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Machine Messiah

Sepultura

Machine Messiah Nuclear Blast/Sony
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por Pablo Miyazawa
12 de Janeiro de 2017
Conectado aos dramas dos novos tempos, grupo veterano ostenta peso sem medo de arriscar

Chamar de “eclética” uma banda com 30 anos de estrada pode ofender ou repelir fãs antigos, mas esse nunca foi o caso do Sepultura – e provavelmente jamais será. Nada mais deveria soar estranho aos seguidores de um grupo que já se arriscou em incursões ao som indígena ou que se rendeu duas vezes aos perigos do álbum conceitual. É motivo de orgulho, portanto, o fato de a qualidade do Sepultura atual só depender dos méritos de seus próprios músicos, e não de clichês do gênero, participações especiais ou trucagens de produção. No caso, isso se traduziu em ousar e testar opções dentro de seu nicho sem alienar o público fiel.

De acordo com o guitarrista, Andreas Kisser, Machine Messiah é sobre “a robotização da sociedade”, assunto este que já havia sido resvalado no disco anterior, The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (2013). Questionando a onipresença da tecnologia de maneira direta (“Cyber Gods” e na faixa-título) e indireta (“Phantom Self”), as novas canções soam modernas, agressivas e vão direto ao ponto, como a urgência do tema exige. Machine Messiah tem produção da própria banda e do sueco Jens Bogren. Mas há mais texturas para se prestar atenção: violinos, metais, percussões brasileiras e solos melódicos dobrados, além de incursões progressivas, como na instrumental “Iceberg Dances”, com fraseados de violão clássico, sintetizador Moog e órgão Hammond à la Deep Purple.

Dizer que os irmãos Cavalera não fazem falta aqui já é desnecessário. Há tempos o Sepultura descobriu um estilo próprio que independe de Max e Iggor, fazendo uso eficiente da voz de musculatura punk de Derrick Green e, mais recentemente, da vitalidade virtuosa do baterista, Eloy Casagrande. Andreas, por sua vez, exibe disposição e criatividade renovadas nos muitos ri s acumulados em quatro anos sem disco de inéditas. E, seguindo a tradição “sepulturiana”, o álbum traz bônus que reinterpretam faixas distantes do cancioneiro metaleiro – “The Robots”, do Kraftwerk, e o tema do seriado japonês Ultraseven –, que geram estranheza, mas provam que a banda nem sempre se leva a sério. Ainda bem.

Variedade é a palavra-chave para se compreender Machine Messiah. Nenhum momento é rápido ou lento em excesso, e a coesão é evidente mesmo diante de tantas experimentações. Até quando atira para outros lados o Sepultura acerta em algum alvo, resultando em um dos trabalhos mais diversificados e interessantes de uma discografia de 14 álbuns. Que os próximos hiatos sejam tão bem aproveitados.