Edição 75 - Dezembro de 2012

Lutador de Família

Encarando as incertezas de uma nova fase na carreira, Mauricio “Shogun” Rua trabalha sem descanso para retornar ao topo do UFC
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Lutador de Família
Camila Cornelsen Veja a galeria completa
por Murilo Basso

Sentado no córner direito de seu octógono particular, Maurício Rua está ofegante. Ele enxuga o rosto e ouve as instruções de um dos sparrings. Sorrindo, o olhar se perde e ele se dá conta de que mais uma manhã de treinos chegou ao fim. Aos 30 anos, “Shogun”, como é conhecido no universo da milionária liga Ultimate Fighting Championship, consegue impor respeito naturalmente graças ao porte físico avantajado e olhar de poucos amigos. Observado mais de perto, o ex-campeão dos meio pesados, único brasileiro a ganhar cinturões dos maiores torneios de artes marciais mistas já existentes (o Pride e o UFC), até parece e se comporta como um cara normal.

Naquele dia, Rua chegou cedo à academia do irmão, Murilo “Ninja”, no Juvevê, bairro nobre de Curitiba. “Dudinha, mostra para o tio como o papai faz?”, ele diz ao se sentar ao lado do tatame, com a filha de 3 anos no colo. Enquanto a garotinha soca o ar para imitar o trabalho do pai, um jovem lutador se aproxima e diz: “Poxa, não rolou o TUF com o Lyoto”.

Apesar de Shogun e Lyoto Machida terem sido os mais cotados, os nomes de Fabrício Werdum e Rodrigo Minotauro foram confirmados como treinadores da segunda edição do The Ultimate Fighter Brasil, reality show que busca novos lutadores para o UFC. “Sem problemas, cara. Não é uma obsessão, uma hora vai rolar”, Shogun responde, denotando frustração, mas se esforçando para exibir tranquilidade.

A criança rouba as atenções em um ambiente quase exclusivamente masculino. Sorrindo, Duda brinca com as bochechas do pai. “É só eu falar que vou à academia, que ela quer vir junto”, Shogun conta, orgulhoso. “Ela sabe o que eu faço, mas não a deixamos assistir às lutas. É até engraçado, porque quando viajo, normalmente volto com o olho roxo. Mas tem vezes que viajamos apenas para eventos de divulgação e quando chego ela logo pergunta: ‘Cadê dodói, papai?’”

“Acho que conforme ela for crescendo vai compreender melhor que é apenas o trabalho do pai dela”, ele continua. “Após a luta contra o Dan Henderson, minha mãe e minha esposa pediram que eu parasse, porque realmente foi um combate desgastante. Mas acho que ainda tenho lenha para queimar. E quando sentir que meus reflexos não são mais os mesmos, vou parar sem problemas.” Por sinal, o embate contra o californiano, em Novembro de 2011, foi considerado pela crítica especializada um dos melhores da história do UFC (Shogun perdeu por pontos). Desde 2009, aliás, o curitibano alterna derrotas e vitórias na liga. Em março último, perdeu por nocaute o cinturão dos meio-pesados, na primeira vez em que o defendeu, para o norte-americano Jon Jones. O próximo confronto, em 8 de dezembro, contra o sueco Alexander Gustafsson, seria a chance de mais uma volta por cima.

“Comecei aos 15, 16 anos, praticando muay thai. Quem me incentivou foi o Ninja, meu irmão, que na época já lutava profissionalmente”, Rua relembra, sentado no meio do octógono, localizado na parte posterior da academia. “Na época do Royce Gracie, o cara era bom em apenas um estilo. Já nos tempos do Pride, era necessário ser eclético e nós treinávamos todos os estilos. Agora acredito que é preciso se moldar de acordo com o adversário. Por exemplo, quando lutei contra o Lyoto, que é um especialista em caratê, contratei sete caratecas para a preparação.”