Enquanto Jessica Jones enche a cara, Krysten Ritter faz tricô

Atriz comenta a segunda temporada da série da Netflix, especula sobre a carreira musical e explica como tricotar se tornou uma forma de terapia

Bruna Veloso Publicado em 08/03/2018, às 19h25 - Atualizado às 19h54

A estrela da série Jessica Jones não é uma justiceira qualquer
SHERYL NIELDS

Enquanto Jessica Jones tenta curar seus muitos traumas com doses cavalares de álcool, Krysten Ritter mantém o equilíbrio tricotando. Uma dicotomia interessante entre a conturbada heroína da Marvel --- cuja série ganha segunda temporada nesta quinta, 8 de março, na Netflix --- e a norte-americana que a interpreta. Ainda assim, a convivência de três anos entre personagem e atriz tem pulado das televisões para a vida real. “Ela se torna parte de você. Para mim, por exemplo, ficou mais difícil sair durante o dia com vestidinhos de estampa floral, como eu costumava fazer, porque fiquei muito acostumada a me sentir confortável com o figurino da Jessica”, explica Krysten, em entrevista por telefone. “E as minhas piadas às vezes são um pouco mais sombrias do que costumavam ser [risos].”

As cicatrizes deixadas pelo passado são exploradas nesta segunda temporada de Jessica Jones. Se a primeira temporada mostrou --- em um irresistível clima noir regado a uísque e algumas tórridas cenas de sexo entre Jessica e Luke Cage (Mike Colter) --- o conflito da protagonista com um dos melhores vilões do Universo Cinematográfico Marvel, Killgrave (David Tennant), a segunda traz um aprofundamento psicológico. De um lado, porque Jessica vai em busca das próprias origens. De outro, porque ela lida com as consequências pessoais de ter assassinado Killgrave ao final da primeira temporada.

“Ela luta com questões internas --- é uma assassina de sangue frio ou fez a coisa certa?”, analisa Krysten. “E tem outra questão. Acho que o modo como lidamos com traumas nas nossas vidas às vezes não corresponde às expectativas que os outros têm de nós. Há situações em que algo acontece e você está mal, mas as pessoas no entorno têm a leitura de que ‘ah, você está bem, já passou esse tempo todo, então você definitivamente deveria estar bem a essa altura’.” Para completar, à medida que a história se desenvolve, como revela Krysten, as forças antagonistas dessa temporada se mostram muito mais pessoais para Jessica, desnudando algumas das raízes que fizeram dela a mulher que é.

Aliás, obviamente não foi à toa a escolha de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, como data de estreia para a segunda temporada de Jessica Jones. A série, além de ser uma das (ainda) poucas obras audiovisuais com uma heroína na linha de frente, conta com uma criadora e showrunner, Melissa Rosenberg, e teve todos os 13 episódios da segunda temporada dirigidos por mulheres. “O legal é poder ter, com mulheres, conversas que se desenvolvem rapidamente quando há questões técnicas ou envolvendo sexo. Tipo, ‘vamos mostrar esse tanto de pele’: essa conversa é bem mais fácil com uma mulher. Mas preciso dizer que, a certa altura, eu simplesmente esquecia o gênero de quem estava comigo. Estávamos simplesmente ali, trabalhando e fazendo a série.”

Jessica Jones estreou em 2015, antes dos escândalos envolvendo os abusos sexuais e estupros perpetrados por Harvey Weinstein e outros homens poderosos da indústria cinematográfica. A força de Jessica --- ela própria uma sobrevivente de abusos --- e do papel de uma série comandada por uma equipe feminina se faz ainda mais latente, mesmo que os novos capítulos tenham sido rodados antes de toda a polêmica que tomou Hollywood em 2017. “Lembro de mandar uma mensagem para a Melissa [Rosenberg], dizendo: ‘Caramba, dá para acreditar que isso está acontecendo justamente agora, com todo esse pano de fundo na série?’. São sentimentos que estão dormentes nas mulheres há muito tempo, e que neste momento estão chegando à superfície. E sou feliz por termos uma personagem que representa a raiva que muita gente sente.”

Killgrave, sons e tricô

Krysten Ritter, Melissa Rosenberg e todo o time de roteiristas estavam cientes da expectativa dos fãs em relação ao vilão da segunda temporada, já que o Killgrave incorporado por David Tennant se tornou, em pouco tempo, uma espécie de mito dentro das produções do UCM. “Acho que David é o melhor e Killgrave é lendário. Mas também acho que os roteiristas conseguiram fazer algo muito surpreendente nessa temporada, algo muito inesperado. Eu fiquei surpresa quando li o roteiro.” Note-se, porém: Killgrave volta a aparecer nos novos episódios.

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Para a atriz, outro destaque atual é o olhar sobre a convivência entre Jessica e Trish Walker (Rachael Taylor). “A relação entre a Jessica e a Trish é o coração da série. Jessica se sente culpada por não ter conseguido proteger mais a Trish quando elas eram jovens. Trish é tudo que Jessica tem. Ao mesmo tempo, existe também uma questão de ciúmes --- talvez Jessica queira o que Trish tem na vida.”

Na série, a maior relação de cumplicidade é mesmo entre Jessica e Trish. Na vida real, no entanto, Krysten ganhou outra grande amiga por conta do trabalho. “Carrie Anne-Moss [que dá vida à implacável advogada Jeri Hogarth] se tornou uma irmã pra mim”, conta. “O legal de gravar séries são as relações pessoais. Fiz tantos grandes amigos! É algo que me deixa muito feliz, porque, sabe, nem todo mundo faz novos melhores amigos aos 30 e poucos anos.”

Esse círculo de amizades, além do convívio com Krysten, costuma ganhar presentes pessoais da atriz: ela é uma “tricotadora” incansável e tem em suas criações não apenas uma maneira de mimar as pessoas próximas, como também uma espécie de terapia. “Faço pequenas coisas para manter o equilíbrio, e o tricô é um ótimo jeito de meditar. Há nisso um prazer e um senso de realização”, afirma. “Amo fazer coisas para outras pessoas. É uma atividade que expandiu a minha vida, de certa forma. Se fico sabendo que alguém está esperando um bebê, por exemplo, fico tão feliz que quero fazer algo para aquela pessoa. E é o tipo de coisa que, quando você aprende, o céu é o limite. Dá para fazer qualquer coisa.” Ela aprendeu a tricotar quando jovem, ensinada por uma das avós, e sempre aparece em fotos no Instagram com agulhas e lã em mãos (“É algo que dá pra fazer no set, no avião, em qualquer lugar!”, anima-se).

Em meio às gravações de Jessica Jones e Os Defensores, Krysten ainda estreou recentemente como escritora, no thriller Bonfire. Ela também compõe: lançou o primeiro --- e até agora único --- disco, sob a alcunha Ex-Vivian, em 2012. Será que a veremos, desta vez com o público amplificado pelo sucesso de Jessica Jones, novamente empunhando uma guitarra? “Eu toco sempre que posso. Amo música, sempre há algo no som em casa. Tenho algumas coisas, mas tenho estado tão ocupada… Ainda assim, nunca descarto a possibilidade [de voltar a gravar].” Se Jessica influenciou Krysten a deixar de usar vestidos floridos no dia a dia, é bem possível que a influencie a gravar canções ainda mais sombrias caso ela resolva retornar aos estúdios musicais (alguns versos de “Ledges”: “E você está na prisão/ Todos nós já estivemos lá antes”).