Edição 85 - Outubro de 2013

Entrevista RS: Rodrigo Amarante

Sozinho em cena pela primeira vez , o músico escancara emoções, conversa consigo mesmo e relembra os bons tempos de Los Hermanos
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por Pablo Miyazawa


A última turnê do Los Hermanos causou mudanças em como você enxerga a música?
Foi um negócio louquíssimo. Eu nunca me acostumei com esse lance do Los Hermanos. Cada vez que subia no palco era isso: “Caralho, olha toda essa gente! Que loucura!”. Ao mesmo tempo, todo mundo na banda sempre conversou e tentou tirar o peso que isso tinha. Tentamos ver assim: se serve pra algo, é para nos encorajar a fazer as coisas sem medo. Isso nós desenvolvemos juntos, conversando, os quatro. E é algo que trago comigo, entendeu? Por mais louco, absurdo, que seja o negócio do Los Hermanos, quando vou fazer uma música, eu não fico pensando “Mas tanta gente está esperando por isso...” Meu irmão, eu tô lá longe. Tô fazendo o disco pensando nos meus mestres – os meus amigos, que amo e admiro, uns que já estão mortos. Estou querendo conversar com eles.

A responsabilidade de entregar atrapalha?
Claro que faço a música pra alguém ouvir, mas não sinto peso. E tem outra coisa, que posso chamar de senso de responsabilidade. Uma vez me falaram que isso é coisa de virginiano, de querer servir. Eu quero fazer algo que sirva, não estou aqui pra me aproveitar de ninguém. Não é pra ganhar dinheiro, comprar um carro, sei lá. Eu quero servir. Sem o padeiro, não tem pão; sem o músico, não tem música.

E o fim do Los Hermanos? Por que os fãs custam a aceitar?
Acho que são duas coisas: uma é o amor pela banda, que é maravilhoso. Mas tem aquilo também: “Eles estavam no auge comercialmente. Por que parar?” Na época em que decidimos, até as pessoas próximas ficaram assustadas. “Mas e aí, e agora, e o padrão de vida?” Tudo isso que se construiu em volta da gente é consequência da música. Ela não pode vir porque existe uma demanda de um “padrão de vida” ou porque “existe potencial de mercado pra isso, então vamos fazer”. Acho maravilhoso que a gente conseguiu sentar e discutir: “Então, vamos parar agora”. E realmente pode ser que a gente volte, eu não sei. Ninguém falou “Não, nunca mais”. A gente se ama, é maravilhoso. Tem sido bom ter parado, foi a decisão certa, que me deu oportunidade de eu fazer tudo isso, sair do Brasil. O Marcelo fez vários discos...

Por isso que foi difícil parar. Afinal, normal é querer continuar o que está dando certo comercialmente. Mas a gente falou: “Não está na hora de fazer outro disco. Não vai rolar. Então, não vamos fazer”. As coisas fundamentais são claras e simples. O que está em volta é que complica. Mas, quando a coisa é fundamental, é assim: “Tá a fim? Não. Então não”.

E a relação com o Marcelo Camelo? Você acompanha o trabalho dele, acha que ele só poderia ter tomado aquela direção artística?
O amigo e o artista não têm diferença pra mim. Ele é como se fosse família, um irmão. A gente cresceu e aprendeu a ser adulto junto. Digo que grande parte de eu ter virado compositor era de ver o Marcelo compondo e querendo fazer parte de um diálogo com ele. Realmente, nossas músicas não apontam pro mesmo lugar. Elas se cruzam, um contando histórias ou apresentando uma coisa para o outro. Isso me ajudou muito a achar um lugar próprio de escrever.

Assim como cobraram muito o Camelo, parece que esperam muito de você também.
Toda vez que falam isso, eu puxo de um lado do ouvido e jogo fora. Ainda bem, é um bom sinal, tomo como elogio. Tá esperando muito? Ótimo. Se estivesse esperando pouco, quer dizer que preciso mesmo me esforçar e fazer o melhor para tentar surpreender.

Está pronto para corresponder à expectativa?
O que esperam, não tem problema! Eu não quero deixar ninguém triste. Eu quero tocar! Tocar as pessoas! E talvez isso leve, com sorte, a alguma lágrima. Mas, se você se emociona, é porque talvez entrou em contato com algo seu que estava sufocado dentro. Alguma coisa que deve ser trabalhada, pensada, dita. E isso leva à alegria, a se sentir mais inteiro, a ser uma pessoa mais feliz. Tristeza é fechar as portas, se negar, se esconder, ter medo.

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