Um encontro com Lee Ranaldo, ex-Sonic Youth, que comenta a relação com o Brasil e o novo disco solo

Prestes a lançar o álbum Electric Trim, guitarrista passou novamente pelo país em agosto; Ranaldo fez contato com Kiko Dinucci e Juçara Marçal e ganhou discos do Metá Metá
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por Lucas Brêda
8 de Set. de 2017 às 08:08

“Não sei para vocês, mas aqui o som está muito limpo… Precisava ser um pouco mais grosseiro”, diz Lee Ranaldo, incomodado, enquanto conversa com o técnico de som brasileiro no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, em agosto. Era a passagem de som para o show que ele faria algumas horas mais tarde. Sozinho, se revezando entre três violões e alguns pedais, ele ensaia os versos da inédita “Thrown Over the Wall”, antes de recuperar uma cover frequente no repertório dele: “Revolution Blues”, originalmente gravada por Neil Young em On the Beach (1974).

“A essa altura, já não é algo tão novo”, Ranaldo comenta sobre a relação com o violão acústico, depois de anos explorando texturas e construindo guitarras com o Sonic Youth. “Sempre toquei violão – publicamente, era só guitarra, mas isso mudou por volta de 2011. Me chamaram para tocar na França e insistiram que seria um show acústico, apesar de eu nunca ter feito isso em, tipo, 25 anos. Mas eu fui.” Da mesma forma que no uso que ele faz da guitarra elétrica, o instrumento acústico se desdobra em possibilidades, afinações e texturas. Ranaldo não considera o formato menos experimental. “É mais experimental – todo mundo está tocando com duas guitarras e um baixo”, provoca. “Para mim, com o meu passado, é a coisa mais arriscada que posso fazer. Poderia vir com duas guitarras ou só eu mesmo com uma guitarra altíssima – seria muito mais fácil.”

“Um cantor de folk experimental” é, portanto, como o guitarrista se define neste momento da carreira. A passagem de Ranaldo pelo Brasil antecipou o lançamento de um novo álbum solo, Electric Trim (previsto para 15 de setembro), sucessor de Last Night on Earth (2013). No LP, ele troca a banda que o acompanha, The Dust, por colaboradores que vão de Nels Cline (guitarrista do Wilco) a Sharon Van Etten, passando pelo baterista Steve Shelley, ex-companheiro de Sonic Youth.

Electric Trim é a fusão da veia “cantautor” – ressaltada nas turnês sozinho ao violão – com a vontade de explorar ideias em estúdio. “Não são músicas de banda, não têm essa dinâmica. São as coisas que faço no meu sofá ou na minha garagem”, ele explica sobre a origem das canções, posteriormente trabalhadas com o produtor catalão Raúl “Refree” Fernandez, tanto em Barcelona quanto em Nova York. “Em nenhum momento do disco há sequer duas pessoas tocando ao mesmo tempo. Começou com minhas demos acústicas e depois fazíamos: ‘E se mudarmos o refrão de lugar?’, ‘E se fizermos isso?’. Íamos juntando as ideias no computador e depois eu gravava uma guitarra; ele, um piano.”

Ranaldo compara a produção de Electric Trim à de álbuns como Pet Sounds (1966, dos Beach Boys) ou Revolver (1966, dos Beatles), símbolos de quando artistas começaram a explorar fragmentos sonoros e o próprio estúdio para a criação musical. “Quando começava a aparecer uma música, a gente chamava as pessoas para colaborarem”, ele conta, indicando a dinâmica de um quebra-cabeça. “Usamos as gravações que eles deixaram tanto quanto as coisas que nós tocamos. Nels está em umas três músicas. Era: ‘O que fica melhor aqui? O solo do Nels? Vamos tentar um pandeiro!’. Sei lá, construímos o disco como uma criação do estúdio. Foi um processo espalhado por cerca de um ano. Muito, muito gostoso de fazer.”

“Você ouviu o disco?”, ele questiona, ansiando uma opinião de fora sobre o novo trabalho, antes de reclamar da qualidade da internet móvel de São Paulo. Além da curiosidade natural, Ranaldo parece querer saber como está soando aos ouvidos dos brasileiros – dos quais não quer permanecer longe. Depois de turnês no Hemisfério Norte, Ranaldo deve voltar ao país para mostrar mais do que algumas faixas – incluindo a já citada “Thrown Over The Wall” – de Electric Trim. “Sei lá por que eu volto”, desconversa, confessando que o fato de o show derradeiro do Sonic Youth ter acontecido no festival SWU 2011, no interior de São Paulo, não lhe traz lembranças ruins. “Gosto da cultura, gosto da música, gosto de estar aqui.”

Quando retornar, Ranaldo deve ter ampliado o conhecimento que tem da música nacional, que já vai de toda a Tropicália até Secos & Molhados e canções de viola caipira. Kiko Dinucci, guitarrista do Metá Metá, estava assistindo à passagem de som com uma mochila cheia de vinis antigos do Sonic Youth para serem assinados. Dias antes, o norte-americano apareceu em uma foto no Instagram ao lado de Juçara Marçal, vocalista do grupo brasileiro. “Metá Metá? Eles me deram discos, mas ainda não consegui ouvir”, diz. Sugiro que Dinucci e o som da banda são influenciados pelo som dele com Sonic Youth. Arregalando os olhos, ele desacredita: “ Mesmo? Sério? Uau!”.

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