Baco Exu do Blues desconstrói “mito” e busca – até na cama – o “humano” no disco de estreia, Esú

“Fiquei depressivo. Não queria sair de casa. Algumas vezes pensei em suicídio sim”, admite o rapper baiano, que uniu trap e música brasileira em uma das obras mais surpreendentes do ano
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por Lucas Brêda
26 de Out. de 2017 às 07:31

“Sua expectativa em mim está me matando”, declara Diogo Moncorvo em “En Tu Mira”, antes de admitir: “Eu sou humano” e confessar: “Homem não chora. Foda-se, eu estou chorando”. Baco Exu do Blues, nome do baiano no hip-hop, passou por um período de perrengues e sofrimento interno, antes de catalisar os sentimentos no disco de estreia, Esú, inteiro calcado na música brasileira e nos dramas pessoais do artista.

O álbum saiu em setembro, mas ele começou a ter origem pelo menos um ano antes, quando foi ao ar “Sulicídio”, parceria com o MC pernambucano Diomedes Chinaski. A faixa chegou como um grito há muito entalado na garganta: uma furiosa crítica à visão preconceituosa de Rio de Janeiro e São Paulo com o hip-hop e à cultura do Nordeste, sem poupar nomes como Nog, do Costa Gold, e Doncesão. “Sulicídio” incomodou tanto que rendeu pelo menos duas respostas diretas: “SulTaVivo!”, do Costa Gold, e “Disscarrego”, do Nocivo Shomon (outro citado na original).

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“Não é pessoal contra a galera. Só peguei quem estava no topo no momento e mostrei que eu conseguia rimar tão bem quanto eles. Mas é aquela fita: para atingir os fiéis de um bagulho, você tem que atingir o deus deles”, conta Baco. “Nem toda ‘diss’ bate né, mano? Não esperava que a galera abraçasse, foi surpresa”. Além de instantaneamente endeusado, ele também sofreu com a repercussão negativa de duas linhas: uma em que manda “fãs soropositivo” para o camarim dos antagonistas e outra em diz: “Não é comendo ‘traveco’ que se vira fenômeno.”

“Na minha intenção, não tinha ofensa, sabe?”, ele explica. “Era uma coisa irônica [fazendo referência] a algo que já foi dito – e não por mim. Só que eu aprendi que não posso esperar que o público entenda”. Baco acabou virando uma espécie de mártir: ao mesmo tempo em que rima: “Se eu tivesse morrido pós-‘Sulicídio’, já seria um mito” (em “Oração a Vitória”), ele não canta mais “Sulicídio” nos shows. “O que mais me machucou foi pessoas que curtiam meu som achando que eu estava ofendendo. Isso foi foda, tá ligado? Me fez repensar. Não canto mais por causa dessas duas rimas.”

Herói mais recente do rap no Nordeste, Baco diz que não sai de Salvador para tentar a vida no Sudeste, como fez o cearense Don L, agora morando em São Paulo. “Por mais que lá seja mais fácil, não posso, senão quebra todo o meu discurso”, diz. “Não posso simplesmente sair daqui só porque as coisas são mais fáceis aí. Eu tenho que fazer aqui ficar mais fácil”. Aqui estão, portanto, os cinco MCs nordestinos favoritos de Baco atualmente: os baianos Beirando Teto (Davi Nadier) e Galf AC, o cearense Nego Gallo e os pernambucanos Don Erre e Diomedes Chinaski (Don L é ausência, segundo Baco, porque ele citou apenas “residentes no Nordeste”).

Quando falou à Rolling Stone Brasil, por telefone, Baco estava tranquilo e expressivo – em uma mesa de bar, na tarde de um dia de semana –, tratando dos assuntos mais duros com a mesma naturalidade que descreve as já icônicas cenas sexuais em “Te Amo Disgraça”. “Fiquei fodido, mano. Fiquei depressivo. Não queria sair de casa. Algumas vezes pensei em suicídio sim”, o rapper admite. “Tive pessoas próximas falando: ‘Você não pode pensar nisso, o disco está quase pronto’ e tudo mais.”

Hoje, ele consegue elaborar com clareza as origens da depressão que o deixou recluso enquanto trabalhava no álbum. “Me colocaram num patamar que eu não queria ser colocado”, teoriza. “Ouviram um ‘feat’ meu e falaram: ‘Não está no padrão Baco’. Qual é o ‘padrão Baco’? Eu sou o padrão, eu sou o Baco. Como eu surgi falando o que eu falei, demonstrando aquilo, era: ‘Esse mano vai mudar o game’. Galera acha que todo mundo quer ser mártir, mas eu só quero fazer minha arte.”

Todos estes sentimentos acabaram entrando torta ou diretamente em Esú, obra em que Baco parece buscar o que há de mais humano em si. Para isso, personifica o paradoxo: bem e mau, sagrado e profano, deus e homem. Ou o “caminho do meio”, como ele chama, destacando a palavra “Esú” (o orixá africano Exú) dentro de “Jesus” (entidade máxima do catolicismo) na capa, inspirada em uma fotografia de Mário Cravo Neto. “Exú e Jesus são pessoas que andaram no caminho do meio”, debate. “Por que Exú é tão demonizado e Jesus é tão ovacionado? Eles eram tipo: ‘Independente do que é bom ou errado, nós aceitamos os dois e vivemos os dois’.”

Baco reuniu as influências de música brasileira (“Ouço mais que rap”) e entregou os samples ao produtor carioca Nansy Silvvs, mais conhecido pelo trabalho com o trap. Tirando o beatmaker Scooby, que fez uma das bases, e KL Jay (Racionais MC’s), responsável pela introdução, Esú não tem nenhuma participação. De uma maneira muito simples, o disco acabou com uma atmosfera sonora tão rara quanto particular: a união da pungência das batidas eletrônicas com a cadência dos samples (não é difícil reconhecer Novos Baianos em “Esú” e Arthur Verocai em “A Pele Que Habito”, por exemplo).

Baco achava que a faixa “A Pele Que Habito”, poético retrato da negritude (“Eu faço parte da noite”, diz a letra) seria o hit de Esú, mas estava redondamente enganado. Nem as mais depressivas, nem as mais agressivas, foi “Te Amo Disgraça”, uma love song descarada e nada ortodoxa, que ocupou o posto. Com um gancho assustadoramente cativante, a música acabou transformando o Baco de Esú em um personagem ainda mais sentimentalmente completo – além de galgar espaço entre as grandes canções do ano.

“Ela foi feita a partir do refrão”, ri. “Fui ao supermercado com a minha mina e compramos um vinho, sabe qual é né? Comecei a escrever e já fiz o refrão ali. Aí só botei os acontecimentos de depois [risos] e deu certo, mas porque é um casal real. O brasileiro tem essa coisa de endeusar o casamento: o homem cavalheiro que vai conquistar uma mulher e ‘blá blá blá’. A minha é a crônica da rotina normal de um casal”. Na cama (ou na vida), Baco não quer muita fantasia: “Não é como as pessoas querem que ela seja, mas sim como ela é.”

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