Documentário sobre o primeiro filme pornô brasileiro estreia em São Paulo

Neste sábado, 7, faz 30 anos da primeira exibição de Coisas Eróticas

Stella Rodrigues Publicado em 07/07/2012, às 11h35 - Atualizado às 12h52

Coisas Eróticas
Reprodução

“Tinha que ser um trambiqueiro da Boca do Lixo para fazer o primeiro filme pornô brasileiro”. A declaração é de quem entende do assunto, Hugo Moura, codiretor do documentário A Primeira Vez do Cinema Brasileiro, que ao lado de Denise Godinho e Bruno Graziano, transformou o projeto de TCC em filme e em um livro complementar. A ideia era contar a história curiosa de como foi feito e lançado o primeiro filme com cenas explícitas de sexo produzido em território nacional. É surpreendente pensar que faz só 30 anos que a nossa indústria pornô, que já alcançou o status de terceira maior do mundo, teve início. Provavelmente por causa da era da pornochanchada, a sensação é que faz mais tempo. Mas a verdade é que foi em 7 de julho de 1982, em uma época em que a ditadura começava a mostrar alguns sinais de abertura, que foi exibido pela primeira vez um filme pornográfico feito por um brasileiro, no Cine Windsor, no centro de São Paulo. Sim, porque em uma época anterior à internet e até ao VHS, era lá que a produção pornô da época era exibida.

É claro que por mais que a censura estivesse se afrouxando, não deixou Coisas Eróticas passar incólume. O primeiro corte dos censores foi brutal. A princípio, “eles pediram para que fosse cortado o segundo quadro, estavam se referindo ao segundo curta dos três que compõem o filme”, conta Hugo. Espertamente, o diretor Rafaelle Rossi, fazendo jus à fama de trambiqueiro que construiu ao colecionar dívidas por toda a Boca do Lixo, “errou” na interpretação de texto e cortou o segundo frame do filme. Por motivos que nem Hugo, após tanta pesquisa, sabe explicar direito, quando o corte voltou para os censores, foi liberado. A estreia nos cinemas foi um estrondo e o boca a boca foi intenso, logo Coisas Eróticas estava sendo exibido no país todo. “Quando a ditadura viu a besteira que fez era tarde demais, ia ficar pior tirar de circulação e àquela altura muita gente já tinha visto.”

O público pagante registrado pela ANCINE é de deixar com inveja os diretores de comédias românticas nacionais, que costumam ser os filmes brasileiros com mais público. 4,5 milhões de pessoas passaram pelos cinemas. Isso quer dizer que o filme tem até hoje uma das maiores bilheterias nacionais.

Como era de se esperar, cinematograficamente não havia muita qualidade em Coisas Eróticas - ainda menos do que há hoje. Afinal, não se trata bem de um filme. A importância dele está no marco histórico e é exatamente o primitivismo das filmagens, além de mil idiossincrasias do diretor, que serviu um prato cheio para a realização do documentário. “Como não tinha som direto na época, era tudo dublado. Tem cena de sexo dublada pela voz clássica do Fred Flinstone”, conta Hugo. O filme explora também o fato de que o pontapé inicial na produção nacional de pornôs que acabou com o que era a Boca do Lixo, que até então se dedicava às chanchadas. “Como estava todo mundo indo ver Coisas Eróticas, os produtores só queriam pornografia com sexo explícito a partir de então.”

A parte preferida de Hugo no documentário, porém, é ter uma das últimas entrevistas do cineasta Carlos Reichenbach, que morreu em 14 de junho deste ano. “Fiquei muito feliz que pude dar voz a ele sobre esse assunto antes que ele morresse”. A Primeira Vez do Cinema Brasileiro será exibido neste sábado, 7, às 19h, no Cine Windsor (Avenida Ipiranga, 974) - Sé / República ). Às 20h30 haverá um coquetel e, às 21h, um debate com a presença de Eduardo Rossi (filho do Raffaele), Walder Laurentis (ator de Coisas Eróticas) e Débora Muniz (atriz da Boca e que falará sobre o período de transição entre pornochanchada e o pornô). Às 22h, acontece uma exibição de Coisas Eróticas). A entrada é franca.