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Sintetizamor

João Donato e Donatinho

Sintetizamor Deck
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por José Flávio Júnior
15 de Julho de 2017
Prestes a completar 83 primaveras, João Donato poderia Viver apenas de sua suculenta discografia. Mas ele tem se deixado levar por uma turma bem mais jovem em projetos de canções inéditas, que agregam à sua lenda pessoal. Se 2016 foi o ano de Donato Elétrico, disco instrumental ao lado de músicos do combo paulistano Bixiga 70, agora o pianista acriano embarca em uma viagem sideral ao lado do filho e produtor Donatinho, com seus sintetizadores e programações eletrônicas.

A diferença de idade entre os dois é de meio século, porém isso não é perceptível no registro. Donato tem o dom de rejuvenescer a cada ano que passa, como se fosse um Benjamin Button da MPB. E Sintetizamor ajuda a sublinhar esse processo de inversão do tempo. Não só pela estética sonora, que casa sons classudos de piano Rhodes e órgão Farfisa com teclados Korg e baixos e baterias programados, mas por permitir que Donato solte a voz em algumas faixas. Miúda e singular, ela só chegou ao microfone por incentivo de amigos e tem o poder de fazer o tempo parar.

“Quem É Quem”, terceira música de Sintetizamor, traz no título o nome do álbum de 1973 que marcou essa virada vocal na carreira do artista. Também menciona iguarias amazônicas de sua infância, como o tucupi e o tacacá, reforçando o aspecto afetuoso do novo registro. Cha-cha-cha intimista, “Vamos Sair à Francesa” é outro momento cintilante com o gogó de Donato em evidência. Os versos safadinhos de Ronaldo Bastos falam em “arranjar um jeito de sair da festa sem deixar ninguém notar” para “mergulhar na surpresa”.

Mas o ápice da travessura é “Clima de Paquera”, parceria de pai e filho que simula uma aproximação entre macho e fêmea – ele, interpretado por Donato; ela, por Julia Bosco. A primeira abordagem que ouvimos é por meio de um recado na secretária eletrônica deixado por ele. Após um flerte fatal, a conclusão também se dá com um recado alvissareiro deixado por ela na secretária dele. E os sons que representam a excitação desse encontro de almas saem dos sintetizadores de Donato com uma volúpia tremenda.

Donatinho brilha especialmente quando libera sua veia Michael Jackson, como em “Interstellar”, escudado por seu cúmplice de timbres oitentistas, Davi Moraes. Mas a missão maior aqui é mesmo prolongar a eterna mágica do Donato pai.