Depois de praticamente “morar” na estrada, Boogarins prepara dois discos para 2017

Registro ao vivo Desvio Onírico sai em fevereiro; Benke Ferraz, guitarrista, adianta que terceiro álbum de estúdio tem influências de Flying Lotus e Kanye West
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por Lucas Brêda
27 de Jan. de 2017 às 18:59

“É um disco ao vivo, mas não é simplesmente um [registro de] show do Boogarins”, conta o guitarrista Benke Ferraz, em um pequeno cômodo aos fundos da Casa do Mancha – reduto de shows intimistas de São Paulo –, adiantando o próximo lançamento da banda. Os goianos haviam acabado de fazer a 102ª apresentação do ano (só em 2016, média de uma a cada 3,6 dias), segunda seguida no espaço, depois de a primeira esgotar rapidamente. A relação do quarteto com os palcos vai ser explorada em um álbum ao vivo pouco convencional, com gravações de três performances em shows e uma jam de estúdio.

Desvio Onírico, com lançamento marcado para o começo do próximo mês de fevereiro, traz novas versões de “Infinu” (do debute As Plantas Que Curam, 2013), “Tempo” e “Auchma” (ambas da sequência Manual, 2015) gravadas em Portugal, Canadá e Estados Unidos. “São três músicas que se estendem muito ao vivo e uma sessão de improviso”, destrincha Ferraz, destacando que mesmo com apenas quatro faixas, o lançamento tem cerca de 40 minutos de duração. “É um recorte desse momento musical, no qual acho que estamos bem mais estruturados ao vivo, depois de tantas turnês.”

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As quatro faixas de Desvio Onírico, contudo, não são as únicas novidades do Boogarins em 2017. A própria jam presente no LP já carrega a atmosfera do terceiro disco de estúdio da banda, ainda sem nome, previsto para o segundo semestre. “Cortamos dez minutos de umas três horas que estávamos tocando”, conta o guitarrista. “Foi parte do processo de gravação do terceiro disco.”

As sessões do próximo trabalho do Boogarins aconteceram durante cerca de um mês em uma casa alugada – ao lado do estúdio Space – em Austin, no Texas, Estados Unidos, este ano. “Locamos equipamentos e gravamos na casa mesmo, só íamos ao estúdio para alguns ensaios e para finalizar arranjos”, recorda Ferraz. “Essa jam é resultado de quando montávamos tudo e colocávamos para gravar, tocando qualquer coisa que viesse na cabeça, sem combinar. Dois em uma sala, dois na outra. Só se ouvindo por fone.”

Ao contrário de Manual, trabalho que incorporou o primeiro momento do Boogarins de fato tocando junto, como banda, o terceiro disco é uma espécie de retorno à abordagem da estreia, quando Ferraz e o vocalista, Dinho Almeida, montaram As Plantam Que Curam em casa. “Tínhamos bastante coisa adiantada, mas tentamos ir para esse disco com outra cabeça”, analisa o guitarrista, pontuando que o álbum é mais “fresco” – possui apenas composições recentes – que o antecessor. “Não [queríamos] chegar com músicas prontas ao vivo e só gravar. Queríamos construí-las em estúdio.”

Novamente produzido por Ferraz e pelo próprio quarteto, o álbum traz como novidade a presença de sintetizadores – tocados pelo baixista, Raphael Vaz – e a participação como compositor do baterista da banda, Ynaiã Benthroldo. “Esse disco vai para o lado de um som mais processado”, comenta. “Muitos baixos viraram synth bass e é um negócio bem marcante. Depois de muito tempo escutando Flying Lotus e Kanye West – que têm essa composição pop, mas com baixo de construção mais extrema, com timbres nervosos –, [vimos que] o sintetizador dá mais possibilidades.”

Apesar da veia eletrônica saltada, as baterias das novas faixas são todas orgânicas. “Tem muito sample e o máximo que fiz foi fritar bastante no som das baterias”, conta Ferraz, admitindo que “tem músicas que nem toquei, só gravei os meninos”. “Foi uma consciência mais de fazer canção que vai bater, soar alto. Meio como fizemos em As Plantas, só que com equipamento bom, muito mais conhecimento de estrada e tal.”

Exalando o cansaço físico do show recém-encerrado e tendo a atenção disputada por um drink suficientemente gelado na mão, Ferraz encarna todo o sentimento do Boogarins: uma banda exaurida, mas não enjoada do palco, que sabe com muito mais propriedade onde quer pisar, depois de mais de dois anos de ascensão rápida e ininterrupta.

“Desde que lançamos o primeiro disco, ficamos sem parar na estrada. Não são coisas que não queríamos, mas tivemos que manter isso, entramos no fluxo”, assume o guitarrista. “Acho que enfim nosso momento musical se encontrou com o momento de gravar o álbum e estamos muito mais seguros de tudo.”

Abaixo, ouça os dois lançamentos mais recentes do Boogarins: a versão definitiva da faixa “Olhos” e “Elogio à Instituição do Cinismo”, canção que entrou na nossa lista de Melhores Músicas Nacionais de 2016.