Flashback: A Última Entrevista de Syd Barrett

Em 1971, a Rolling Stone falou com Barrett na casa dele, em Cambridge. Seria a última vez que o músico – “cheio de poeira e guitarras” – teria contato com a imprensa
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por Rolling Stone EUA
7 de Julho de 2016 às 18:27

Se você tende a acreditar no que ouve por aí ao invés de crer nos fatos, Syd Barrett está morto, preso ou virou um vegetal. Na verdade, ele está mais vivo do que nunca, na cidade onde nasceu, Cambridge, confundindo a todos com suas ideias. No período 1966-67, Barrett tocava guitarra solo e cantava com o Pink Floyd. Ele havia batizado a banda e compunha a maioria das músicas, incluindo os dois únicos singles de sucesso que a banda já teve. O estilo arrepiante de sua guitarra eletrônica e a presença de palco que sugeria um gnomo transformaram-no em uma autêntica figura cult na nascente cena underground londrina, na época começando a se reunir em lugares como o UFO Club e o Roundhouse. O Pink Floyd era a banda residente do local e a música rolava até altas horas.

Cambridge fica a uma hora de trem, partindo de Londres. Syd não vê muita gente hoje em dia. Visitá-lo é como se intrometer em um mundo particular. “Estou desaparecendo”, ele diz, “e evitando a maior parte das coisas”, completa. Ele parece tenso, incomodado. Rosto chupado e pálido, Barrett reflete um permanente estado de choque. Ainda assim, tem em si uma beleza fantasmagórica normalmente associada aos poetas antigos. O cabelo agora é curto, despenteado, os cachos ondulados se foram. As calças de veludo e as botas novas verdes, feitas de couro de cobra, expressam um pequeno elo com o modo como as coisas costumavam ser. “Estou seguindo pelo caminho inverso”, ele sorri. “Na maior parte, apenas passo o tempo”. Ele anda bastante. “Treze quilômetros por dia”, diz. “Dará algum resultado. Mas não sei como”.

“Me desculpe. Não consigo falar muito coerentemente”, diz ele. “É difícil pensar em alguém realmente interessado em mim. Mas sabe, cara, eu estou inteiro. Inclusive acho, que eu deveria estar”. Ocasionalmente Syd responde diretamente a uma pergunta. A maioria das respostas é fragmentada, uma sequência de pensamentos (as palavras de “Poem V” de James Joyce estão na música “Golden Hair”). “Estou cheio de poeira e guitarras”, diz ele.

“O único trabalho que fiz nos últimos dois anos foi dar entrevistas. Sou muito bom nisso”, fala Barrett. Na verdade, ele gravou dois álbuns neste período, produzidos por David Gilmour, substituto dele na banda. The Madcap Laughs, o primeiro, ele considera muito bom: “Um disco como uma pintura, tão grande quanto um celeiro”, explicita. Antes do Pink Floyd decolar, Barrett estudou artes. Ele ainda pinta. Algumas vezes são loucas florestas de bolhas grossas, às vezes linhas simples. A favorita dele é um semicírculo branco em uma tela branca.

No porão, local onde passa a maior parte do tempo, Barrett fica sentado cercado de pinturas e discos, amplificadores e guitarras. Parece seguro lá, exatamente como um personagem de uma de suas canções. Barrett diz que o músico favorito dele é Jimi Hendrix. “Excursionei com ele, sabe. Lindsay [Korner, uma antiga namorada dele ] e eu costumávamos sentar no fundo do ônibus. Hendrix ficava na frente. Lindsay nos filmava. Mas nós nunca conversamos de verdade. Era sempre assim. Ele era muito educado, melhor do que as pessoas achavam. Mas muito ciente da própria consciência. Jimi se trancava no camarim com uma TV e não deixava ninguém entrar”.

O próprio Syd é conhecido por se trancar sozinho, se recusando a ver qualquer pessoa por dias. Nos últimos meses em que fez parte do Pink Floyd, muitas vezes subia ao palco e não tocava mais do que duas notas durante o set inteiro. Barrett: “Hendrix era o guitarrista perfeito. E isso era tudo o que eu queria fazer quando era criança. Tocar guitarra direito e sair pulando. Mas muita gente atrapalhou. Sempre foi muito lento para mim. Tocar. O ritmo das coisas. Quero dizer, sou um cara acelerado. O problema era, depois de tocar em um grupo por alguns meses, eu não conseguia atingir esse ponto”.

“Sei que posso parecer nervoso ou ansioso, mas é porque me sinto frustrado em termos de trabalho, terrivelmente. A verdade é que não fiz nada este ano, provavelmente fiquei falando, explicando tudo isso. Mas o problema da parte sobre não trabalhar é que você fica pensando teoricamente”. Ele fala que gostaria de montar outra banda. “Mas não consigo achar ninguém. Esse é o problema. Não sei onde eles estão. Quero dizer, tenho uma noção que deve haver alguém para tocar junto. Se vou tocar do jeito certo, vou precisar de gente muito boa”.

Syd deixa o porão e sobe para uma sala calma, cheia de fotos dele e dos familiares. Ele foi uma criança bonita. O chá inglês – bolo e biscoitos – chega. Como muitos inovadores, Barrett parece ter perdido o reconhecimento financeiro que lhe é devido, enquanto outros encheram os bolsos. “Eu gostaria de ser rico. Gostaria de gastar bastante dinheiro em bens materiais e comprar comida para todos os meus amigos”.

“Vou mostrar minhas músicas antes de você ir embora. Acho tão empolgante. Estou feliz que você tenha vindo”. Ele pega um caderno contendo todas as músicas dele gravadas até o momento, cuidadosamente datilografadas, sem notações musicais. A maior parte delas funciona também como texto escrito. Às vezes simples, às vezes poéticas, embora nunca sem um toque de ironia. Às vezes surreais, imagens entrelaçando-se oniricamente, ecos de um panorama mental que desafia qualquer análise tradicional. A atual favorita de Syd é “Wolfpack”, de Barrett. É uma canção tensa, ameaçadora, claustrofóbica. Ela termina com o seguinte verso:

"Mind the Reflecting electricity eyes
The Life that was ours grew sharper
and stronger away and beyond
short wheeling fresh spring
gripped with blanched bones moaned
Magnesium Proverbs and sobs

[Cuidado com os olhos Refletindo eletricidade
A Vida que era nossa ficou mais afiada
e mais forte ao longe e além
curta primavera fresca
presa com ossos pálidos gemidos
Provérbios de Magnésio e soluços
]"

Syd Barrett acha entediante quem canta as próprias músicas. Ele nunca gravou composições de outros artistas. Ele pega um violão e começa a dedilhar uma nova versão de “Love You”, presente em Madcap. “Fiz essa ontem. Acho bem melhor. É meu violão novo de 12 cordas. Ainda estou me acostumando. Eu o poli ontem, é um Yamaha”. Ele para e começa a afinar o instrumento, balançando a cabeça. “Nunca me senti tão à vontade com uma guitarra quanto me sentia com aquela espelhada que eu usava nos shows o tempo todo. Troquei-a por uma preta, mas nunca toquei com ela”.

Hoje, Syd tem 25 anos e está preocupado com a própria velhice. “Não fui sempre assim introvertido”, ele diz. “Acho que os jovens deviam se divertir bastante. Mas acho que nunca me diverti”. De repente, ele aponta para a janela. “Já viu as rosas? Tem de uma porção de cores”. Syd diz que não toma mais ácido, mas não quer falar a respeito disso.... “Não há mais nada a ser dito”, responde. Ele vai até o jardim e se espreguiça em um velho assento de madeira. “Uma vez que você começa algo...”, ele diz, parecendo confuso. Então para. “Acho que não estou a vontade para falar disso. Tenho uma mente muito irregular. E de qualquer modo, não sou nada do que você acha que eu sou mesmo”.

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