Debaixo de chuva, Metallica faz um dos shows mais vigorosos que já realizou no Brasil

Com o setlist conhecido de antemão e sem pirotecnias, a surpresa na apresentação paulistana foi a proximidade entre banda e público
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por Lucas Brêda
23 de Março de 2014 às 08:36

Na nova turnê By Request, o Metallica propõe uma troca íntima entre banda e público. Com um setlist escolhido pelos fãs – em votação no site oficial da banda – e a apresentação de uma música nova, é como se o jogo já estivesse ganho para ambos os lados. Entretanto, a presença incessante da chuva impossibilitou o uso das tradicionais pirotecnias no show, aproximando ainda mais o grupo dos mais de 60 mil fãs presentes, lotando o estádio do Morumbi, em uma apresentação orgânica e que dificilmente será repetida por aqui.

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O primeiro clássico apresentado foi “Battery” – recebida com a chegada de uma chuva fraca porém interminável –, abrindo caminho para “Master of Puppets”, a mais votada do setlist, celebrada com euforia equivalente à quantidade de votos que recebeu. Após um som oscilante e distorcido do show de abertura (da veterana banda britânica Raven), foi fácil distinguir a altíssima qualidade da regulagem sonora do Metallica, que toca no último volume, mas sempre com clareza e potência.

Após “Welcome Home (Sanitarium)” (a terceira seguida do disco Master of Puppets, de 1986) e “Fuel” (de ReLoad, 1996), “The Unforgiven” levou o vocalista James Hetfield ao violão, criando um momento de serenidade entre as batidas rápidas e riffs distorcidos predominantes no show. Na faixa, um dos singles do “Black Album” (Metallica, de 1991), Lars Ulrich se mostrou criativo, recheando de pratos uma das músicas mais suaves do repertório, sem, contudo, soar exagerado. Na única música nova da noite, “Lords of Summer” – recebida com atenção pelos brasileiros –, o bumbo duplo de Ulrich fez tremer o piso colocado sob o gramado do Morumbi.

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Como vem acontecendo na atual turnê do Metallica, um grupo de fãs assistiu ao show em cima do palco (vide galeria de fotos), e antes da execução de “Sad But True”, um deles foi chamado para anunciar a música. O gesto se repetiu outras duas vezes, com a cover “Whiskey in The Jar” (tradicional canção irlandesa, famosa na versão do Thin Lizzy e, posteriormente, na interpretação do Metallica) e em “Creeping Death”. Em cada uma delas, os fãs dialogaram com James que, em uma das oportunidades, chegou a dizer: “Você não estava acampando no meu jardim?”, em uma brincadeira com um fã.

Quem esteve no Morumbi em uma das três noites de shows em 2010, na última passagem do Metallica em terras paulistas, viu uma história um tanto diferente da que se desenrolou neste sábado, 22. A falta dos tradicionais fogos de artifício, explosões e pirotecnias fez com que o foco do show se restringisse às músicas e performance da banda em si. E o Metallica respondeu à falta de recursos com visível entrega: Ulrich vibrava a cada batida mais marcante; o baixista Robert Trujillo “rastejava” com seu baixo na água que cobria o piso do palco; Hetfield parecia entrar no universo de cada canção, cantando cada verso com dedicação notável; o guitarrista Kirk Hammett levantava o instrumento como um troféu após os ágeis solos ensopados pela chuva.

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“For Whom The Bell Tolls” foi uma das mais bem recebidas da noite, ao lado das óbvias “Enter Sandman” e “Creeping Death”, esta uma das mais pesadas do set. “Nothing Else Matters”, também figurinha repetida em todos os shows do Metallica nos últimos 23 anos, foi introduzida por uma base melódica de Kirk Hammett, que exibiu ter desenvoltura tanto com notas limpas quanto nos solos mais velozes que lhe são característicos.

Desde antes do início do show, o telão exibia a parcial da votação para a última música a ser escolhida pelo público, via SMS – as opções eram “Ride The Lightning”, “The Day That Never Comes” e “The Memory Remains”. Quando a vitória de “The Day That Never Comes” foi anunciada, em vez de vibrar, a plateia em maioria reclamou. “Por que vocês estão vaiando?”, indagou Hetfield, que recebia como resposta gritos de “Ride The Lightning”. “Mas foram vocês que votaram”, ele continuou. Mesmo com a incoerência por parte do público, o Metallica tocou intensamente o single de Death Magnetic (2008). Ao fim da performance, o bem-humorado vocalista faz questão de pedir desculpas por um erro – quase imperceptível – que teria cometido na guitarra.

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Por fim, seguindo a regra básica do Metallica, “Seek & Destroy”, do longínquo Kill 'Em All (1983), deu o apito final à apresentação de pouco mais de duas horas e quinze minutos. Antes de tocar o riff indefectível, Hetfield solicitou que as luzes do estádio fossem acesas, para melhor poder enxergar os fãs. Ao final, os quatro permaneceram no palco saudando o público, mesmo com os roadies já trabalhando na desmontagem dos equipamentos. A demora para ir embora e a quantidade exagerada de agradecimentos denotou que a noite possivelmente teve um gosto diferente para aqueles músicos com mais de 30 anos de palco nas costas.

Com uma apresentação crua, energética e de caráter intimista, o Metallica fez o Morumbi encolher ao tamanho de um pub. Tocando com disposição notável, a banda aproximou-se do público e, debaixo da chuva, viu-se instigada a abandonar uma possível zona de conforto. Se o setlist já era conhecido, o acaso tomou para si o protagonismo da noite brasileira da turnê By Request, proporcionando um espetáculo tão imprevisível quanto único.

Veja abaixo o setlist completo:

"Battery"
"Master of Puppets"
"Welcome Home (Sanitarium)"
"Fuel"
"The Unforgiven"
"Lords of Summer"
"Wherever I May Roam"
"Sad But True"
"Fade To Black"
"...And Justice for All"
"One"
"For Whom The Bell Tolls"
"Creeping Death"
"Nothing Else Matters"
"Enter Sandman"

Bis:
"Whiskey In the Jar"
"The Day That Never Comes"
"Seek & Destroy"

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