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Cores e Valores

Racionais Mcs

Cores e Valores Cosa Nostra/Boogie Naipe
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por Marcos Lauro
26 de Dezembro de 2014
O sample de “gonna fly now”, tema principal do filme Rocky – Um Lutador (1976), na faixa “Quanto Vale o Show”, já indicava: o Racionais MC’s estava se apresentando para a luta depois de permanecer 12 anos rodando pelos palcos sem lançar um trabalho de inéditas. Com produção de Mano Brown e DJ Cia, que é do grupo RZO, mas já acompanha o quarteto há alguns anos, a música foi lançada em 18 de novembro na internet, com sample da voz de Silvio Santos e Brown versando sobre a vida nos anos 1980 e a entrada dele no mundo do rap.

Dias depois, à meia-noite de 25 de novembro, o Racionais entrou no ringue de forma completa, com um disco cheio, batizado de Cores e Valores . Nas 15 faixas, pouco se vê do Racionais da década passada, do tempo de Nada como Um Dia Após o Outro Dia (2002). A batalha agora é diferente. Naquela época não existiam Emicida, Rashid, Projota, ConeCrew Diretoria e toda essa nova geração do rap que movimenta a cena com um discurso mais inclusivo (o inimigo não é mais o “playboy”) e com um perfil mais moderno e conectado. E o Racionais, mesmo ainda sendo maior do que qualquer um deles, precisava se renovar, para o desespero dos fãs mais xiitas, que, minutos depois do lançamento do disco, já reclamavam até da duração das faixas de Cores e Valores – a mais longa delas, “O Mau e o Bem”, tem cerca de quatro minutos e meio.

O Racionais trocou o ataque anterior de letras e faixas longas pelo golpe rápido e direto. Quando você percebe, já foi. Uma espécie de blitzkrieg de um exército de mais de 50 mil manos. É assim na introdução, que aparece fatiada pelas cinco primeiras faixas do disco. Aqui, assim como fizeram com a gíria “vida loca” no disco anterior, eles tentam fixar “cores e valores” na mente do ouvinte – termo que já é conhecido para quem frequenta os shows do grupo.

As narrativas e as crônicas, tão fortes no trabalho do Racionais, não parecem prejudicadas por essa curta duração das faixas. Vide a já citada “Quanto Vale o Show” e, especialmente, o bloco de três músicas cantadas por Edi Rock. Na primeira delas, “A Escolha Que Eu Fiz”, um ladrão sente na pele as consequências do caminho que trilhou; “A Praça” discursa sobre o show do Racionais na Virada Cultural de 2007, na Praça da Sé, quando a performance foi interrompida pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar e o local virou uma praça de guerra; “O Mau e o Bem” encerra a trilogia com a mesma temática de “Quanto Vale o Show”, usando a história de vida, a entrada e a evolução no rap como base dos versos.

Cores e Valores teve nove produtores no total, fazendo deste o trabalho mais coletivo já realizado pelos rappers até o momento. Talvez essa inclusão de mais pessoas no processo, que até então era bastante fechado, tenha ajudado na mudança de ares. A masterização e a mixagem do material gravado no Capão Redondo, em São Paulo, foram feitas em Nova York, em um processo chamado por KL Jay de “aprendizagem”. E, se o disco começa com luta, termina com amor. “Eu Te Proponho” lembra o trabalho solo de Mano Brown, mais melódico, mais soul e menos rap. E o sample que encerra a faixa e o disco é de “Castiçal” (1973), do soulman pioneiro Cassiano. Isso serve para lembrar que, apesar das inevitáveis mudanças e das esperadas novidades, as raízes do Racionais MC’s ainda são as mesmas.