Green Day retorna a SP resgatando raridades e com show mais “compacto” do que sete anos atrás

Trio norte-americano, que havia se apresentado na Arena Anhembi em 2010, retornou ao mesmo espaço para uma apresentação de 2h30 na noite de sexta, 3

Lucas Brêda Publicado em 04/11/2017, às 04h59 - Atualizado às 14h32

Green Day durante show na Arena Anhembi, em São Paulo

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Sete anos separam os dois shows do Green Day em São Paulo nesta década. Em 2010, no mesmo espaço, a Arena Anhembi, a banda vinha em seu momento mais grandioso, depois dos dois discos mais ambiciosos da carreira (American Idiot, de 2004, e 21st Century Breakdown, de 2009). Agora, o trio norte-americano voltou à capital paulista tendo passado por uma trilogia pouco (ou quase nada) celebrada (¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré!, de 2012) e retornando ao noticiário musical ao atualizar a veia política no recente Revolution Radio (2016). Do clima festeiro de 2010, algumas estripulias foram mantidas – fogos e chamas, papel picado, fãs chamados ao palco, as roupas extravagantes de “King For a Day” –, mas, mesmo tocando por 2h30, o Green Day da última sexta, 3, substituiu parte do tom épico de sete anos atrás por uma postura sutilmente mais direta e, consequentemente, mais condizente a atual condição de veterana da banda.

Até o setlist foi mais corajoso: a banda abriu mão de hits recentes (como “Wake Me Up When September Ends”) e foi buscar raridades antigas como “F.O.D.” (não tocada desde 2013, apesar de ter sido mostrada no último show de São Paulo), “Scattered”, “Waiting”, “J.A.R.” e “Armatage Shanks”, em uma sequência focada nos anos 1990 (e em Warning, de 2000). O momento de nostalgia da produção primordial do trio, que foi alçado ao sucesso com o punk desleixado – de letras sobre indignações e inseguranças adolescentes – de Dookie (1994), foi um presente à gigante fatia de fãs trintões e quarentões e também uma lembrança do porquê, mesmo com a dimensão adquirida após o sucesso comercial de American Idiot (2004), o Green Day é uma das bandas fundamentais na história do punk.

Outra lembrança da energia essencial do trio (que, no palco, chega a virar septeto) aconteceu quando o vocalista, Billie Joe Armstrong, agachado no palco, começou a falar: “Quer saber? Eu gosto dos loucos”, no meio da jam estendida de “King for a Day”, tradicionalmente emendada com “Shout” e com algumas citações a clássicos, entre eles “Hey Jude”, dos Beatles, “(I Can't Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, e “Break On Through (To The Other Side)”, do The Doors (teve até uma menção a “Garota de Ipanema” em um solo de sax). Ele continuou demonstrando amor pelos “esquisitos, estranhos”, pessoas que em geral têm dificuldade de se encaixar em padrões. Faixas como “Longview” – música sobre tédio e masturbação que, mesmo tocada noite após noite, parece manter intacto seu sentimento original – e até “Jesus of Suburbia” evocam ao palco personagens que são reflexos de um quinhão da sociedade desde sempre identificada com a obra do trio da Califórnia.

American Idiot, álbum mais bem-sucedido do Green Day, foi impulsionado pela revolta contra o então presidente norte-americano George W. Bush e o avanço de uma agenda conservadora da época. Revolution Radio, lançado em 2016, trouxe a banda de volta à evidência justamente ao recuperar a indignação da ópera-punk de 2004, só que desta vez com o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incorporando o novo momento político conturbado. E, das cinco performances que o disco recente rendeu ao show de São Paulo, as duas mais celebradas foram justamentes as mais ácidas: “Bang Bang” e “Revolution Radio”. A divertida “Youngblood” soou quase protocolar e “Forever Now”, junto a “Still Breathing” (canção demasiadamente melódica que funciona, em Revolution Radio, como “Wake Me Up When September Ends” funcionou em American Idiot e “21 Guns” em 21st Century Breakdown), pouco fizeram além de esfriar um pouco os ânimos antes do primeiro bis.

O Green Day também mostrou estar tirando o pé do acelerador e, apesar de fazer um show longo, regado a jams e performances alongadas, vem reduzindo os setlists, possivelmente para respeitar a idade cada vez mais avançada dos integrantes (no entanto, em relação à apresentação no Rio de Janeiro, dois dias atrás, São Paulo ouviu quatro músicas a mais). Armstrong, passando dos 45 anos, entretanto, continua um moleque frenético e cuja garganta parece não sentir os berros incessantes, pedindo gritos de “hey” tão facilmente quanto sai correndo pelo palco ou dispõe de gracinhas no microfone. Ele fez uma breve crítica a Trump em “Holiday” – respondido com gritos de “fora, Temer” –, discursou em prol da Amazônia, amarrou-se em uma bandeira LGBT e até deu uma espécie de “bronca” na plateia, em “Boulevard of Broken Dreams”. “Nós não precisamos de Facebook”, avisou, indiretamente pedindo para os fãs baixarem os celulares. “Não salve para depois. Viva agora.”

O vocalista, inclusive, é o símbolo de um momento de renovação para o Green Day. No começo da década, ele esteve envolvido com problemas de alcoolismo e conhecidamente foi parar na reabilitação. Neste mesma época, o grupo lançava os quase simultâneos álbuns ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré! (2012), tão mal recebidos e desnecessários que sequer renderam uma única faixa na atual turnê. A recuperação de Armstrong, que manteve a sobriedade por anos após os incidentes, significou também o resgate parcial de uma atmosfera menos apocalíptica do que a era-21st Century Breakdown havia estabelecido. Até por isso, o disco de 2009 só teve duas músicas tocadas em São Paulo, sendo uma delas a energética “Know Your Enemy”, na abertura, e a outra a balada “21 Guns”, inteira acústica, fechando ao lado da tradicionalmente derradeira “Good Riddance (Time of Your Life)”.

Os 25 mil que estiveram na Arena Anhembi na última sexta certamente saíram satisfeitos com a jornada de Armstrong e companhia. Não viram um setlist protocolar – uma seleção simplista das músicas mais conhecidas do cancioneiro – e nem uma banda ultrapassada – que se apoia em artimanhas apelativas ou em um passado quase inalcançável de tão distante. O Green Day de 2017, em São Paulo, foi humano e “compacto”, não viu problemas em abrir mão da megalomania, limitar a quantidade de hits e de músicas no setlist e resgatar “velharias” pouco conhecidas para soar menos “bombástico” – e levemente mais como o trio de maconheiros da classe operária que foi alçado ao sucesso global mais de 20 anos atrás.