Alice Caymmi respeita e admira o legado familiar, mas não quer ficar presa ao próprio sobrenome

Além da herança, cantora carioca quer trilhar o próprio caminho

José Julio de Espirito Santo Publicado em 12/03/2015, às 15h42 - Atualizado às 15h57

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Duas Alices: atada a convenções que não pertencem a ela e livre para criar.

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A aura de um bem-vindo feriado no meio da semana deixa a praia de Copacabana mais populosa. No fim da tarde, a brisa da orla ameniza o bafo de um verão que provavelmente seguirá batendo recordes. Ciclistas e corredores que ocupam parte da Avenida Atlântica, senhoras nos bancos da calçada e banhistas que aproveitam os últimos minutos de sol – todos parecem estar em um fabuloso slow motion.

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A mágica do viver à beira-mar, no entanto, não é suficiente para manter Alice Caymmi presa ao Rio de Janeiro. “Eu estou quase me mudando para São Paulo”, ela comenta, meio em tom de confidência. Prestes a completar 25 anos, a cantora carioca deseja outros encantos além das areias da capital fluminense. “Estou sempre lá [em São Paulo]. Eu venho para cá, sei lá, para ir à academia, ao médico, ver meus pais”, minimiza, enquanto se joga em um dos sofás da ampla sala de estar no apartamento do pai, Danilo Caymmi, em Copa. Descalça, vestindo uma calça legging preta e camiseta com o colarinho estrategicamente talhado na tesoura, Alice está totalmente à vontade. Qualquer tentativa de compará- la à personagem de aspecto portentoso que estampa a capa de seu ótimo segundo disco, Rainha dos Raios (eleito pelo júri da Rolling Stone Brasil o terceiro melhor álbum nacional de 2014), é frustrada pelo sorriso aberto e por uma naturalidade marota.

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A Alice, que carrega no sobrenome um dos maiores sinetes da MPB, lançou o primeiro álbum, homônimo, em 2012. Fortemente autoral, o disco veio com algumas letras criadas quando a artista ainda era adolescente. Mas foi nas duas covers da tracklist que Alice revelou suas maiores referências: “Sargaço Mar”, composta pelo avô, Dorival Caymmi, e primeiramente lançada para acompanhar uma biografia do mestre em 1985; e a cultuada “Unravel”, de Björk, lançada em Homogenic (1997). “Não dá para fazer melhor do que isso”, a cantora islandesa publicou em seu site oficial. “[Quando li a declaração] fiquei chorando, porque ela é uma referência para mim”, Alice revela. Em 2014 veio o teste que costuma gerar picos de ansiedade em 9 entre 10 músicos: o temido segundo álbum. Rainha do Raios, lançado pelo selo independente Joia Moderna, explorou a força da interpretação de Alice, que fez teatro. “A grande diferença sou eu, cara. Eu mudei muito”, afirma. Ela diz que já deixou de cantar as músicas antigas em seu show. “Eu não volto com ex-namorado e não repito música. Simples assim.”

Apenas duas faixas de Rainha... levam a assinatura de Alice na composição (uma delas em parceria com o hitmaker Michael Sullivan). Nem por isso Rainha dos Raios é menos pessoal. “É meu disco e, sem tirar onda, eu o ouço muito, porque ele diz bastante sobre minha vida”, explica. “Fiz esse álbum pensando no que eu paro para ouvir, nas coisas que eu gosto de ouvir e do jeito que eu gosto de ouvir. Parece que fiz o disco para mim. Fico rindo, brincando e lembrando de vários momentos.” Alice nutriu o produtor Diogo Strausz, “um gênio em ascensão”, segundo ela, com imagens e sons de sua memória emotiva, incluindo aí antigos filmes franceses – Os Guarda- -Chuvas do Amor, Duas Garotas Românticas e Pele de Asno, musicados por Michel Legrand –, balés russos e o genial maestro Ennio Morricone. “É legal criar ambientes sonoros”, acredita. “Eu pensava nisso também quando estudava teatro, pensava em esculturas, ambiências, camadas e paisagens sonoras – todas essas noções de som nas artes plásticas.” A partir daí, Strausz foi criando texturas e timbres em faixas recheadas de elementos eletrônicos.

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Rainha dos Raios vai fundo nas rupturas que a cantora julga importantes na vida. Uma delas é a fronteira que limita o que é considerado pop. Alice frequenta lugares como o Audio Rebel, no Rio de Janeiro – hoje, um dos santuários da música de vanguarda brasileira –, e troca figurinhas com gente como Ava Rocha e Nego Leo. É ligada nos desdobramentos das cenas musicais de ponta e em novíssimos artistas (a nova paixão dela é o rap do transformista norte-americano Mykki Blanco). E ainda participa de festivais benquistos pelo público dito moderno, como o Sonoridades, que tem curadoria de Nelson Motta. Ao mesmo tempo, a música que faz é acessível: a versão que criou para “Meu Mundo Caiu”, de Maysa, e “Como Vês”, faixa que abre Rainha dos Raios, entraram na trilha de Felizes para Sempre?, recente minissérie da Rede Globo. E, não fosse o poder limitante do mains tream, muitas faixas de Rainha dos Raios poderiam estar nas playlists das chamadas rádios populares.

“Sempre fui muito abusada. Saio tomando espaço”, Alice declara, aproveitando para reclamar de um antagonismo construtivo na carreira. “Acho o pré-julgamento a coisa mais ridícula do mundo. Ter isso na arte me dá muita irritação; quero voz crítica, inteligente, bacana. A gente [o artista] é muito carente disso.”

Ela segue no desabafo. “Estamos nos tornando críticos de nós mesmos e isso é ruim. Temos o público com a gente, mas sinto a presença do antagonista dentro dos próprios artistas, pelo mero medo de pagar mico. Daí, a música já nasce viciada, prejulgada. Nunca achei a autocrítica tão ruim quanto agora. Vai e faz! Não fica em casa pensando.”

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Alice também expressa essa maneira de pensar na forma de provocações, ao subverter conceitos estilísticos em faixas como “Meu Recado”, “Sou Rebelde” e “Princesa”. “Sentei com Michael Sullivan para compor ‘Meu Recado’. Ele fez parte de 80% da minha vida musical simplesmente porque só de ouvir o rádio – na cozinha, no táxi, em qualquer lugar –, a gente vai acabar ouvindo algo dele”, Alice diz, com certo orgulho. “Muita música foi composta por Sullivan, independentemente de que você goste. Tem todo esse limbo do cafona. Gosto de mexer nesse lodo, e isso está vindo à tona.” A cantora levanta a voz: “Acho uma burrice a taxação de ‘alta cultura’, ‘baixa cultura’. Esquece. Artista não tem que pensar nisso. Para o meu processo criativo, se eu for julgar o que é cafona e o que é de bom gosto, não faço nada. Quero ter a liberdade de ir lá e voltar.”

Alice cita o avô, gênio da tradicional MPB, para desconstruir hierarquias musicais. “Ele falava: ‘Eu queria ser o feliz autor de ‘Ciranda, Cirandinha’’. Tem gente que deve me achar maluca juntando Michael Sullivan e Dorival Caymmi. Junto mesmo. Vá pesquisar! É a simplicidade, é a síntese da coisa, é balada, é a melodia que pega as pessoas.”

A cantora vai mais fundo nesse “lodo” quando transforma em synthpop a faixa “Sou Rebelde” (versão do hit espanhol de 1971 “Soy Rebelde”, da cantora Jeanette, e que foi sucesso nacional em 1978 na voz de Lilian, com letra em português feita por Paulo Coelho). Ou quando regrava o funk melody “Princesa”. “É muito delicioso você nascer numa família importante pra caralho dentro da música e gravar um MC Marcinho só de sacanagem. Isso foi a coisa mais deliciosa que pude fazer na vida”, provoca.

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Neta de Dorival, filha de Danilo, sobrinha de Nana e Dori, Alice Caymmi se reconforta com o apoio que o pai dá à carreira que escolheu e tem uma certeza inabalável de que o avô aprovaria as músicas que faz. Ainda assim, ela é reticente quanto à apreciação do trabalho dela pelo resto da família. “A gente se vê, conversa, brinca e tal, mas fala sobre coisas de família”, desconversa. “Cada um tem sua carreira, cada um é um indivíduo muito forte lá dentro. Eles já fizeram tanta história, tanta coisa… A família fica meio entediada de ficar falando disso.” O aprendizado fica por conta de cada um. “Não tem isso [de um ensinar o outro], não. Vai lá. Se vira. Quebra tua cara, depois tu fica cascudo. Eu já vim cascuda.”

Previsivelmente, ela se incomoda com comparações geracionais desnecessárias dentro desse clã musical, ainda que admita algo de místico em fazer parte dele (“É genética – feitiçaria genética”). Irrita-se profundamente com a crença de que “filho de peixe, peixinho é” e a ilusão de que todo músico passa a vida na flauta. Para Alice, responsável exclusiva pelos erros e acertos de sua música até aqui, tal ideia chega a ser uma afronta. “As pessoas acham que família de músicos é um sarau eterno. Por exemplo, [imaginam] a tal família Caymmi sentada com aquela viola caipira… e isso nunca aconteceu”, diz, rindo só de imaginar a situação hipotética.

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“É uma idiotice achar que, se a gente nasce no meio da música, ‘está no sangue’. Não, não está no sangue! Você luta por isso. Você estuda esse negócio, trabalha igual a uma louca, consegue alguma visibilidade entre mil gênios dentro da sua família. Aí, você luta e reluta para sair de algum lugar onde você já está tachado. E dizem que está no sangue… Se estivesse no sangue, eu não estaria trabalhando o tanto que trabalho.”

Alice Caymmi quer, de uma vez por todas, quebrar os padrões, romper com a ideia de tradição, deturpar qualquer prejulgamento que se possa fazer dela. Ela não tem nada para provar, mas repudia concepções embasadas apenas no nome que traz em sua certidão de nascimento. “Eu quebrei muito minha cara no palco, no teatro, nos livros para chegar a algum lugar para nego falar: ‘Mas é Caymmi, né? Tinha que vir assim’.” A segurança que exibe pode, para alguns, parecer ameaçadora – mas é também, felizmente, um dos encantos de Alice.

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O sentidos dos raios

Apesar do nome do disco e da escolha de “Iansã” para o repertório, Alice Caymmi não se diz religiosa

“Iansã”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, é uma das versões mais marcantes lançadas em Rainha dos Raios (2014). Apesar da escolha da canção e do nome do álbum, Alice não se diz religiosa. “Formalmente, nunca acompanhei nenhuma religião. Formalmente, nunca nada. Eu tenho medo de falar que sou religiosa, porque pressupõe doutrina”, ela discorre. “O negócio é o seguinte: eu sou mística à beça, mas não sou nenhuma hippie que conhece mapa astral. Tenho apreço e admiração pelos arquétipos comportamentais, assim como tenho pelos deuses gregos e tal. Os deuses do candomblé têm toda uma mitologia própria que diz respeito a coisas fundamentais da gente, e Iansã é o ir de um polo a outro, o que eu acho que é a grande questão hoje em dia. É a transição rápida demais da euforia para a depressão, do tempo bom para o tempo ruim. O meiotermo está longe de nós. E ela faz isso. Além do poder de ruptura desse orixá, além de ser uma mulher guerreira absolutamente poderosa, bélica e feminina, ela tem poder sobre esses dois polos. Ela é a rainha desse equilíbrio.”