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Remonta

Liniker e os Caramelows

Remonta Independente
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por Gabriel Nunes
19 de Outubro de 2016
Segundo o dicionário, remontar significa recuar ao passado, consertar algo, elevar-se muito. Pautada nessa tríade de significados, Liniker é categórica ao usar o verbo no imperativo para nomear o primeiro disco junto à banda Os Caramelows: é necessário recordar; é imprescindível remendar antigas feridas; e, acima de tudo, é fundamental se empoderar.

Oriunda de Araraquara, Liniker radicou-se em Santo André, em 2014, para estudar teatro e se encontrar artisticamente, o que acabou ocorrendo por meio da música. Nesse ínterim nasceu o EP Cru (2015), preâmbulo que culminaria em Remonta. Ao apresentar as faixas “Zero”, “Louise du Brésil” e “Caeu” – que constam sob novas roupagens no debute cheio–, o registro, de pouco menos de 15 minutos, firmou uma base de fãs e apontou o nome de Liniker como revelação da nova MPB. Da tímida e modesta primeira incursão musical às incansáveis performances pelo Brasil, Liniker se fez ouvir. Seja pelo carisma e potência sobre os palcos, seja pela honestidade das composições, que se insinuam nos ouvidos como confissões à flor da pele. É sobre esse tom confessional que Remonta foi arquitetado.

Com o repertório formado por canções que começaram a ser esboçadas quando Liniker tinha 16 anos, a cantora (hoje com 21) debruça-se sobre o passado e recorda a irremediável perda da inocência. Porém, o que se observa não são as reticências de um rancor mal resolvido, mas sim o riso confiante de quem driblou os contratempos. “Já não quero mais saber de trela dessa novela, preciso mesmo é remontar!”, vocifera Liniker em um fraseado jazzístico na música-título.

Em “Prendedor de Varal”, a banda Os Caramelows acena ao funk sacolejado do Kool & the Gang e aos grandes medalhões da Motown. Ao lado de Xênia França (Aláfia), Liniker aproveita para fazer uma menção a “Chocolate”, de Tim Maia. A influência de Maia ressurge pontual em “Lina X”, que faz sangrar a veia mais dançante de Liniker e os Caramelows. No entanto, Remonta também brilha em momentos introspectivos, quando a vitalidade rítmica dá lugar ao lirismo confessional. É o caso de “Sem Nome, mas com Endereço”, que surge como uma carta de amor nunca enviada.

Remonta é um disco intenso. Um trabalho que traz entranhados o soul, o funk e o R&B norte-americanos, afastando-se do lado mais suave da MPB radiofônica. Mas é, sobretudo, uma confissão a respeito de amor, perda, dor e saudade capaz de bagunçar corações desavisados. Um álbum que transparece, na militância subliminar, que depois da crueza da desconstrução, é necessário remontar.