Edição 71 - Agosto de 2012

Tom Zé e o Tropicalismo

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5 PERGUNTAS
DIVULGAÇÃO
por Antônio do Amaral Rocha

Depois de "ressuscitado" na década de 90 com a ajuda de David Byrne, Tom Zé já estudou o samba, o pagode, a bossa nova e agora parece disposto a compreender o Tropicalismo que ele mesmo ajudou a criar. Nesta entrevista, complemento da conversa publicada na edição 71 da Rolling Stone Brasil (leia aqui), o cantor e compositor fala não só sobre o novo disco, Tropicália Lixo Lógico, como divaga sobre o passado, além de exaltar a representatividade de "Atoladinha", funk do MC Bola de Fogo.

Como foi a sua educação na primeira infância em Irará (Bahia)? Estava presente o medo de Deus, do castigo?
Perfeitamente... e teve um fato histórico que transformou completamente certos detalhes dessa educação. Vou divagar: houve uma corrente de troca na Europa toda. Deixa eu falar dessa coisa exterior que tem a ver com a gente. Não se incomode que isso é verdade absoluta, pelo menos está registrado nos livros que eu li. A península ibérica, invadida pelos árabes, passou a ser educada pelo zero, digo eu, brincando – o povo mais inteligente daquele momento tinha acabado de inventar o zero. Você pode imaginar todas aquelas civilizações anteriores sem o zero? Além disso, eles tinham uma ciência desenvolvida, uma arquitetura maravilhosa, que é o que até hoje se vê em Barcelona, Madri, e que se orgulham de mostrar. Ciência, matemática, náutica, e esse povo, os árabes, ficou lá na Europa desde o século 7 até o século 15. Quando eles saíram da Europa em 1492, tempos depois, esse povo altamente influenciado e injetado de cultura e de tecnologia fizeram os navios e saíram para os descobrimentos.

O que isso tem a ver com a Bahia e Irará especificamente?
As bandeiras que foram para a minha região em 1576 nunca mais voltaram de lá, ao contrário das que foram para o Mato Grosso, Goiás, Brasil Central. Daí temos quatro séculos de miscigenação, ficaram pobres e miseráveis, mas amavam a cultura dos avós e mantiveram isso nas danças e na música. Agora quem endossa o meu cheque é o escritor Euclides da Cunha, eu não sou autoridade: o sertanejo vive como um cientista, presta atenção a tudo, é um analfabeto apaixonado pela cultura dos avós, e além disso, seus antepassados foram influenciados pelos árabes que eram aglutinadores de tudo de cultura que tinha no mundo.

E como isso deu?
Os portugueses trouxeram para cá os provençais e até os poetas concretos se dizem influenciados pelos provençais e, eles, a toda hora acusam a presença da poesia provençal no Nordeste. Então, todos os tropicalistas na sua região tinham os mesmos gestos e hábitos culturais e tudo o que circulava entre nós era na linguagem provençal.

Você pode citar exemplos?
Por exemplo, lá tem uma dança dramática, a chegança, que trata da construção de navios, de coisas da Escola de Sagres, falando da canção celta que influenciou a canção brasileira, da canção árabe que influenciou a canção brasileira, enfim, tudo isso estava lá na nossa vida e se tornou uma coisa básica. E aí a gente chega na escola primária, que é regida pela palavra escrita. Nesse ponto a educação da gente recebe um choque maravilhoso, uma interpretação do universo! Essa coisa que vai provocar o lixo lógico. Comigo aconteceu assim, e eu acho que com a sensibilidade dos poetas e dos artistas do tropicalismo foi a mesma coisa. A escola falava coisas, você ia pra casa e, puxa... No princípio eu ficava alumbrado. Será que é assim mesmo? Aquela coisa escrita... eu olhava e dizia: todo mundo está entendendo exatamente a mesma coisa! Não é possível!

E esse tipo de impressão aconteceu com você nessa idade ou você formulou depois?
Nessa idade, e depois me lembrei, claro, porque isso foi muito radical. E eu passei tardes pensando: será que o mundo é assim mesmo? Demorei muito pra acreditar que o mundo era assim, que as pessoas do mundo podiam ler. Eu comparava com a minha vida, o saber, a vida organizada, e era quase igual. Acho que isso de comparar era normal em pessoas inteligentes, em pessoas sensíveis. E aí no Ginásio foi fatal a chegada de mais coisas, mais conhecimentos. O hipotálamo guarda, pois guarda até o homem das cavernas, a pré-história em nós.

Fica claro que você tem uma percepção diferenciada da realidade que te cerca.
Espera aí... se eu tenho uma percepção diferenciada, imagine gênios como Caetano e Gil!

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