Edição 70 - Julho de 2012

Além da Disco

Em 1978, Donna Summer se encontrava no auge, mas tentava cortar as amarras da música dançante
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por Mikal Gilmore | Tradução: Ana Ban

Até assistir Donna Summer no programa de TV Midnight Special, eu considerava a sua música simplesmente como sexo auditivo empacotado de maneira brilhante, nada com muita consistência ou apelo pessoal. Mas quando se juntou a Lou Rawls no palco, vestida como uma Cleópatra da Bloomingdale’s, ela cantou a versão mais emocionante de “Swing Low, Sweet Chariot” que eu já ouvi. Não era aquela voz murmurada dos discos. A segunda vez que a vi, foi no set de Até que Enfim É Sexta-Feira. Donna fazia o papel de uma cantora novata que tentava fazer com que um DJ a deixasse cantar uma música. Depois de várias recusas, ela se esgueira para dentro da cabine e tranca a porta atrás de si, de modo que os dois ficam lá sozinhos. Então ela abre o botão de cima da blusa e o encara com um olhar de canto de olho. Eu me lembro de que aquela foi uma das expressões mais curiosas que eu já vi, de olhos arregalados, contida e de um erotismo frio.

Mas agora, na época do Natal, quando Donna chega às instalações da Casablanca Records e entra na sala da executiva Susan Munao com um vestido de veludo verde esvoaçante e botas pretas de salto fino, ela não parece exótica nem erótica, apenas exausta. Ela tem aperto de mão firme e sorriso simpático, mas seus olhos arregalados estão vermelhos. Sua silhueta alta é musculosa, o cabelo preto ondulado enquadra seu rosto, marcado pelo nariz um pouquinho batatudo e menos anguloso do que nas fotos dos álbuns. Quando Susan sai para pegar refrigerantes, Donna se afunda em uma poltrona giratória e solta um suspiro exagerado.

Em um discurso que parece ensaiado, falado com um ocasional sotaque de Boston, Donna atribui seu cansaço ao regime de entrevistas e ensaios dos últimos dois dias. Começa a explicar detalhadamente sobre seus planos de levar Once Upon a Time (seu álbum mais recente) ao palco. Susan anuncia que Michael, o namorado da cantora, gostaria de falar com ela. “Ele está com os cartões de Natal que você queria”, diz. Michael, um loiro alto vestido com jaqueta acolchoada de cetim vermelha e branca, entra saltitando na sala e coloca um cartão na frente de Donna.

“Não”, ela diz e o arranca da mão dele. “Isto não vai servir. Não dá para saber quem é quem. Isso aqui é uma caricatura de Neil Bogart [presidente da Casablanca] ou de Jeff Wald [o outro empresário de Donna, ao lado de Joyce Bogart, na época]?”

“Bom, acho que esse é Neil”, ele responde. “Dá para ver porque ele é meio gordo.” Antes de sair, Michael comenta que tinha conhecido um curandeiro vidente naquele dia e pediu a ele que marcasse um horário para Donna.

Depois que o namorado se retira, eu digo à cantora que parece que ela está passando por um momento difícil. “Ah meu Deus”, ela diz e solta o ar demoradamente. “Nem tenho como começar a contar. Tanta coisa aconteceu. Voltei de uma turnê pela Itália que foi tão mal organizada e mal planejada que eu achei que ia me partir ao meio. No aeroporto, eu estava passando tão mal que precisaram me dar oxigênio e me levar de cadeira de rodas para o avião. E eu só conseguia pensar que tinha de fazer um show naquela noite. Em certo ponto, a máquina quebra. Eu tenho vontade de chorar e me livrar de tudo, mas às vezes eu me sinto tão reprimida que não consigo. E é aí que fico com medo.”

Mais do que qualquer outra personalidade, Donna Summer passou a simbolizar a disco. Nos padrões rígidos do estilo, o papel do artista é reduzido ao de um objeto ao qual o termo “artista” mal chega a se aplicar. Poucos astros de disco imprimem seu estilo próprio ao gênero ou conseguem fugir dos estereótipos. Donna, além de ser o exemplo mais flagrante de transformação em objeto no gênero, também é quem rompe barreiras desta ideia da maneira mais bem-sucedida – e acaba transcendendo a própria disco.