Com Céu e Skank, Jorge Ben Jor ratifica ginga irresistível em pré-estreia de turnê

Artistas mostraram no Rio de Janeiro a apresentação base da edição de 2017 do projeto Nivea Viva, que possa por Porto Alegre, Fortaleza, Recife, Brasília e São Paulo
  • Imprimir
por Lucas Brêda, do Rio de Janeiro
15 de Março de 2017 às 16:17

Nos últimos cinco anos, o projeto Nivea Viva promoveu turnês anuais com shows gratuitos e temáticos em parques espalhados pelo país, homenageando ícones falecidos (Tim Maia, Elis Regina) e gêneros inteiros (samba, rock) da música brasileira. Na última terça, 14, a apresentação base para a turnê de 2017 foi revelada, em evento no Rio de Janeiro para jornalistas e convidados, com o celebrado Jorge Ben Jor se juntando a Skank e Céu para uma maratona com mais de 30 performances.

A escalação de Skank e Céu foi justificada minutos antes do show. A banda mineira, que citou Ben Jor como “uma das referências” da geração dos anos 1990, regravou “Cadê o Penalti?” (de 1978) nos primeiros anos de carreira e até se apresentou com o cantor ao longo dos anos. Céu, além de intrinsecamente influenciada pela obra de Ben Jor, teve a mãe (a artista plástica Carolina Whitaker) servindo de inspiração para a música “Carolina Carol Bela”, de 1970, parceria com Toquinho.

O palco, repleto de instrumentistas, divididos entre os músicos do Skank e a banda de Ben Jor, foi ocupado primeiro pelos mineiros. O Skank deu interpretação própria ao balanço do carioca, ressaltando o caráter melódico dos arranjos e injetando ska e rock nas canções. A primeira foi “O Dia Que O Sol Declarou O Seu Amor Pela Terra” e, em seguida, Rosa chamou Céu para aumentar a “fileira de admiradores” do “professor” Ben Jor e cantar “País Tropical”.

Com uma voz muito mais reconhecida pelo jeito arrastado do que pela potência, Céu foi menos visada que os parceiros de palco, especialmente quando deu o próprio toque a “Cabelo”, famosamente regravada por Gal Costa em versão mais intensa. Ao lado do Skank, ela também interpretou “Que Pena”, antes de devolver o palco para Rosa e companhia mostrarem sozinhos “Oé Oé (faz O Carro de Boi Na Estrada)”, “Oba, Lá Vem Ela”, “Balança Pema” e duas do clássico disco A Tábua de Esmeralda (1974): “Menina Mulher da Pele Preta” e “Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”.

Além dos arranjos refeitos, o Skank demonstrou personalidade nas releituras só pela postura de Samuel Rosa, que distribuiu gritos em “Oba, Lá Vem Ela”, acrescentou um solo de pegada roqueira em “Balança Pema” e não tentou copiar as tradicionais “atrasadas” de Ben Jor ao encaixar versos como os de “Menina Mulher da Pele Preta”. Mesmo com demasiado respeito pela obra do carioca, o Skank levou as canções para o universo da banda, gerando versões inéditas, mas que sacrificaram parte do suingue de Ben Jor.

Pensado para parques de grandes proporções, o show ficou comportado para um Vivo Rio glamoroso, com mesas ocupadas por atores globais e figuras magnéticas como Gilberto Gil e Erasmo Carlos. Mais entrosada e intensa performance do Skank com Céu, “Os Alquimistas Estão Chegando” tratou de deixar o clima menos formal, sustentado posteriormente por clássicos como “Xica da Silva” e “Chove Chuva”.

Devidamente reverenciado, Jorge Ben Jor assumiu o palco como verdadeiro mestre malandro. No centro, ele mudou o protocolo (fez o Skank ficar quando estava programado para sair), se comunicou com o público, pediu solos nas deixas das canções e “regeu” todos os músicos ali presentes com gestos. Não houve cerimônia que abalasse o compromisso de Ben Jor com o balanço: minutos depois de ele surgir, uma parcela considerável do público deixou as mesas vazias para ocupar os espaços à frente do palco. Dadi Carvalho, diretor musical da apresentação, apareceu na banda de Ben Jor como baixista.

“Gosto do creme Nivea desde garotinho”, disse, carismático e superando um microfone ruidoso, antes de cumprimentar Skank e Céu. Depois de performances como “Jorge de Capadócia”, “Cadê o Penalti?” (com o Skank), “A Banda do Zé Pretinho”, “Por Causa de Você, Menina” (com uma Céu desenvolta), medleys que uniram “Que Maravilha” a “Magnólia” e “Zazueira” a “Minha Menina”, já estava claro que as apresentações anteriores pareceram mesmo aquecimento para o nome principal.

Jorge Ben Jor manteve a imagem soberana sem nenhuma soberba ou postura blasé. Pelo contrário, sacudiu o Vivo Rio e transformou o ambiente pomposo de homenagem em uma festa suada e sem vergonha. O estonteante segmento final, por exemplo, teve, entre outras, “Mas Que Nada” (com Céu), “Quero Toda Noite”, “Zumbi”, “Take It Easy My Brother Charles”, “W Brasil” e “Umbabaraúma” (com Skank), antes de Skank, Céu e Ben Jor mostrarem juntos “Fio Maravilha”, “Taj Mahal”, “Spirogyra Story” e (novamente) “País Tropical”.

Se Céu e Skank apresentaram desdobramentos interessantes das canções do carioca, o dono da noite fez jus ao posto relembrando o que há de essencial em sua arte: o vigor e a capacidade de fazer dançar que não ficaram presos à produção fonográfica dos anos 1960 e 1970. O show do Nivea Viva de 2017 ronda as 3h de duração e é mais que uma celebração a uma obra definidora da música no Brasil: é a ratificação da força irresistível da ginga de Ben Jor.

O público comum – que já havia ouvido nos últimos anos, por oferecimento da Nivea, Elis Regina na voz de Maria Rita, Tom Jobim por Vanessa da Mata, o samba brasileiro por Martinho da Vila, Alcione, Roberta Sá e Diogo Nogueira, Tim Maia por Criolo e Ivete Sangalo, o rock nacional por Nando Reis, Paralamas do Sucesso e Paula Toller –, poderá ver o show temático de Jorge Ben Jor em eventos gratuitos em Porto Alegre (2 de abril), Rio de Janeiro (9), Fortaleza (7 de maio), Recife (21), Brasília (11 de junho) e São Paulo (25).

Recomendadas