Documentário mostra as turnês dos Beatles e o impacto da banda na década de 1960

The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years, dirigido por Ron Howard, será exibido nos cinemas até o próximo 5
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The Beatles
Reprodução/Vídeo
por Paulo Cavalcanti
2 de Fev. de 2017 às 19:45

No segundo semestre do ano passado, o documentário The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years, dirigido por Ron Howard, foi exibido em cerca de 30 países, mas o Brasil ficou de fora. Mas a partir desta quinta, 2, ate o domingo, 5, será a nossa vez de assistir ao longa em tela grande. Ele será exibido em sessões especiais em cinemas de Barueri, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Juiz de Fora, Maceió, Niterói, Porto Alegre, Recife, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Salvador, São Luis, São Paulo. Após a exibição do documentário, os fãs ainda poderão assistir na íntegra à famosa apresentação dos Beatles no Shea Stadium, em 1965, em uma cópia com som e imagens remasterizados.

Antes de os Beatles se consagrarem em disco, eles já conquistavam o público com o som vibrante que faziam no palco. No inicio, a banda fez o nome no icônico Cavern Club, em Liverpool, cidade natal deles, e depois em Hamburgo (Alemanha), no Star Club. No começo, as apresentações eram cruas e instintivas. Quando o grupo começou a trabalhar com o empresário Brian Epstein, tudo mudou. Os longos sets se tornaram enxutos e o hábito que tinham de fazer piadas, falar palavrões e mascar chiclete no palco se foram – os Beatles se profissionalizavam. Em 1963, quando a banda explodiu de vez em todo o território inglês, foi cunhada a expressão Beatlemania. O termo traduzia toda a loucura que era uma apresentação ao vivo dos Beatles.

A partir do começo de 1964, quando o quarteto conquistou os Estados Unidos, os integrantes foram arrastados para uma incessante rotina de turnês mundiais. No começo era até divertido, mas logo os músicos perceberam a inutilidade de tocar um set de meia hora para uma plateia que não estava interessada em ouvir a música e só queria ir aos shows para gritar e encobrir o som que saía dos mirrados amplificadores usados na época. De qualquer forma, a demanda para os shows deles era enorme. Em agosto de 1965, o Fab Four inaugurou a era dos mega shows em estádio, apresentando-se para 56 mil pessoas no antigo Shea Stadium, em Nova York.

Ainda assim, os Beatles seguiam insatisfeitos e cansados da constante vida na estrada. Na Flórida, se recusaram se a se apresentar em um show onde haveria segregação racial. Na coletiva de imprensa realizada na época, Paul McCartney diz: “Isso não acontece na Inglaterra. Você não pode tratar as pessoas como se fossem animais”. Os promotores recuaram e os Beatles tocaram para uma plateia racialmente integrada. Em 1966, enfrentarem problemas nos sul dos Estados Unidos – os religiosos encrencaram com John Lennon depois que ele declarou, ao comentar sobre a popularidade da própria banda, que "os Beatles era maiores do que Jesus Cristo”. Nas Filipinas, eles esnobaram Imelda Marcos, mulher do ditador Ferdinand Marcos, e quase foram espancados pelos milicianos governistas. A imprensa também pressionava. Em uma cena reveladora, uma repórter tenta intimidar a banda e pergunta: “Por que vocês são tão esnobes?”. O clima fica ruim e McCartney responde: “Não somos esnobes, Só não somos obrigados a responder o que vocês querem ouvir”. Depois de tantas polêmicas, a banda decidiu que não iria mais se apresentar ao vivo e a partir daquele momento o foco estaria apenas no trabalho em estúdio. A derradeira apresentação aconteceu no dia 29 de agosto de 1966, no Candlestick Park, em São Francisco, nos Estados Unidos.

A promessa de parar com as turnês foi cumprida. Logo depois que eles se despediram definitivamente dos palcos, lançaram o álbum Revolver e a história da música popular seria mudada para sempre. O trabalho apresentado em Revolver não poderia ser reproduzido com facilidade no palco. Com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) a metamorfose foi completada. Os Beatles só tocariam ao vivo novamente (de uma forma improvisada) em 1969, no topo do prédio da Apple em Saville Row, em Londres. As cenas foram filmadas para serem incluídas no documentário Let It Be, lançado em 1970. Mas na realidade aquilo não foi um show, já que não foi cobrado ingresso e eles não estavam em um palco de verdade – além disso, foram vistos apenas pelos transeuntes, que tiveram muita dificuldade de ouvir a música de lá de baixo.

Esta parte seminal da carreira do Fab Four é contada de maneira completa e exemplar em The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years com a ajuda de entrevistas recentes que Howard fez com Paul McCartney e Ringo Starr, além de imagens de arquivo com John Lennon e George Harrison. Gente que mais tarde se tornaria famosa, como Whoopi Goldberg e Sigourney Weaver, e que assistiram aos Beatles ao vivo contam como foi a inesquecível experiência. No caso de Sigourney, até existe um trecho de uma gravação onde ela pode ser vista, ainda adolescente, curtindo a perfomance dos ídolos no Hollywood Bowl, em 1965. A banda é vista em ação em cenas no Washington Coliseum, no Shea Stadium, no Budokan Hall (Japão) e em outros locais. Mesmo quem é colecionador dos Beatles ficará impressionado ao se deparar com a quantidade de imagens raras e inéditas.

Em breve, a Universal Music lançará o documentário em DVD, nas versões simples e Deluxe Duplo. A edição simples contará com a íntegra do documentário. Já a de luxo terá, além do filme, mais de 100 minutos de material especial, tudo em uma embalagem digipak de luxo acompanhado de um livreto de 64 páginas com fotos raras. Mas é indispensável assistir ao documentário em tela grande. Ele mostra como era paradoxal esta fase da trajetória dos Beatles. No começo, eram quatro jovens entusiasmados, que davam o sangue e apresentavam a música que faziam com garra e energia. No final, já estavam desanimados, como pode ser visto nos shows acontecidos no Japão, já na reta final dessa fase. Mas se um capítulo se encerrava ali, uma etapa nova e até mais excitante tinha início.

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