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Recomeçar

Tim Bernardes

Recomeçar Risco
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por Lucas Brêda
23 de Outubro de 2017
“Não chora mais, vai, por favor”, implora Tim Bernardes, vocalista d’O Terno, na dolorida “Não”, faixa em que consuma um fim tão indesejado quanto implacável de um relacionamento. Sétima das 13 faixas de Recomeçar, primeiro álbum solo dele, a canção é o clímax de uma jornada pouco linear pela confusão de sensações que é tentar entender a falta (não só a física e objetiva, mas a que diz respeito à mente) posterior à quebra de laços com um(a) parceiro(a) de vida.

Depois de três discos elogiados e meia década de carreira com O Terno, Tim Bernardes agora fala não daquilo que lhe interessa, como faz na banda, e sim do que não consegue evitar. A estrutura de canção remete ao Terno, assim como as óbvias influências de Beatles, Mutantes e Clube da Esquina, mas Recomeçar é tão intrinsecamente pessoal que é fácil vê-lo como uma obra completamente destacada do grupo. Não se trata de sobras, menos ainda de um aglutinado de ideias heterogêneas. É um retrato íntimo do artista como ser humano.

Bernardes está em cada canto de Recomeçar – além de compor, também toca quase todos os instrumentos do disco. Liricamente, o músico tem uma capacidade impressionante de encarar sentimentos extremamente desagradáveis (a solidão, a culpa, a negação) com a crueza de frases ordinárias. Atravessando falsetes, vocais simultâneos, gritos e sussurros, ele ainda eleva o nível de drama traçando um jeito de cantar tremido que soa despedaçado como uma versão mais técnica e suave do que fazem Neil Young e J Mascis (Dinosaur Jr.). Bernardes consegue fazer o gancho de “Ela Não Vai Mais Voltar” soar como a expressão mais brutalmente triste e honesta do mundo por alguns segundos.

Quem ouviu “66” – primeiro single d’O Terno, uma canção sobre a dificuldade de escrever de maneira original – em 2012, dificilmente vislumbrou o compositor corajoso e profundamente entregue que seu autor viria a se tornar. Suficientemente independente d’O Terno em todos os aspectos, Recomeçar é uma pérola triste, um filho da obra-prima Lóki? (Arnaldo Baptista), um álbum sobre separação que já nasce com qualidade de “raro”, daqueles tão sentimentalmente densos que podem reabrir feridas em quem ouve – de um jeito bonito e sensível, como só as grandes composições são capazes.