Edição 93 - Junho de 2014

Pitty - Entrevista RS

Após um ano intenso de mudanças internas e externas, ela converte perdas e ganhos em novo disco e abraça a segurança da maturidade
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por Mariana Tramontina

Pitty está dançando sem sair do lugar. Sentada de pernas cruzadas no sofá do duplex onde mora, em São Paulo, ela segura uma taça de vinho e cantarola os versos de “This Charming Man”, do The Smiths, enquanto o vinil gira na vitrola. Naquela noite chuvosa de fim de maio, a cantora parece tranquila. “Tô em paz com muitas coisas, e é bom isso”, ela diz. “A gente gasta muita energia quando é jovem. Agora não penso muito a longo prazo, porque a vida vai te arrebatando. ‘Go with the flow’.”

Perfil: eternamente preocupada com a influência nociva da fama, Pitty já consegue aproveitar as vantagens de ser célebre.

A semana anterior marcava o início de uma nova fase para a carreira de Pitty. Entre 2011 e 2013, ela mergulhou no mundo paralelo do Agridoce, projeto com o guitarrista Martin Mendonça. As canções da dupla, baseadas em voz, piano e violão, chamaram a atenção de quem antes encaixava a artista na prateleira do “rock juvenil”. “Gerou uma curiosidade. Muita gente que nunca tinha falado do meu trabalho falou”, ela diz. “Existia uma relutância porque é feio dizer que gosta de Pitty. Eu entendo, o ser humano é assim mesmo. Mas acho massa quando o tempo vai passando e essas pessoas vão quebrando os preconceitos e saem do ‘não ouvi e não gostei’.”

A boa recepção ao Agridoce abriu as portas para SETEVIDAS, o primeiro disco de rock de Pitty em cinco anos. Sobre as bases tradicionais de guitarras, ela se sentiu à vontade para experimentar e vencer a autocensura de investir, por exemplo, em elementos de percussão. O recém-lançado trabalho encontra a cantora em um momento peculiar não só artisticamente mas também na vida pessoal. Prestes a completar 37 anos – ela faz aniversário em 7 de outubro –, Priscilla Novaes Leone se viu resignada após um período turbulento em 2013. Desde a morte do amigo Peu Sousa (ex-guitarrista da banda que a acompanha, que cometeu suicídio em maio de 2013) e do ídolo Lou Reed, passando por um período na UTI por causa de uma disfunção hormonal e culminando com a despedida turbulenta do baixista Joe Gomes, que moveu um processo judicial contra ela, tudo foi transformado em música. “A vida segue”, resume Pitty, nascida em Salvador e moradora de São Paulo há 11 anos.

Enquanto o marido, Daniel Weksler, baterista do NX Zero, viaja em turnê, ela divide o apartamento com os gatos Billie (um presente da escritora Clara Averbuck) e Charlie – a gata Nêga, que aparece na capa de SETEVIDAS, morreu poucos dias depois das sessões de fotos para o álbum. Foi na casa onde hoje está “tudo o que interessa” que Pitty falou do novo trabalho, da descoberta do próprio lado feminino e das superações que, atreladas à maturidade, deram a ela a segurança para se sentir confortável como mulher e artista.

Você se despediu do Agridoce em junho de 2013 e ficou dez meses longe da vida pública. O que fez durante esse tempo?
A gente acabou as coisas do Agridoce e eu entrei nessa bolha do novo disco. Fui escrevendo, com calma, sem pressão, sentindo o momento. E aí chegou a hora em que eu falei: “É agora! Preciso!” Precisar é o verbo, né? Como a gente não tinha prazo para lançar, deu para fazer tudo com bastante calma.

Disco de estreia da Pitty, Admirável Chip Novo completa 10 anos e ganha lançamento em vinil.

Conseguiu experimentar novos elementos na produção de SETEVIDAS?
A gente gravou um monte de textura, guitarras, agogô, caxixi, percussão. Usei umas coisas que nunca tinha usado. Eu tinha receio de experimentar com percussão. Acho que, por causa da minha herança, por eu ser da Bahia também, tinha medo de ficar caricato. Já vi muita gente colocar percussão no rock e não ficar legal.

Você tinha medo de te depreciarem por isso?
Não, não era por causa dos outros. Era por mim. Eu não tinha muita certeza. Tinha medo de não saber a medida. E tinha um pouco de trauma também, vi muita gente tentar e ficar estranho, aquela coisa meio de som para turista, forçada, tipo querendo tacar uma cuíca no rock, sabe? Acho que tudo tem medida. Música é alquimia, é culinária, é o tanto de cada tempero que você põe, então não sabia se eu tinha a medida. Acho que ainda não tenho, só botei a carinha bem tímida nisso.

Ouça “Setevidas”, primeiro música do novo disco de Pitty a ser revelada.

Do Agridoce para cá, você diria que se descobriu diferente?
Eu aprendi pra caralho. Descobri uma pessoa que eu não conhecia em mim. Aquela instrumentista, aquela compositora, aquela persona que é tão diferente de mim e, ao mesmo tempo, me completa.

Uma coisa meio yin-yang. Eu tocava piano para mim, mas transformar isso numa coisa para compartilhar com os outros é diferente. Nunca podia imaginar que um dia... “Ah, você vai subir e tocar piano no palco.” Ahn? Tá louco? Nunca!

Por que a insegurança?
Eu achava que não iria conseguir. Tecnicamente. Cantar e tocar [ao mesmo tempo] é difícil. Mas às vezes você nem precisa ter técnica. Se existe uma intuição para a coisa, você tira um som. Meu professor de piano falava isso: “Eu posso te ensinar teoria, a música. Musicalidade ou você nasce com ou você nasce sem”. A pessoa sabe a matemática, porque música é matemática, né? Você decora ali a casa, conta, sabe que meio tom vem para cá, duas casinhas é um tom – a matemática é uma coisa racional. Então, quando ele me disse isso eu passei a confiar, a ter coragem. Tipo: “Beleza, eu não sei a técnica disso, mas, se eu tiro um som e está gostoso, pronto”. E foi bom inclusive para a minha banda, me deu outra percepção de mim como artista.

Você reflete sobre essa questão da exposição?
Procuro sempre discutir e entender isso. Porque é muito louco que eu tenha uma profissão na qual eu me sinto, em alguns momentos, completamente inadequada. Eu não sei lidar com essa história de ser celebridade. Não sou celebridade – sou uma cantora, uma artista, tenho uma banda de rock. E não tem como fugir, porque se você quer ser popular e quer que todo mundo te conheça, vai acabar acontecendo isso [de se tornar celebridade] de alguma forma. Eu, no palco, sou muito livre, não tenho nenhum incômodo, e com meus amigos é assim também. Mas, se eu entro em um restaurante e fica todo mundo olhando para mim, morro de vergonha. Não sei lidar. E nem sou tímida, só não gosto de ser observada.

Você se considera feminista?
Eu descobri que sou feminista. Não é uma coisa que você decide: “Acordei, a partir de agora sou feminista”. Entendi que eu era a partir do momento em que comecei a ler alguns textos feministas e me identifiquei. Eu já pensava assim antes, mas não sabia que era feminismo, não tinha essa nomenclatura. Para mim, hoje é muito mais fácil ser mulher, afirmar minha feminilidade. Antes era aquela coisa de você chegar e a primeira pergunta que nego te faz é: “Quando você vai posar para a Playboy?” Oi? Eu estou lançando um disco! Só porque sou mulher? Toda mulher que se destaca, em qualquer área, a primeira pergunta que se faz é: “Quando você vai ficar nua para mim, meu amor?”

Ouça “Seu Tipo”, nova música de Fernanda Takai, com participação de Pitty.

O Agridoce foi uma busca por novos sentidos?
Não, porque eu não precisava fazer uma coisa nova. Aconteceu e eu abracei. Pintou e eu dei passagem, respeitei, porque estava surgindo. Sem compromisso, nada planejado. Quando o Rafael [Ramos, produtor de todos os discos dela] falou pra gente gravar, eu falei “não”. Depois, pensei: “Por que não?”

Você se questiona muito?
O tempo todo. O exercício é quebrar os meus “nãos”. Às vezes rola uma autocensura. Geralmente é uma influência externa e aí eu barro, porque não acho justo. Quando é a gente com a gente mesmo, tudo bem. Mas, quando é do outro, aí não é para ser. É aí que eu acho que é hora de olhar e questionar: “Peraí, deixa eu ver de onde está vindo isso. Isso é o que eu estou achando que as pessoas estão pensando ou é realmente o que eu mesma estou achando?” Ou: “Esse ‘não’ não é meu, é o ‘não’ externo. E foda-se para o ‘não’ externo”. Porque senão você não faz nada. E eu quero fazer tudo. Acho que esse é o caminho, ficar livre um dia. Acho que só quem é louco consegue, no sentido de ter menos racionalidade. A gente vive em sociedade, o olhar do outro é foda.

E como você faz no palco? Lá você é a estrela, estão todos olhando na sua direção.
Mas, ali, fui eu que escolhi. O palco é diferente, é meu santuário, é minha missa. Ali eu sou pastora daquela igreja muito doida. É diferente de você estar na vida real. Na vida cotidiana eu sou só uma
pessoa, e gosto de ser só uma pessoa. Eu preservo muito minha vida pessoal, porque não quero que minha vida vire um circo, não acho legal. Mas participo de reunião de condomínio, gosto de tomar um café ali na esquina – e, se ficam me olhando, não sei o que fazer. É muito doido.

E como você faz no palco? Lá você é a estrela, estão todos olhando na sua direção.
Mas, ali, fui eu que escolhi. O palco é diferente, é meu santuário, é minha missa. Ali eu sou pastora daquela igreja muito doida. É diferente de você estar na vida real. Na vida cotidiana eu sou só uma
pessoa, e gosto de ser só uma pessoa. Eu preservo muito minha vida pessoal, porque não quero que minha vida vire um circo, não acho legal. Mas participo de reunião de condomínio, gosto de tomar um café ali na esquina – e, se ficam me olhando, não sei o que fazer. É muito doido.

A Pitty é um personagem no palco?
Não, não dá. No palco, sou mais eu [que em qualquer outro lugar]. A gente é feito de personas. Todo mundo tem várias personas. Você tem a persona do seu trabalho, a persona com seu marido, com sua família. Ainda estou tentando entender e relaxar, porque se eu quero fazer isso da minha vida – e eu quero – então eu tenho que aprender a ficar relax com essa outra parte [que vem com a profissão], sabe? Tenho que descobrir um jeito de ficar confortável, e acho que estou indo nessa direção, acho que estou melhorando. Piorando não está! [risos]

Já viu sua vida exposta de alguma forma que você não gostou?
Ah, não lembro agora, mas já devo ter visto, sim, claro. Não lembro de nada pontual.

Então, você não deve guardar rancor.
Não! Não guardo. Pra quê? O lance é que eu sou muito sincera, e às vezes me meto em certas confusões porque falo as coisas. Não gosto de jogo duplo, de ficar fazendo média. Falo do melhor jeito possível, mas falo. Às vezes as pessoas não acham bom, porque se posicionar é, sei lá, grosseria. E só estou dizendo que disso eu não gostei, desculpa. Mas acho que faz parte. Acho que hoje, depois de tanto tempo, as coisas estão mais claras, as pessoas já sabem como eu sou. O tempo vai ajeitando.

E essas conclusões vieram de terapia ou da maturidade?
Rapaz, isso é psicanálise! [risos] Acho que é uma mistura dos dois, mas acho que é mais da psicanálise.

Tem alguém em quem você se espelhe artisticamente?
Tem vários artistas que eu admiro. De escrita, a Patti Smith. De banda, Queens of the Stone Age. De cinema, [Quentin] Tarantino. Cada um num canto. Mas não me espelho, porque não quero ser ninguém além de mim. Acho muitas pessoas incríveis nas suas coisas, mas eu não queria ser essas pessoas. Quero aprender com elas e me inspirar. Não queria ser outra pessoa, mas ainda acho que posso ser uma pessoa melhor, agregando valor ao camarote [risos]. Eu acho o Mike Patton, por exemplo, muito genial. Para mim, que sou vocalista, ele é foda. O jeito que ele usa a voz como o instrumento dele...

Você encontra mais inspiração em figuras masculinas?
Eu já me inspirei mais em homem cantor, porque acho que minha relação com o feminino foi vindo. Para fazer as coisas que eu faço e para ter a liberdade que eu queria ter, um homem era sempre meu modelo. Com o passar do tempo acho que fui me identificando mais com o feminino, fui aprendendo a ser mulher – e gostando. Isso é muito louco. Hoje, sou totalmente confortável em ser mulher. Eu me sentia desconfortável quando era muito jovem, no começo da primeira banda [Inkoma], no meio do hardcore: o machismo rolando loucamente, você tentando fazer uma coisa ali no palco e sendo chamada de gostosa.

Te incomodava ser chamada de gostosa?
Me limitava. É bom ser gostosa, mas você não quer ser só a gostosa. Você quer ser, enfim, a escritora, a jornalista, a cantora... e gostosa [risos]. É um adendo, mas não é o principal. E aí eu tinha uma onda de negar a feminilidade para me impor naquele meio que era completamente masculino, de pegar pesado para me defender. Com o tempo eu fui relaxando, de alguns anos para cá. Acho que do Anacrônico [2005] para cá. Agora, sou totalmente confortável. Sou mais feminina hoje. Eu era um moleque, não depilava as pernas, era contra tudo [risos].

Era um temor virar mulher-objeto?
Acho que você se deixa objetificar. A tendência do machismo é essa, porque uma coisa é mais fácil de
você manipular do que uma pessoa. É bom para o machismo te objetificar, mesmo quando está disfarçado de liberdade. Tem muita mulher machista também, mas não é culpa delas. A gente é criada
por um sistema machista. Eu já fui machista, no sentido de reprimir as minhas amigas e minhas “irmãs-mulheres”, achando que isso era uma coisa boa, que eu estava zelando por nós. E não era uma
coisa boa. Era só repressão, no final das contas.

Como é sua vaidade hoje em dia?
Fui ficando mais vaidosa. Antes a minha vaidade não tinha tanto a ver com estética. Antes era vaidade
moral, de honra. Hoje tem as duas. Eu gosto de me olhar e de me achar bonita.

Você é uma boa companhia para si mesma?
Muito! Gosto muito de ficar sozinha. Às vezes até me policio para não ficar tão sozinha. Eu tenho tendência de ficar aqui no meu mundinho tomando um vinho, ouvindo um som, vendo um filme. Fiquei caseira, e acho que você é caseiro quando você tem sua própria casa. Quando você está na casa dos seus pais ou quando é mais novo, você não quer ficar em casa, quer ir para a rua, quer ver a vida lá fora. Hoje, para eu sair tem que ter um ótimo motivo. Tenho minha casa e minhas coisas estão aqui, as coisas que me interessam agora. Mesmo porque São Paulo está muito cara – você sai à noite e gasta 200 contos fácil.

Como você resume seu último ano?
Foi um ano de mudanças, internas e externas. Eu me apeguei a simbolismos, de que para se transformar em ouro você tem que passar por outras fases. Foi um processo dolorido, um monte de perdas, e de ganhos também. Acho que toda morte, real ou metafórica, é
um renascimento.

Está falando da morte do Peu?
Isso também. Mexeu muito comigo, porque foi inesperado. Eu nunca poderia imaginar, pela personalidade dele, não era o tipo... e eu tinha acabado de sair do hospital, foi tudo junto.

Você ficou na UTI por uma semana. Por quê?
Fui internada por causa de uma disfunção hormonal. E tudo isso tem a ver com o disco, um reflexo do último ano. O “voltei” que falo na música “Setevidas”, por exemplo, as pessoas acham que é porque eu voltei para a música, mas não é, eu voltei porque eu estou viva. Foi um ano que mudou minha vida. Sinto que sou outra pessoa. Você pensa: “A vida é assim, temos que passar por ela”. O bom é transformar o ruim em bom, porque não em jeito. Qual a opção? Virar uma pessoa amarga, deprimida? Não quero. Quero transformar tudo o que é ruim em trampolim. Dor tem para todo mundo. O que você faz com o que te acontece? Como você usa? Eu sempre fui muito cética e niilista, e no final essas coisas me trouxeram uma coisa positiva. É bizarro que tenha vindo por meio de tanta coisa ruim. O disco conta essa história. Fiz pensando em contar como em capítulos de um livro, e [a música] “Serpente” é o final da história, do livro, do aprendizado.

Depois de tudo que passou na vida [inclusive um aborto, em 2008], você consegue se ver como mãe de família?
Vejo, mas eu sempre fui muito desapegada de família. O Dani é minha família, ele é meu equilíbrio, me trouxe estabilidade. Ele, apesar de ser nove anos mais novo que eu, me trouxe essa coisa da
casa. Ele é a casa, mesmo quando não está. Então, eu penso em ter filhos, em conviver em família. Se vai acontecer, não sei, mas eu penso. Acho que é uma coisa massa da vida, que se acontecer é massa, mas se não acontecer tudo bem também. Tem que ir vivendo e vendo. Eu me vejo mãe, por que não? Às vezes quero mais, às vezes quero menos. Estou muito tranquila em relação a isso. Agora, estou pensando mesmo é no meu disco.

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