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Boogie Naipe

Mano Brown

Boogie Naipe Boogie Naipe/One RPM.
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por Lucas Brêda
20 de Dezembro de 2016
Em mais de 11 minutos, a faixa “Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”, clássico de Sobrevivendo no Inferno (1997, Racionais MC’s) só muda a batida em uma situação: para agravar a dramaticidade da história rimada por Mano Brown. Pedro Paulo Soares Pereira se consagrou como rapper ao versar, com a linguagem das ruas, sobre personagens complexos e intensos. É nessa lógica que ele se apoia em sua aguardada estreia solo, um trabalho conceitual centrado na paixão do artista pela black music que era feita uns 30, 40 anos atrás.

Brown, um homem glorificado pela destreza com as palavras, aparece se aventurando por dinâmicas sonoras diversas, fundindo vozes, batidas e melodias. Ele tem ajuda do onipresente Lino Krizz (ex-integrante da dupla Os Metralhas e backing vocal dos Racionais), além de Seu Jorge, Ellen Oléria, Hyldon e até do ídolo Leon Ware (antigo colaborador de Marvin Gaye), todos revezando refrãos e fraseados vocais em meio a raps e algumas desengonçadas investidas harmônicas de Brown. Nomes como Don Pixote, DJ Cia (RZO), William Magalhães, Dado Tristão, Carlos Dafé e Mara Nascimento também contribuem. O cenário é o baile black e tudo que o envolve: “mulheres elétricas’’, danças embaladas por Michael Jackson, paixões impossíveis e o sentimento de solidão em uma multidão. Musicalmente, há referências às baladas de Marvin Gaye e ao balanço de Jorge Ben Jor, com acenos ao soul de Tim Maia e ao romantismo de Guilherme Arantes. E, mesmo tendo o passado como alicerce, há espaço para experimentos (“Nova Jerusalém”) e texturas que dialogam com discos celebrados deste ano, de Malibu, de Anderson Paak, a Remonta, de Liniker, bem como vinhetas que remetem à estrutura de To Pimp a Butterfl y (Kendrick Lamar, 2015).

Brown rima pouco e com precisão, encaixando com cuidado perceptível a agressividade e a abordagem gangsta inatas do seu hip-hop no Boogie Malandro do trabalho. É bem verdade que nenhuma letra do álbum se sustenta como as de Nada como Um Dia Após o Outro Dia (2002, Racionais), por exemplo. No entanto, o rapper nunca se expôs com uma musicalidade tão aflorada. E nunca expressou tanto falando tão pouco. Arriscando, o maior MC do nosso hip-hop volta não para sabotar nosso raciocínio mas para se entregar às paixões musicais, às frustrações e esperanças de uma pista de dança – que, pelo menos por uma noite, pode ser a coisa mais importante da vida de alguém.