Edição 82 - Julho de 2013

Ícone perdido da cultura black brasileira, Nelson Triunfo enfim celebra o merecido reconhecimento

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por Carlos Juliano Barros

Em um ensolarado fim de tarde de maio, Nelson Triunfo está de bermuda na laje da casa que construiu com as próprias mãos, na favela do Tiquatira, zona leste de São Paulo. Munido de uma mangueira, o cineasta Caue Angeli tenta fazer a água penetrar o emaranhado de fios que compõem a mais célebre cabeleira black power do Brasil, intacta desde 1973. “É minha marca registrada. Nunca mais cortei. Nem precisa: quando penteio, o cabelo quebra”, explica Triunfo, ou “Nelsão”, com a voz potente e carregada de sotaque pernambucano, do alto de seu 1,90 metro de altura.

Estamos em meio à gravação da última cena do documentário Triunfo, o filme que promete fazer justiça ao legado de Nelson Gonçalves Campos Filho. A obra, com previsão de lançamento para o segundo semestre, recupera a infância dele vivida em Triunfo, município do sertão pernambucano (que virou “sobrenome” de Nelson e dá título ao filme), passa pelos bailes da Chic Show, no Palmeiras, entre as décadas de 70 e 80, e chega até a consolidação da cultura hip-hop. “O documentário bebe do Faça a Coisa Certa, do Spike Lee: as cores, a estética, as pessoas ouvindo rádio”, explica Caue Angeli, que dirige o longa-metragem em parceria com o pai, Hernani Ramos.

A filmagem na laje remonta a um incidente ocorrido durante as tempestades de verão de 1985, o pior ano da vida de Triunfo. “Deu uma enchente aqui no bairro e eu nadei em quase 2 metros de altura. Quase morri. Precisei de mais de seis meses para me recuperar”, relembra. Até esse episódio, ele comandava uma revolução cultural na esquina das ruas 24 de Maio e Dom José de Barros, no centro de São Paulo. Ao som do boombox, toca-fitas que marcou época nos anos de 80, atraía multidões ao dançar clássicos do soul e do funk, ocupando os espaços públicos com a vanguarda da cultura black.

Em tempos de ditadura, a visibilidade de Nelsão era uma afronta e tanto. “Imagina eu com esse tamanho, com esse cabelão, no meio dos militares, como é que eles me viam?”, indaga, exaltado. “Fui preso várias vezes porque sabiam que eu não tinha carteira assinada. Me levavam em cana para averiguação. Essas marcas na minha canela, isso foi chute de coturno”, afirma, exibindo as cicatrizes que coleciona nas pernas, para comprovar a autenticidade da narrativa.

“Muito office boy que passava na rua 24 de Maio parou de trabalhar e virou b-boy [dançarino de break]. Eu fui um deles”, conta KL Jay, do Racionais MC’s, presente no documentário. O rapper Thaíde também credita sua entrada no universo do hip-hop ao contato com o mestre. “Ver o Nelsão foi surreal”, rememora. “Antes de se falar de hip-hop, a gente já o assistia na TV, dançando soul. Ele recepcionou James Brown no aeroporto e participou da abertura da novela Partido Alto (1984), da Globo, com os passistas da Mangueira”, acrescenta. No documentário, Thaíde faz o papel do locutor de um programa de rádio fictício que conta a história de Nelsão.

As apresentações ao ar livre na rua 24 de Maio seduziram KL Jay e Thaíde e abriram alas para o surgimento do break. O movimento da dança de rua migraria para as imediações da estação de metrô São Bento. Mas a mudança de endereço não tirou Nelson Triunfo de cena. Em 1994, ele fundou a Casa do Hip-Hop, em Diadema, no ABC Paulista – centro de educação popular para jovens em situação de vulnerabilidade social, referência na formação de novos talentos do rap, do grafite e da dança.

“Talvez eu seja o mais velho do hip-hop no Brasil em idade, mas talvez seja o mais novo pela forma de pensar”, filosofa Nelsão, que em outubro completa 59 anos. “Muitos b-boys tradicionais falavam mal do pessoal com cabelo pintado, piercing. Fui eu que defendi essa nova geração”, exemplifica. “Quando apareceram o Emicida, o Projota, eu falei para alguns rappers mais velhos: ‘A vida é uma evolução. Essa é a nova safra’.”

BNegão foi outro que se impressionou com Nelsão. Em um show na extinta casa de shows Olympia, em São Paulo, estavam no palco Funkadelic e Maceo Parker, acompanhados da banda de James Brown. Os seguranças da casa proibiam as pessoas de dançar. “Até que subiu no palco uma gordona, que cantava com o James Brown, para fazer um som da Aretha Franklin”, BNegão relembra. “Quando ela começou, o Nelson deu um salto mortal muito louco, com aquela cabeleira, e aí vieram umas 40 pessoas atrás dele que estavam esperando para dançar – eu inclusive! Depois, foram mais 200, 500. Ele comandou a rebelião da dança e o show cresceu!”