David Bowie morre aos 69 anos

Lendário músico lutava contra um câncer
  • Imprimir
David Bowie
Associated Press
por Redação
11 de Jan. de 2016 às 05:13

Atualizado em 12/1, às 21h18

O lendário David Bowie, um dos artistas mais revolucionários do século 20, morreu neste domingo, 10. Ele tinha 69 anos. A informação foi divulgada nas redes sociais do cantor.

“David Bowie morreu em paz hoje, cercado por sua família depois de uma corajosa batalha de 18 meses contra o câncer. Enquanto muitos vão dividir a dor pela perda dele, pedimos que vocês respeitem a privacidade da família neste período de luto”, informou o comunicado oficial.

O diretor Duncan Jones, um dos dois filhos de Bowie, também se pronunciou no Twitter. "Muito triste em dizer que é verdade. Ficarei offline por um tempo. Amor para todos", escreveu.


Como Ziggy Stardust caiu na Terra: em 1972, David Bowie tentava manter a sanidade enquanto tornava o rock seguro para deuses do glitter e das esquisitices espaciais.

Nascido David Robert Jones, em 8 de janeiro de 1947, na cidade de Brixton, Londres, Bowie formou a primeira banda aos 15 anos, The Konrads. Ele adotou o sobrenome Bowie em meados dos anos 1960, já que seu sobrenome de registro gerava confusão com Davy Jones, do grupo The Monkees.

O pai dele, Heywood Jones, trabalhava em uma instituição de caridade para crianças e a mãe, Margaret Mary Jones, era garçonete. Uma briga com um colega de escola deixou a pupila de um dos olhos de Bowie permanentemente dilatada. Ele começou a tocar saxofone no início da adolescência. Aos 20 anos, já tinha passado um tempo em um monastério budista na Escócia e trabalhado em companhias teatrais.

O primeiro single, "Liza Jane", saiu sob o nome Davie Jones with the King Bees, em 1964, sem sucesso. A carreira do artista começou a tomar forma com o lançamento do álbum de estreia, homônimo, em 1967. Mas o primeiro marco veio no segundo trabalho, também chamado David Bowie (e depois rebatizado como Space Oddity), em 1969, com a música-título. O verso inicial se tornou um clássico: "Ground control to Major Tom". Este álbum também foi o início da parceria de Bowie com Tony Visconti, produtor que viria a trabalhar com o artista diversas vezes mais tarde. É de Visconti, inclusive, a produção dos dois últimos discos de Bowie, The Next Day (2013) e o recém-lançado Blackstar, que chegou ao mercado na última sexta, 8.

É possível dizer que em seus primeiros anos Bowie teve como uma de suas principais influências o cantor e compositor britânico Scott Walker. Bowie, no entanto, viria ele próprio a se tornar uma influência para um sem número de artistas. Sempre destruindo padrões, ele passeou por inúmeros gêneros: glam rock (o personagem Ziggy Stardust, do disco Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, é um dos mais emblemáticos da história do rock), soul, música eletrônica, entre tantos outros.

Na lista de seus inúmeros hits, estiveram “Changes”, “Fame” e “Heroes” (trilha da adaptação cinematográfica do livro Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada, Prostituída). O impacto dele na música é imensurável – entre os músicos que fizeram covers de suas canções e que em algum momento o citaram como influência estão Nirvana, Joan Jett, Duran Duran, Smashing Pumpkins, Marilyn Manson, Arcade Fire, Oasis, Ozzy Osbourne, Morrissey, Beck, Red Hot Chili Peppers, Lady Gaga, Bauhaus e Nine Inch Nails.

“David Bowie foi uma das minhas inspirações mais importantes, tão destemido, tão criativo, ele nos deu mágica para uma vida inteira”, escreveu Kanye West no Twitter. “Rezo por seus amigos e família.”

Inquieto e inigualável, Bowie também teve, no entanto, períodos de baixa, na segunda metade dos anos 1980 e na década de 1990. Mas sempre foi capaz de se reinventar. Blackstar é um exemplo disso: já considerado um ponto alto em uma carreira que teve diversos pontos altos, o disco de sete faixas mistura jazz, rock e elementos de música eletrônica de maneira experimental e inovadora. "David desconstroi gêneros musicais. Mal posso esperar para que comecem a sair álbuns imitando Blackstar”, disse Tony Visconti em recente entrevista à Rolling Stone.

Em 2004, durante a turnê do disco Reality, Bowie sofreu problemas do coração e interrompeu abruptamente a excursão. Foi o início de um longo período distante da mídia e dos estúdios. O silêncio – ao menos musical, já que Bowie há anos não concedia uma entrevista – foi quebrado em 2013, com o lançamento surpresa da canção "Where Are We Now?", no dia do aniversário de 66 anos de Bowie.

Entrevista: em 2003, David Bowie falou sobre "tocar mal", revelou seu Beatle favorito e disse admirar o Radiohead.

A carreira de ator também foi frutífera, com o astro tendo papeis memoráveis em filmes como O Homem que Caiu na Terra (seu primeiro papel em um longa-metragem), Labirinto e Fome de Viver, para citar alguns. Em 1980, foi protagonista na produção teatral O Homem Elefante. No ano passado, trabalhou na concepção do musical teatral Lazarus, que dá continuação à história do personagem de O Homem que Caiu na Terra.

"Lazarus" é também o nome de uma das músicas de Blackstar. Nos clipes desta canção e da faixa-título do álbum, Bowie deu, pela derradeira vez, amostra de sua veia teatral e performática.

Bowie casou pela primeira vez em 1970, com Mary Angela Barnett. Um ano depois, Angela deu à luz o filho do casal, Duncan Zowie Haywood Jones. Os dois se divorciaram em 1980.

Enquanto ainda estavam juntos, Bowie disse ser gay em 1972 – foi um dos primeiros artistas da música do século 20 a fazer essa declaração – e, em 1976, afirmou que era bissexual. Mais tarde, se arrependeu, muito por conta do peso dado a isso. "O maior erro que já cometi foi ter afirmado àquele jornalista que era bissexual", falou à Rolling Stone EUA em 1983. "Jesus, eu era tão jovem naquela época. Estava experimentando."

Em 1992, Bowie casou com a modelo e empresária Iman, com quem teve uma filha, Alexandria Zahra Jones, no ano 2000.

Ouça dez raridades de David Bowie escolhidas por leitores da Rolling Stone EUA.

Discografia
Em 1967, Bowie lançou o autointitulado disco de estreia, que não foi bem recebido nem no Reino Unido nem nos Estados Unidos. As coisas mudaram no lançamento seguinte, Space Oddity, citado acima.

Depois vieram The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971), que tem uma das favoritas dos fãs, o hit “Changes”, além de “Oh! You Pretty Things”, “Life on Mars” e músicas sobre Bob Dylan (“Song for Bob Dylan”) e Andy Warhol (“Andy Warhol”). Anos mais tarde, Bowie interpretaria o fundador da Factory na cinebiografia do artista Jean-Michel Basquiat (Baquiat – Traços de uma Vida, de 1996).

Foi em 1972, porém, que Bowie lançou sua primeira obra-prima, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Encarnando o papel de um rock star com mensagens interplanetárias, ele criou um visual glam para si e amplificou o lado teatral de seus shows, ao lado do mestre da guitarra Mick Ronson. Ziggy era descarado e arrogante, mas se tornou querido pelos fãs. Além da faixa-título, as canções “Starman”, “Suffragette City” e “Five Years” se tornaram indispensáveis ao vivo. Em 1973, Bowie abandonou o personagem nos palcos; o último show foi gravado e lançado em home video.

Em 1972, Bowie também começou a trabalhar nos bastidores de discos de amigos. Naquele ano, produziu e tocou saxofone em All the Young Dudes, do Mott the Hoople, tendo escrito a faixa-título (a canção aparece em ume versão de Bowie no registro em vídeo do último show como Ziggy). Na mesma época, deu nova vida a Lou Reed, produzindo o clássico Transformer, tido por muitos como o melhor disco solo do ex-vocalista do Velvet Underground. E em 1973 ele fez a mixagem de Raw Power, do Iggy and the Stooges. Alguns anos mais tarde, quando vivia em Berlim, Bowie produziu os dois primeiros discos solo de Iggy Pop, The Idiot e Lust for Life, ambos lançados em 1977.

Ainda remetendo ao visual de Ziggy Stardust, o artista criou Alladin Sane (1973), que veio com os hits “The Jean Genie” e “Drive-In Saturday”, além de uma versão para “Let's Spend the Night Together”, dos Rolling Stones. Seguiram-se o álbum de covers Pin Ups (1973) e Diamond Dogs (1974), com o mega-sucesso “Rebel Rebel”.

Em Young Americans (1975), Bowie incorporou soul, funk e disco ao som que fazia, como na faixa-título do trabalho e em “Fame”. Foi um movimento arriscado, mas o álbum chegou ao segundo lugar das paradas no Reino Unido e ao número 9 nos Estados Unidos. Ele se aprofundou no funk em Station to Station (1976), tendo, nesse período, ficado pesadamente viciado em cocaína. “Golden Years” se tornou um hit, mas, como um todo, o disco mostrou Bowie caminhando em direção ao experimentalismo.

Bowie então se mudou para Berlim, na Alemanha, continuando o uso de drogas e passando a se interessar por elementos eletrônicos na música. Foi aí que nasceu a chamada “Trilogia de Berlim”, que começou com Low (1977). O álbum combinava art-rock e música atmosférica, com a colaboração de Brian Eno. “Sound and Vision” foi sucesso no Reino Unido e deu o tom para os dois discos seguintes, “Heroes”, lançado no mesmo ano, com a reconhecível faixa-título, e Lodger (1979), com “Boys Keep Swinging”.

Bowie deixou as drogas ainda nos anos 1970. Na década seguinte, ele buscou um som mais radiofônico. Chegou ao nº1 com “Ashes to Ashes”, que continuava a história de Major Tom, personagem apresentado em “Space Oddity”. “Fashion” também foi muito tocada. Ambas apareceram em Scary Monsters (And Super Creeps). Em 1981 ele gravou um dueto com o Queen em “Under Pressure”, outra canção bem-sucedida nas listas de principais singles do ano.

Em 1983 foi a vez de Let’s Dance, que ele coproduziu com Nile Rodgers, do Chic. A colaboração, que incluiu participação do guitarrista Stevie Ray Vaughan, deu origem aos singles “Let's Dance”, “China Girl” e “Modern Love”; o hit seguinte foi “Blue Jean”, do disco Tonight (1984). O último nº1 do artista no Reino Unido foi a cover de “Dancing in the Street”, do trio Martha and the Vandellas, em dueto com Mick Jagger.

À exceção de “Absolute Beginners”, de 1986, o restante dos anos 1980 foi menos frutífero para Bowie do ponto de vista musical. Ele lançou Never Let Me Down em 1987 e fechou a década como integrante do grupo de hard rock Tin Machine, que viria a lançar um segundo disco em 1991.

Bowie mudou de direção novamente em 1993 quando, influenciado pela música eletrônica, lançou Black Tie White Noise, outra coprodução com Nile Rodgers, que acabou sendo menos comercialmente aceita nos Estados Unidos. Ele flertou com o som industrial em Outside (1995). No ano seguinte entrou para o Hall da Fama do Rock and Roll, apadrinhado por David Byrne, do Talking Heads.

Em 1997, Bowie celebrou seu aniversário de 50 anos com um show repleto de convidados no Madison Square Garden, em Nova York: Lou Reed, Robert Smith (The Cure), Billy Corgan (Smashing Pumpkins), Black Francis (Pixies), Foo Fighters e Sonic Youth subiram ao palco com o astro. Naquele mesmo ano, trabalhou com Trent Reznor e Brian Eno em canções de Earthling; um retorno ao rock ocorreu em Hours... (1999). A mesma atmosfera foi explorada em Heathen (2002) e Reality (2003), ambos produzidos por Tony Visconti, o mesmo responsável pelos dois últimos discos de Bowie, The Next Day (2013) e Blackstar (2016).

Recomendadas