Edição 87 - Dezembro de 2013

Exclusivo: as confissões finais de Charles Manson, o mais infame psicopata vivo

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por Erik Hedegaard | Tradução: Ligia Fonseca


Manson acorda cedo, deixa a cela cinza de concreto, toma café da manhã, pega uma marmita de almoço, volta, tira um cochilo, almoça, tira outro cochilo e caminha. Às vezes, joga uma partida de xadrez, depois vai jantar e tem de voltar à cela às 20h45. Não tem horário específico para apagar a luz. “Gosto da minha cela”, diz. “É meu céu na Terra. Sabe, meu melhor amigo está naquela cela. Estou lá. Gosto disso.”

Mesmo assim, ele se preocupa constantemente com o sistema de ventilação do presídio e jura que o ar o está matando. Tem medo de que os guardas coloquem lixo em seus sapatos só para zoar. Diz que sempre tem de estar em alerta máximo. Nunca ficou junto com outros presos, está sempre em algum tipo de unidade de abrigo protetor, onde supostamente é mais difícil os outros entrarem em contato com ele. Ainda assim, em 1984, em uma outra penitenciária, um homem o encharcou de removedor de tinta e botou fogo em sua cabeça. Agora, ele tem apenas 15 prisioneiros com os quais convive, entre eles Juan Corona, que matou 25 pessoas em 1971; Dana Ewell, que encomendou o assassinato da própria família, em 1992; Phillip Garrido, estuprador que raptou Jaycee Lee Dugard, na época com 11 anos, e a manteve refém por 18 anos; e Mikhail Markhasev, condenado por matar o filho de Bill Cosby, Ennis. Até o momento, parecem se dar bem.

Manson não vê muita TV. Toca violão e, às vezes, oferece dicas musicais ao colega violonista Corona, também um assassino em série. Ouviria um disco antigo do Doors ou do Jefferson Airplane se conseguisse descobrir como o CD player funciona. Às vezes, tem de deixar a cela enquanto cães farejadores procuram contrabando; durante uma visita recente, eles não encontraram nada, mas deixaram um “presentinho” no chão, divertindo Manson. Ele recebe milhares de cartas por ano, mais do que qualquer outro prisioneiro. De vez em quando, manda autógrafos assinados com a frase “O líder do culto hippie me fez fazer isto”. Durante o tempo atrás das grades, cometeu 108 infrações. Na última, em 2011, foi flagrado com uma “arma fabricada por presidiário” – neste caso, uma haste de óculos afiada – e jogado na solitária por um ano.

No final da tarde, Manson vai até a parede onde ficam os telefones. Suas ligações são gravadas, mas ele pode ligar à vontade, somente a cobrar, 15 minutos por vez. E ele faz muitas. Sei disso, porque as recebo há meses. Ele me liga quando estou no cinema, quando estou dirigindo, quando estou em festas, quando ando com meus cachorros no parque, quando estou em qualquer lugar onde ele nunca mais estará. Quer discutir o meio ambiente – “o fim está a caminho, garotão” – e o que deve ser feito com relação a isso. Uma vez, enquanto me falava sobre o bem de matar para conseguir mais ar, disse: “Quem é morto, esta é a vontade de Deus. Sem matar, não temos chance”. Fez uma pausa, e continuou: “Você pode querer não escrever isso e falar para si mesmo ‘Como isso pode funcionar para mim?’.” Na época, não dei bola. Demorei um tempo para absorver o que ele estava sugerindo.

Às vezes, Manson parece solitário. Depois, tenta me atrair. Mudo de assunto, como é necessário fazer de vez em quando com ele, rispidamente, sem gentilezas, e digo que estou com urticária. Ele se anima e me aconselha a lavar as bolhas com vinagre de maçã. Depois, fica irritado com algo e grita: “Sou um fora-da-lei, um gângster, um rebelde e não dou tiro de advertência”. Isso me faz sorrir, porque é uma coisa bastante cômica para dizer sobre si mesmo.

Você pode não querer saber sobre a vida sexual dele, mas ele conta mesmo assim. “Você acha que sou velho demais para me masturbar. Pensa: ‘É velho demais para transar com o travesseiro’, só que não sou. Ainda sou ativo com meu cano. Eu ainda sou eu.”

Ele reserva uma boa dose de veneno para Bugliosi. “Ele sabe que sou estúpido demais para me envolver em algo da magnitude de ‘Helter Skelter’. Então, como conseguiu se convencer disso por todos estes anos? Ganhou dinheiro, ganhou o caso. É um vencedor! Um gênio! Tomou 45 anos da vida de um homem para satisfazer a ganância, e vai para o leito de morte com isso na consciência? Não há nenhuma honra nele?”

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