Fora da Sombra

Ao entrar de cabeça na música, Sean Lennon aprendeu a carregar o peso da vida

David Fricke | Tradução: Ligia Fonseca Publicado em 13/06/2014, às 10h45 - Atualizado às 16h20

<b>TAL PAI</b><br>
Sean Lennon, em retrato feito em Nova York.
Richard Burbridge

Sean lennon mora em uma casa de tijolos vermelhos, em Lower Manhattan, que reflete a vida dele na música. As salas de estar e jantar são um caos combinado de guitarras estranhas, instrumentos de percussão exóticos, antigos equipamentos analógicos de estúdio e teclados esquisitos, como um Mellotron branco. Lennon toca a maioria desses instrumentos no The Ghost of a Saber Tooth Tiger, banda que tem com a namorada, Charlotte Kemp Muhl. Eles gravaram aqui boa parte do novo álbum, o sedutor e psicodélico Midnight Sun. No andar de baixo, uma cozinha serve de escritório para a Chimera Music, gravadora fundada em 2008 por Lennon com Charlotte e a amiga Yuka Honda, para lançar as próprias músicas e as de colegas e parentes, como a mãe dele, Yoko Ono.

“É assim que trabalho – com amigos”, diz Lennon, em uma voz clara e rápida, tomando café na cozinha. “Até os melhores artistas se beneficiam da proximidade com os outros. Isso se aplica a Thomas Edison e Nikola Tesla. E também a Paul [McCartney], George [Harrison] e meu pai. Precisamos estar perto de gente que pensa do mesmo jeito.”

Essa referência a “meu pai” (John Lennon) é característica de Sean: afetuosa, sincera, mas específica, aludindo a uma relação mais pessoal e valiosa do que qualquer fã de Beatles possa imaginar. “Ele assumiu um grande risco ao se tornar músico”, diz Yoko, sobre o filho. “Achei que deveria ser um arqueólogo ou algo assim, que ele encontraria paz naquilo, mas mergulhou na música, e é extremamente forte por causa da incrível pressão de ser ‘filho de’.”

Lennon completa 39 anos em 9 de outubro, também aniversário do pai – e trabalhou como músico durante metade da vida. Silenciosamente, construiu uma discografia de variedade excêntrica e elaboração determinada, incluindo dois LPs solo, os discos do Ghost com Charlotte, trilhas para filmes, trabalhos em sessões, produções e colaborações com Marianne Faithfull e Flaming Lips.

Charlotte, de 26 anos, tem uma carreira paralela bem-sucedida como modelo. Era uma aspirante a compositora quando conheceu Lennon no festival Coachella em 2005. “Não sabia muito sobre a linhagem dele”, admite. Ela vem de um mundo completamente diferente: de família católica, republicana, militar. A ideia de formar uma banda foi de Lennon, assim que ouviu as músicas e a voz infantil espectral de Charlotte. Hoje, ele relembra a estreia Into the Sun (1998) com um sorriso e um arrepio. “Os anos 1990 foram meus anos 1960”, diz. Em 1996, tocou com Yoko no primeiro Tibetan Freedom Concert, ao lado de Sonic Youth, Beck e Beastie Boys. Os Beasties lançaram o disco de Lennon pela gravadora deles, a Grand Royal. Ele também cita a primeira crítica maldosa sobre o álbum. “Foi um banho de água fria. Tive de aceitar que, para uma determinada área da população, sou só um gatilho para a lembrança do meu pai.”

Apesar de toda a pressão, Sean diz ter saído intacto das tentações da juventude. “Todos com quem cresci foram parar no Alcoólatras Anônimos – eu não. Só gosto de beber e me divertir.” Ele conta que não fuma mais cigarros nem maconha.

Quanto a drogas pesadas, explica que não é a dele: “Badalei muito, mas nunca tive de ir longe demais com a coisa toda”.

Lennon se mostra forte, mas ainda está trabalhando para reparar o acolhimento doméstico e a segurança estilhaçados pela morte do pai. Charlotte ri e diz que ele tem mostrado sinais de querer ter filhos o quanto antes. “Ele teve uma vida incrível em família. Então, isso foi arrancado.” Ela crê que a Chimera Music é o modo de Lennon tentar criar uma sensação de família novamente. Yoko concorda. “Ele sente falta de uma família. Depois da morte de John, eu estava muito ocupada”, conta. Ela se lembra da impressão que teve quando ele disse que estava formando uma gravadora: “Achei aquilo muito Lennon”.

Sobre a Chimera, Lennon deixa claro que se trata de “uma empresa pequena”. “Vendemos tudo no meu porão. Tive o privilégio de abri-la porque tenho uma poupança, como Kyoko [ filha de Yoko do casamento anterior] e Julian [primeiro filho de John].” Mas diz que o selo vai fechar as portas se não equilibrar as contas. Ele e Charlotte usam o dinheiro que ganham – ele, com trilhas sonoras, incluindo um anúncio para a escuderia Honda; ela com sessões de fotos e um contrato com a marca de cosméticos Maybelline – para financiar lançamentos, como um recente LP triplo de improvisações de Yoko, Thurston Moore e Kim Gordon. “O que mais vou fazer? Ser advogado ou corretor da bolsa?”, ele questiona-se, soando frustrado. “Venho de uma família de artistas. Acho que minha obra falará por si mesma. Um dia, tudo fará sentido”, ele diz. “Tenho fé cega nisso.”