nem sempre facilita as idas e vindas. Diante da sede do Corinthians, o porteiro reluta em liberar a entrada do carro, mesmo após enxergar a silhueta do atleta ilustre atrás do vidro. Ironicamente, uma enorme imagem de Anderson Silva, impressa na entrada da academia que leva seu nome, observa a cena de longe.

“Estamos sem moral nenhum”, ironiza Anderson, esboçando leve impaciência. Ao volante está Hebert Mota, 34 anos, desde 2010 agente e fiel escudeiro da figura pública do lutador. “Ele é minha Marlene Mattos”, Anderson costuma brincar, referindo-se à notória ex-empresária linha-dura de Xuxa Meneghel. Mais tarde, Mota relativiza: “Não sou empresário dele. Eu cuido da imagem do cara. Sou um amigo. Conselheiro em alguns momentos. O Anderson é muito humilde. Tão mente aberta que se qualquer pessoa próxima disser algo, concordando ou discordando, ele irá ouvir. Mas é ele que sempre toma a decisão”.

O cachê por uma nova vitória contra Sonnen permanece em segredo, mas estima-se que seja mais polpudo do que os US$ 750 mil que garantiu ao vencer Okami em agosto de 2011 (mais os US$ 300 mil pelo “nocaute da noite”). Os prêmios e royalties de publicidade são investidos em aplicações, não em carros de luxo e imóveis, como é praxe entre esportistas. “Ele não brinca de loucura”, dispara Mota, o discurso veloz combinando com o porte esguio e o sorriso fácil. “O Anderson de 37 anos precisa de dinheiro para se divertir, sair com amigos, brincar de ser feliz. Por que não ostenta? Porque nem é tanto dinheiro assim. E tudo o que ganha é um investimento para o nível de vida que ele quer oferecer aos filhos. Porque o Anderson pensa em quando tiver 55 anos de idade.”

A valorização da imagem de Anderson Silva é uma estratégia trabalhada por Mota junto à 9ine, focada no aproveitamento de oportunidades e na propagação de uma ideia de autenticidade genuína bem ao gosto do público brasileiro. “Um ponto é a ausência de ídolos. Tivemos Pelé, Ayrton Senna, Ronaldo. Agora, temos Anderson e Neymar”, compara Mota. “Outro ponto é a verdade dele sendo amplificada. Ele é o que é. Nada é inventado. Você pega ele e vê que é de carne e osso.”

“Ele vai continuar sendo um ídolo se continuar a ser humano”, define o agente. “O meu trabalho: fazer com que ele sempre se mantenha humano.”

No corredor da academia, porém, as expressões nos olhos dos presentes dão a impressão de que uma figura sobrenatural surgiu para treinar. De jeito discreto e com a expressão serena, Anderson invade a área espelhada reservada ao octógono, decorada por painéis com imagens dele desferindo alguns de seus golpes mais famosos. O programa em questão é uma aula de jiu-jítsu capitaneada por Ramon Lemos, 33, um dos fundadores da equipe de jiu-jítsu Atos Team e há anos chefe de treinamento de Anderson. O campeão cumprimenta os alunos e procura se comportar como um estudante normal, atento às explicações de Ramon, a quem só chama de “mestre”. Os colegas se esforçam para não tratar o parceiro célebre com diferenciação. Deitado de costas na lona, Anderson pinga de suor, tentando se livrar de uma posição de submissão. De longe, um frequentador da academia tira fotos. Com um sinal, Hebert solicita que ele pare.