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Celebrando 50 anos de existência, os Beach Boys relembram o extenso legado

Paulo Cavalcanti Publicado em 15/06/2012, às 11h31 - Atualizado em 26/06/2012, às 12h22

<b>HOMENS DA PRAIA</b> (A partir da esq.) Bruce Johnston, Al Jardine, Brian Wilson, Mike Love e David Marks

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No dia 4 de junho de 1962, a Capitol Records lançava nos Estados Unidos o single “Surfin’ Safari” / “409” de uma banda californiana iniciante chamada The Beach Boys. Não era o primeiro disco deles, mas esse lançamento, que rapidamente entrou para o Top 20 e fincava a bandeira da surf music, colocava o grupo no mapa do rock do país. Na turbulenta década de 60, os Beach Boys se tornaram ícones do rock norte-americano, gigantes que enfrentaram os Beatles cara a cara e ainda conseguiram ser um dos poucos contemporâneos que influenciaram o quarteto de Liverpool. No cerne da banda, escrevendo, produzindo e comandando o show, estava um gênio relutante: Brian Wilson, o homem por trás de um dos catálogos mais celebrados da história do rock e a mente e o coração que geraram as obras-primas Pet Sounds (1966) e Smile, originalmente agendado para 1967, mas que só foi lançado oficialmente no ano passado.

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Nestes 50 anos repletos de triunfos, tragédias e conflitos, cinco Beach Boys sobraram para contar a história e celebrar meio século de música. Brian Wilson, uma das mais incríveis histórias de sobrevivência da música popular, não é o que se pode chamar de uma pessoa normal. Ele, que neste mês também tem mais um motivo para celebrar (completa 70 anos em 20 de junho), ainda carrega sequelas de sérios problemas mentais e emocionais. Wilson compreendeu o significado de um digno último hurra ao lado da banda que ele criou, mas que com o passar do tempo passou a rejeitar. O músico se comprometeu a escrever um novo álbum de canções inéditas e ainda produziu o trabalho, que acabou de ser lançado com o título de That’s Why God Made the Radio. Ele ainda cumpre uma extensa agenda de shows junto à banda. Seu primo Mike Love, o homem que nas últimas décadas vem excursionando com uma versão dos Beach Boys, continua o frontman por excelência. Love foi um dos principais incentivadores desta reunião de 50 anos. Quem está contente em se juntar aos antigos companheiros é Alan Jardine, que esteve com os Beach Boys desde o começo, mas que depois de perder um cabo de guerra com Love em 1998, acabou sendo afastado do grupo que ajudou a fundar. Bruce Johnston, que entrou em 1965 para substituir Brian Wilson na estrada, se afastou do grupo em 1972, mas a pedido do próprio Brian voltou de vez seis anos depois. Ele é fiel escudeiro do Love na versão reformada dos Beach Boys. E completando o line-up está o guitarrista David Marks, que por cerca de um ano e meio substituiu Al Jardine logo no comecinho dos Beach Boys, tocando em quatro álbuns da banda. Desde os anos 90, ele vem participando dos Beach Boys de Mike Love, para conceder uma maior autenticidade. No meio do caminho ficaram dois membros do clã Wilson: o irmão caçula Dennis, morto afogado em 1983 depois de anos de excesso; e Carl, que sucumbiu a um câncer na garganta em 1998.

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Obrigações contratuais e marketing à parte, parece haver entre os membros do atual Beach Boys um genuíno entusiasmo neste retorno. Ninguém pode saber ao certo se as antigas rusgas agora estão enterradas de vez, mas certamente esses senhores suavizaram com o tempo; estão menos beligerantes e perceberam que, em vez de brigar por insignificâncias, é mais proveitoso apreciar a companhia uns dos outros e contemplar o enorme legado que produziram.

Assim, há alguns anos, a ideia de juntar vários Beach Boys no mesmo espaço poderia parecer utopia. Love, Marks, Jardine e Johnston, reunidos em uma mesa redonda por telefone, se revelam falantes, interessados e reverentes. Bruce Johnston se adianta: “Você está ligando de São Paulo? Eu e o Mike estivemos aí há uns dois anos com a banda. É uma cidade enorme, nos surpreendeu”.

Sobre a comemoração dos 50 anos, David Marks, que nos shows se ocupa de todos os solos de guitarra, externa seus sentimentos. “Eu me sinto alegre, orgulhoso e com sentimento de ter realizado algo que valesse a pena”, ele afirma. “Eu nunca estive muito longe. Éramos amigos de infância e eu voltei para várias configurações dos Beach Boys nestes últimos anos.” O colega Al Jardine ecoa o pensamento de Marks: “É um pequeno milagre estarmos aqui. Fisicamente, mentalmente e vocalmente, estamos aptos para a turnê. Temos sorte de estar aqui e ainda podermos fazer o que estamos fazendo”.


O vocalista Mike Love também reflete sobre a longevidade dos Beach Boys. “Ah, sim, nós temos tanta sorte. Amamos música, algo que faz parte da nossa vida desde a infância. No começo, cantávamos em reuniões de família e festas de aniversário”, ele relembra. “Começou como um hobby e virou profissão, uma ocupação que se tornou incrivelmente bem sucedida. Não falo isso só por causa do nosso enorme sucesso comercial, mas também por termos realizado trabalhos tão importantes como os álbuns Pet Sounds e Smile. Como disse Al, é quase um milagre. Mas o nosso sucesso se deve à junção do talento do meu primo Brian e dos outros caras que fizeram e fazem parte da banda.”

Já Bruce Johnston promove o novo álbum: “Estamos dando o máximo, queremos que as pessoas ouçam nossas novas músicas. Todos nós amamos Brian, ele se empenhou muito. Esperamos que este disco seja reconhecido por todos. Para mim, é uma injustiça o Brian nunca ter ganho um Grammy como produtor”.

No final ano passado, o mítico Smile saiu do baú. Os Beach Boys parecem se dividir sobre o disco. “Eu sempre fui um grande incentivador do experimentalismo dos Beach Boys. Acho fascinante ouvir música feita em uma era que já não existe mais. Como todos sabem, nosso líder (Brian) não conseguiu completar o álbum e deixamos tudo aquilo. Então, foi estranho, mas também legal entrar de novo nessa cápsula do tempo psicodélica”, diz Jardine. “Johnston dá um parecer menos positivo: “Eu não desrespeito a música de Smile. Tem coisas muito boas lá. Só acho estranho hoje ouvir esse tipo de música que foi feito em uma época em que muitos estavam sob influência de drogas”.

Nesta reunião, naturalmente, estão faltando Dennis e Carl Wilson. Ao lembrar o falecido baterista, Al Jardine exalta o talento dele: “[O álbum] Pacific Ocean Blue (1977) era ambicioso, algo que na época os Beach Boys nem sonhavam em fazer. Este primeiro trabalho solo indicava que era um cara especial. Se tivesse sobrevivido, seria uma figura muito influente na música pop”. Love interrompe Jardine para falar: “Meu primo Carl teve importância enorme. Ele foi o nosso líder depois que Brian parou de excursionar, nos manteve coesos. Era o cantor de ‘God Only Knows’ e ‘Good Vibrations’, que eram perfeitas em sua voz. Carl tinha incríveis vibrações, sempre com uma atitude positiva. Quando executamos essas canções hoje, sabemos que ele está presente.” Nos shows de 50 anos, os falecidos irmãos Wilson aparecem em telões, “cantando” junto com a banda; Dennis surge em “Forever” e Carl em “God Only Knows”.

Ao longo das décadas, Mike Love manteve a chama dos Beach Boys e sempre se esforçou em fazer jus a seu papel de ponto focal do grupo: “Brian, quando sentava ao piano, já criava as canções no meu tom de voz, por isso sempre cantei a maioria dos hits. Ele se ocupava com as composições e com a elaboração do nosso som; Carl, Alan e Dennis tinham seus instrumentos para tocar e as harmonias vocais. Eu não tinha muita coisa para fazer a não ser me concentrar nos vocais principais. Eu sou um pouco mais velho do que os outros, um pouco mais desinibido. No palco, eu sempre quis me soltar, ‘interpretar’ visualmente um pouco as canções. Adoro estar no palco. Para mim, quanto mais eu canto, melhor ficam as cordas vocais. Quando você fecha os olhos e ouve ‘California Girls’ ou outras dessa época, pode imaginar que ainda está em 1965”, acredita.

Como os próprios Beach Boys afirmam, nada que é popular fica de fora na turnê. Todos sabem que vão ser executados mega-hits como “I Get Around”, “Barbara Ann”, “California Girls”, “Help Me Rhonda”, “Good Vibrations”, “Surfin’ USA”, “Fun Fun Fun”, “Wouldn’t It Be Nice”, “God Only Knows” etc. Mas, ao longo de cinco décadas o grupo gravou muito material que, com o tempo, ganhou status entre os fãs. A banda tenta resolver esta situação colocando no show faixas como “This Whole World”, “Sail on Sailor” e “All This and That”. Como diz Mike Love: “Várias destas canções vêm do período em que Brian basicamente não estava mais com a gente o tempo todo. Esta época

pós-Smile, do final dos anos 60 ao começo dos 70, teve grandes álbuns como Friends, Sunflower, Carl and The Passions e Surf’s Up, que com o passar do tempo, tornaram-se cult. Foi um período mais democrático quando eu, Carl, Dennis, Alan e Bruce começamos a desenvolver nossos talentos individuais como produtores e compositores. Bruce por exemplo, veio com ‘Disney Girls’, que hoje é um clássico”.


Eles são meus heróis. O jazz e o rock and roll são os grandes legados musicais dos Estados Unidos. Ninguém representa tão bem o otimismo, a coragem e o sentido de diversão como os Beach Boys. Eles eram a cara da América quando todo mundo queria ser a América. Suas canções estão no DNA deste país.” Com estas palavras, John Stamos, ator, músico amador e tiete dos Beach Boys introduziu a banda na edição 2012 do New Orleans Jazz & Heritage Festival. Os Beach fizeram a fama cantando sobre o sol, mas nem eles poderiam esperar o calor tão abrasivo quanto o que fazia no estado da Louisiana no fim da tarde de uma sexta-feira, em 27 de abril. Foi a terceira performance da turnê dos 50 anos – a primeira tinha acontecido três dias antes, em Tuckson, Arizona.

Para os fãs devotos, a reunião dos Beach Boys representa o melhor dos dois mundos. A banda de apoio é constituída pelos músicos de Brian Wilson, incluindo Darian Sahanaja, Scott Bennett e Jeffrey Foskett. Na bateria está John Cowsill (The Cowsills), que faz parte dos Beach Boys de Mike Love. O show em Nova Orleans foi uma versão reduzida do espetáculo que eles estão apresentando e, ainda assim, durou duas horas. Em locais fechados, a banda vem tocando por duas horas e 40 minutos. Mike Love diz que os brasileiros, com um pouco de sorte, quem sabe vão poder ver a banda reunida, mas não agora: “Estamos já com a agenda lotada nos Estados Unidos e na Europa, especialmente agora que é verão aqui no norte do planeta. Já tivemos propostas para tocarmos na Austrália e no Japão. Não recebemos nenhuma oferta da América do Sul, mas estamos abertos, adoro a cultura, tudo que vem daí.”