Aniversário de 10 anos do iTunes: como Steve Jobs virou a indústria fonográfica de cabeça para baixo

O cofundador da Apple viu que o extinto Napster abriu uma possibilidade nova para as pessoas: encontrar milhões de música em um só lugar

Steve Knopper Publicado em 28/04/2013, às 12h48 - Atualizado às 13h03

iTunes
AP

A loja de música digital iTunes, da Apple, que comemora 10 anos de existência neste domingo, 28, existe por uma razão principal: o Napster.

No fim de 2002, o serviço de compartilhamentos de arquivos que havia conseguido atingir 80 milhões de usuários estava fora do jogo. A RIAA (sigla, em inglês, a Recording Industry Association of America) havia sido bem-sucedida ao processar a empresa por infração de direitos autorais e o tribunal forçou o Napster a sair do ar. Mas o poder do Napster se manteve vivo por anos depois disso, com outros serviços mais sofisticados e difíceis de combater, como Kazaa, LimeWire e BitTorrent, que tomaram o seu lugar.

As maiores gravadoras do mundo, temendo o poder que esses produtos davam aos consumidores, fizeram tudo o que eles poderiam para “bloquear” virtualmente os CDs e os arquivos de música online, usando marcas d’água e outras formas gerenciamento dos direitos digitais. Tudo para evitar que os MP3s se espalhassem livremente e de graça.

Steve Jobs, fundador e executivo-chefe da Apple, viu o Napster, o MP3 e a internet de uma forma diferente. No fim de 2002, ele acreditava que os fãs de música claramente gostariam de fazer o download das músicas que eles curtissem de uma forma mais acessível e fácil do que se dirigir até uma loja de discos, como a Tower, Best Buy, ou ainda alguma loja de discos indie, e pagar de US$ 15 a US$ 18 por um CD. Naquela época, contudo, a indústria fonográfica não tinha encontrado uma maneira de permitir que isso acontecesse.

Jobs encontrou essa oportunidade.

Ele começou a entrar em contato com os executivos desses grandes selos e alguns deles que estavam chegando à mesma conclusão: download de música é pirataria, claro, mas também é impossível ignorá-lo como uma nova forma de fazer negócio. Ele começou com a Warner Music, casa de Neil Young, R.E.M. e Linkin Park, e acabou conversando por telefone com o vice-presidente da companhia, Paul Vidich. Naquele momento, a Apple já estava com o iTunes preparado e sincronizado perfeitamente com um pedaço de hardware que implorava por conteúdo: o iPod.

Galeria: a história musical de Steve Jobs.

Jobs chegou à Warner e mostrou a Vidich e a um pequeno grupo de funcionários da empresa uma versão teste do iTunes. “Ele era a vitrine, a primeira coisa que os consumidores viam”, disse Vidich, hoje um conselheiro e membro de diretoria de diversos sites de tecnologia, incluindo o ReverbNation. “Eu me lembro de ter pensado: ‘Isso é tão simples. Isso funciona. Isso é ótimo’.”

“A atração pelo Napster não era somente porque se tratava de música de graça. Mais importante que isso, ele deu às pessoas uma maneira de se conectar com praticamente qualquer música que eles quisessem”, diz ele. “O que Steve estava fazendo com o iTunes era repetir aquela experiência: um vasto catálogo em uma base de dados única e uma interface conveniente. Tinha que ser tão fácil quanto o Napster.”

Com uma série de apresentações teatrais mostrando a interface do iTunes, Jobs conseguiu convencer os executivos da Warner e passou para os outros selos, incluindo Universal e Sony. Ele permitiu alguns manejos de direitos autorais, um ponto vital para os selos, embora não tenha sido tão restrito quando eles teriam preferido. Eles permitiram que Jobs estabelecesse um preço: cada música custaria US$ 0,99.

A iTunes Music Store abriu em 28 de abril de 2003, e foi uma revolução instantânea. CDs já estavam nas lojas há mais de 20 anos, mas os consumidores já demonstravam desde a estreia do Napster, em 1999, que estavam prontos para uma mudança de formato. O iPod subitamente se tornou muito poderoso, e os fones brancos caiam perfeitamente naqueles anúncios em que apareciam sobre silhuetas negras, nos quais a Apple gastou milhões. Esse foi o momento em que a música digital deixou de ser coisa de ladrões e canalhas – era para pessoas cool. (A RIAA – Record Industry of America – começou a processar os ouvintes naquele mesmo ano por violação de direitos autorais, mas essa é outra história.)

Na primeira semana, o iTunes vendeu um milhão de downloads e rapidamente se tornou não só a maior loja online de música como ultrapassou o Walmart e a Best Buy, maior loja de música. De certa forma, o serviço apressou a revolução que os executivos das gravadoras mais temiam – o mercado trocou os CDs, caros, pelos singles, baratos. Mas não havia escolha. Sempre haveria os ladrões de música online, mas a maioria das pessoas simplesmente precisava de uma forma fácil e legal de fazer o download de músicas. Esse era o modo como os fãs comprariam música no futuro, gostassem as gravadoras ou não.

Por um tempo depois que o iTunes abriu, executivos de gravadoras reclamaram do acordo feito por Jobs – não permitia que os preços fossem mais altos ou mais baixos que US$ 0,99 (algo que mudou posteriormente), e não dava às gravadoras uma parte do lucrativo iPod, e mais tarde do iPhone (o que não mudou, obviamente). Nesses 10 anos desde que o iTunes estreou, a indústria global de música encolheu drasticamente, de US$ 38 bilhões de receita há mais de uma década para US$ 16,5 milhões no ano passado. Enquanto isso, a Apple cresceu e se tornou uma das maiores empresas do mundo.

Hoje, algumas pessoas sugerem que o modelo de venda-e-posse do iTunes, uma vez tão renovador e necessário, é um anacronismo. Spotify, Deezer (que acaba de ser lançado no Brasil), Pandora, Rdio, Rhapsody e o domínio do YouTube fazem com que seja muito fácil para os fãs ouvirem qualquer música em streaming, a qualquer hora, de graça. Fontes dentro da indústria musical confirmam que a Apple está trabalhando em um serviço de rádio via internet para atender à demanda nesse mercado. E as vendas de músicas (na maior parte via iTunes) parece estar em queda, tendo caído 2% até agora este ano, de acordo com a Billboard. Mas uma pesquisa recente do NPD Group sugere que o iTunes está mais forte do que nunca: 44 milhões de norte-americanos fizeram o download pago de uma ou mais músicas ou discos no ano passado, 38% de fãs de música disseram que acreditam em possuir músicas ou álbuns e 41% dos usuários do Pandora ou de outros serviços de streaming gratuito dizem que ser dono do arquivo da música é importante para eles. Ninguém vai fechar o iTunes.

Em maio de 2003, quando Steve Jobs ligou para Vidich, da Warner, uma semana depois da abertura do iTunes, dando a ele a notícia do número de um milhão de downloads, Vidich pensou no que a Warner e outras gravadoras haviam tentado fazer. Elas tinham conversado com Sony, Panasonic, Philips e Microsoft, mas não conseguiram chegar a um acordo. (Parte disso, claro, foi graças ao dogma das gravadoras de que todas as faixas deveriam conter travas virtuais que restringissem o compartilhamento – no que Jobs passou por cima.)

“Elas eram companhias de tecnologia que sabiam construir disc players e hardware, mas não tinham demonstrado a sofisticação da Apple quando o assunto era software”, diz Vidich. “Era necessário uma empresa que fosse capaz de criar uma ponte entre essas duas coisas para chegar a um produto atrativo ao consumidor.”