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Nheengatu

Titãs

Nheengatu Som Livre
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por André Rodrigues
16 de Junho de 2014
O rock brasileiro ainda é capaz de soar abusado, reflexivo e indispensável. Não dá para sair mais satisfeito dessa crônica musical chamada Nheengatu, o 18º álbum do Titãs. Os cinquentões Paulo Miklos, Sérgio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello – remanescentes da formação original de 1982 – sabem que a vida não parece uma festa, por isso voltam ácidos e com um afiado discurso político. Juntamente com as baquetas de Mario Fabre e a produção de Rafael Ramos, o quarteto fez o melhor disco em anos, emendando pancadas rapidíssimas – a maioria das músicas tem menos de três minutos – e dialogando todo o tempo com dois de seus melhores trabalhos, no caso Cabeça Dinossauro (1986), e Titanomaquia (1993). Nheengatu chega depois da turnê em que o Titãs tocou Cabeça Dinossauro na íntegra e de shows em que várias das novas canções foram testadas. A formação atual, com Miklos e Bellotto nas guitarras e Mello e Britto no baixo, foi capaz de criar canções “titânicas”, como “Fardado”, porrada que abre o disco e parece uma versão mais desesperada de “Polícia”. Esses primeiros minutos dão o tom: escutamos berros contra a opressão da Igreja, do Estado e do macho. Assim é em “Senhor”, em que súplicas se empilham até o derradeiro pedido: “O pão nosso de cada dia/ Me dê de graça”. Com “Não Pode”, a aguda estocada é em cima daqueles que lotam o mundo com proibições e interditos morais. Já “Flores pra Ela” narra um homem mandando a mulher calar a boca e chorar no quarto. O Titãs também desce a lenha no ruído provocado pelo blá-blá-blá desinformado comum nas redes sociais em “Fala, Renata”, que culmina com um fantástico grito de “cala essa boca, porra!”

Também há espaço para humor. O cartunista Angeli, o palhaço Hugo Possolo e o guitarrista Emerson Villani ajudam Mello na divertida “República dos Bananas”, que evoca personagens das ruas, usando com graça o lado cronista da banda. Villani também colabora em “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)”, composição de Branco Mello e do diretor teatral Aderbal Freire-Filho, em que há uma redescoberta do país a partir de um novo ponto de vista (“Tem palmeiras, sabiás/ mulatas ainda não”).

Mas não há dúvida de que o núcleo duro de Nheengatu é formado por canções com temáticas pesadas, imagens fortes e uma efervescência política. Isso acontece em “Mensageiro da Desgraça”, com cenas aterradoras, como se o ancestral artista Pieter Bruegel (autor da imagem da capa) pintasse a loucura da boca do lixo de São Paulo. Na mesma toada seguem a niilista “Cadáver sobre Cadáver”, de Paulo Miklos com o ex-titã Arnaldo Antunes, e “Pedofi lia”, talvez a mais complexa e interessante do disco, encarando de frente mais um tabu (“Sou só nojo de mim/ só nojo, por dentro”). Ainda há a colagem “Baião de Dois”, que contribui para a conversa do grupo com outros ritmos do Brasil, e uma linda versão de “Canalha”, do bendito Walter Franco. Para fechar, “Quem São os Animais”, com um inspirado verso que parece ter sido feito ontem à noite: “Te chamam de viado/ de sujo, de incapaz/ Te chamam de macaco/ quem são os animais”. Nheengatu é uma paulada do começo ao fi m.